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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Fica

[uma casa à noite. Ela e ele no quarto. Ela chorando. Ele preocupado. Ela quer ir embora e não tem coragem de falar. Ele não entende o que está acontecendo. Ele em pé. Ela sentada bem largada numa poltrona]

ELA –  [fugindo do assunto] Não é nada.

ELE – [assustado, duvidando, e ainda com pena] Você consegue falar isso olhando nos meus olhos?

ELA – [agora olhando nos olhos dele, ainda chorando] Não é nada.

ELE – É mentira… O que foi? [ela volta a olhar pro chão] Fala comigo.

ELA – Eu não sei o que foi.

ELE – [assustado] Isso tem alguma coisa com o seu ex ter ligado?

ELA – [responde depressa] Não. Não tem. Bom… [não quer mentir] tem… [suavizando], mas não é assim… já era antes…

ELE – [mordendo o lábio] O que já era?

ELA – [confusa] Tudo isso… ai… eu não sei… não dá pra explicar… de repente tudo mudou…

ELE – O que mudou?

ELA – Tudo mudou. Você mudou. A gente mudou. Não era assim antes.

ELE – Mas o que é que tá errado?

ELA – A gente tá errado.

ELE – O que você quer dizer com isso?

ELA – Que não era assim antes. Que antes a gente falava. A gente se entendia. Você quase não tá mais aqui.

ELE – Eu trabalho…

ELA – Mas antes você trabalhava. De repente você mudou. Você liga menos pra mim.

ELE – Não é verdade. Eu to mais ocupado. Só isso… logo passa.

ELA – [desacreditada] Será que passa?

ELE – [positivista] Claro que passa. A gente já passou por isso antes.

ELA – [duvidando] Já?

ELE – É… logo depois que a gente se mudou pra cá. Lembra?

ELA – Não foi a mesma coisa. Agora é diferente. Naquela época você ainda me telefonava do trabalho e me dizia que me amava.

ELE – Você quer que eu te telefone mais?

ELA – Não é assim fácil… você me mandava flores sem motivo especial…

ELE – [meio bobo, querendo resolver o problema] Você quer que eu te mande flores?

ELA – Pára! Não é isso… eu não quero flores… eu quero você.

ELE – Eu sou seu.

ELA – Eu quero que você me ame.

ELE – Eu te amo.

ELA – Eu não acho.

ELE – Por que?

ELA – Porque não. Eu não acredito mais que você me ame. Você nunca tá do meu lado. Parece que você não me quer mais…

ELE – Não é verdade… eu só to mais ocupado…

ELA – Mas antes você dava um jeito…

ELE – Você tá exagerando. Você tá esquecendo do resto da vida. Você tá pedindo demais…

ELA – To? Você sempre soube que eu queria tudo. Eu sempre te disse. Todo o seu tempo. Todo o seu amor. Todo o seu carinho.

ELE – Você tem!

ELA – Não tenho não… não mais…

ELE – [magoado] Por que você pensa isso?

ELA – Você não me olha mais do mesmo jeito…

ELE – Como eu te olho, então?

ELA – [relembrando, encantada] Antes era como se fosse a primeira vez… toda vez era a primeira vez… toda vez você se apaixonava por mim. Toda vez eu me apaixonava por você. Você não pode dizer que ainda é assim, pode? [ele pára de olhar pra ela pensando] pode olhar nos meus olhos e me dizer que ainda é assim?

ELE – … [suspira olhando pros lados. Perdido. Não concorda com ela. Mas sabe que ela está certa. Não dá pra fugir.]

ELA – Tá vendo…

ELE – Mas eu ainda te amo. Eu sei que amo.

ELA – Mas não se apaixona mais. Eu não te encanto mais…

ELE – Claro que encanta. Você é tudo pra mim.

ELA – [desafiante] Sou?

ELE – Claro que é! O que você acha?

ELA – Eu acho que sei lá… que perdeu a graça…

ELE – [desamparado] Você não me ama mais?

ELA – [na defensiva] Eu não disse isso!

ELE – [triste] Você não me ama mais?

ELA – [voltando a chorar] Não é assim… tá tudo diferente… muito diferente…

ELE – [chorando também] Você não me ama mais?

ELA – [levantando da poltrona. Sem olhar mais pra ele. Quase num sussurro, confessando pra si mesma] eu sinto sua falta…

ELE – Responde. Você não me ama mais?

ELA – eu… [vários suspiros e tentativas de falar pra ele, sempre interrompidas por choro, soluços, respirações]

ELE – Fala… [devastado. Com medo da resposta] Você não me ama mais. Ama? [silêncio. Ele insiste, um pouco mais bravo] Ama? [então bastante irritado, gritando e chorando] Ama?

ELA – [gritando também] Eu não sei mais!

ELE – [inconformado, perdido, inseguro] Você não me ama.

ELA – Você tá diferente!

ELE – [ignorando a fala dela] Desde quando?

ELA – [desentendida] O quê?

ELE – [amargo] Desde quando você não me ama?

ELA – Eu não te disse que não te amo!

ELE – Não faz isso. Fala pra mim. Desde quando você não me ama?

ELA – [incapaz de falar] Eu…

ELE – Desde que ele ligou?

ELA – [disfarçando] Não…

ELE – Você voltou a ver ele?

ELA –  Uma vez…

ELE – Quando?

ELA – Semana passada.

ELE – [magoado] Por que você não me disse?

ELA – [maldosa] Você tava trabalhando.

ELE – Quando foi?

ELA – [tentando desviar a atenção] Não lembro… [vira]

ELE – [ele a puxa pelo pulso. Fala com ele segurando a mão dela na altura do rosto dele encarando-a nervoso] Quando foi?

ELA – [tentando soltar as mãos, sofrendo] Sexta.

ELE – [apertando mais o pulso dela] Quando você falou que ia sair com sua mãe?

ELA – [ainda tentando soltar a mão] É.

ELE – [cada vez mais bravo. Sem soltá-la] Por que você mentiu?

ELA – Você ia pensar algo errado…

ELE – Ia pensar que você não gosta mais de mim! Isso não é errado!

ELA – [puxando o braço sem conseguir se soltar] Me solta.

ELE – [não a solta] Vocês falaram sobre o que?

ELA – Me solta.

ELE – [aumentando o tom] Sobre os bons tempos?

ELA – Me solta.

ELE – Sobre como sentem saudades?

ELA – Me solta.

ELE – E que não deviam ter se separado?

ELA – [gritando] Me solta!

ELE – [ignorando e nervoso] Vocês se beijaram?

ELA – [cansada] Me solta…

ELE – Vocês se beijaram?

ELA – [chorando. Caindo no chão] Me solta…

ELE – [gritando] Vocês se beijaram?

ELA – [olhando pra cima e gritando] Sim!

ELE – [joga o braço dela pra baixo. Anda pelos lados pensando no que dizer. Ela chorando no chão. Fala sem olhá-la, magoado] Foi aí que você percebeu que não me ama mais?

ELA – [parando de chorar] Não…

ELE – Quando então?

ELA – Antes. Você não me olha mais como antes…

ELE – Claro que não. Olha o que você fez. Você acha que merece que eu te olhe?

ELA – [resignada] Não…

ELE – [seco] Eu também não.

ELA – [silêncio. Ele olhando para a platéia, como se fosse pela janela, no canto do palco. Ela se levanta] Você é tudo pra mim.

ELE – Sou?

ELA – [chorando] É. [tomando coragem] E eu sou tudo pra você, não sou?

ELE – [ainda sem olhá-la] Era…

ELA – [silêncio] Fala comigo.

ELE – [balançando a cabeça em negação] Você mudou.

ELA – [olhando pra ele que está de costas ainda] Me perdoa?

ELE – [ainda sem olhar pra ela. chorando] Tudo mudou.

ELA – Mas isso passa… me perdoa…

ELE – Eu… [não consegue falar nada]

ELA – [olhos lacrimejando] Você não me ama mais?

ELE – Eu não sei…

ELA – [chorando] Você não me ama mais?

ELE – Eu não disse isso…

ELA – [desesperada] Você não me ama mais?

ELE – Não é isso…

ELA – [gritando] Você não me ama mais?

ELE – [tentando não chorar, mas sem conseguir] Não…

ELA – [soluçando] E agora?

ELE – E agora o que?

ELA – O que a gente faz?

ELE – Eu não sei…

ELA – [silêncio. Depois volta a falar chorando] O que a gente faz?

ELE – Eu vou embora.

ELA – Não! Fica!

ELE – Eu vou embora.

ELA – Não!

ELE – [chorando] Eu tenho que ir

ELA – [chorando] Fica!

ELE – [pega as chaves] Alguém vem buscar minhas coisas depois.

ELA – Não vai! Fica!

ELE – [olha uma última vez pra trás. Tenta se despedir, mas não consegue falar]

ELA – [num sussuro] Fica…

ELE – [negando com a cabeça. Olha pra platéia, pelo meio do palco, como se fosse a porta. Começa a avançar descendo do palco. Pára. Olha pra trás pra ela. Uma ultima lágrima. Sai de casa, caminhando]

ELA – [baixo] Fica! [gritando] Fica! Fica! [rouca] Fica! [chorando] Fica! [só mexendo os lábios] Fica…

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3 Respostas

  1. Henrique!!! Nunca imaginei que você tivesse tamanha sensibilidade para escrever! É fantástica a maneira como você consegue se expressar, transmitindo o pensamento das personagens e envolvendo o leitor com o drama. Parabéns!!!

  2. Henrique,
    Adorei o texto, de verdade! Achei q as falas fluem mto naturalmente e q vc conseguiu representar uma situação tão triste e tão comum mto bem. Tanta gente passa por isso e escreve sobre esse tipo de situação q é mto difícil não cair no clichê. Eu gostei mto!

  3. parece tanto o que eu sinto.

    parece mais ainda o que eu escrevo.

    adorei!

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