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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Claviculário

Olhar semi-curvo sobre os presságios do outono. As folhas (algumas) caem, se renovam e renasce, assim, o tempo – espiral entorpecente. O vestido solto balança no vento. Olha. Corre à água e se molha. Vestido branco e molhado modelado ao corpo. Corpo. Corpo. Corpo. Sorri. Nada espera da vida. Vida-azul. Vida-trem. Vida-vidro. Vida-cão. Senta na areia e determina a existência. Para depois destruí-la. De modo vazio e féerico. Foi sua infância. Esse ir e vir que condiciona e permeia o estar e não-estar humano. Passava os dias sentada na calçada vendo pessoas passarem. O moço do chapéu que passava fumando. Inspirando e expirando.Inspirando. [passos]. Expirando. Mas a inspiração era a que ficava, fragmentada na atmosfera insólita. Absorto na vida. Nos ciclos e nos vícios. No ir e no vir. Constante universal. O ir e vir banal das ondas. Das crises econômicas. Das crises de rinite crônica e dos corpos amalgamados em exílio complacente. Silêncio. Risos. Idéias bastardas das quais é apenas cúmplice. Mas gostaria de ser mais. Mais e mais. O sol começa a se pôr; não no mar, como nos filmes, mas detrás dos morros voluptuosos. Da fortaleza onde se esconderá por muito antes da ida definitiva. Ainda bem que retornará para eventuais visitas; só assim poderá acariciar a juventude em flor. O corpo na praia. Um corpo. Despido de alma e mente e, agora, do vestido. Função estética. Estática. A pele, máscara mais conveniente, reluz os últimos versos profanos do sol. Manifesto simplista e comunista de ardente paixão. Vem a noite, tímida e só. Nas ruas os que não deviam estar. Os que não deviam ser. Pobres sem amor, sem fulgor. Taciturnos no olhar e no marchar. Procuram acalentar-se nos braços do mar. E satisfazer-se da flor que desabrocha contrária ao anúncio sazonal. Vestido branco estirado na areia; migalhas do mundo. Corpos. Estirados, também, ofegam e procuram a redenção no negro imenso que paira um pouco mais acima. Desculpam-se pelo que vem a seguir. Coreografia ímpia de mordidas vorazes, de contorções, da descoberta carnal. Consomem-se e afastam-se da realidade cingida. Amor desatado. Desabotoado. Incerto. Alvos somente do próprio descontrole e do vazio. Despetalam todos a rosa, que generosa, consente e despede-se do consciente e entrega-se aos sonhos. Abre-se o mundo etéreo, quente e pulsante. Vivo, mas distante e cru. Fusão hermética da matéria primordial imersa na vastidão emocional inóspita. Batalha amordaçada. Um amor de menina. Prostituta. Promíscua. Puta. Pudica (ao reverso). Um amor de menina. Migalha da vida. Mas não na avenida. Generosa e comida. Bem-comida. Mal-comida. Despetalada enfim. Cansada. Recolhe os ossos e a pele. Torce o suor do vestido e o veste. Vestido branco e molhado modelado ao corpo. Corpo.Corpo.Corpo. Sorri. Nada espera da vida.

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3 Respostas

  1. Que prazerosa esta brincadeira com as palavras, que profundos sentimentos expressam . Parabéns.
    Cris

  2. Me supreendeu. Muito interessante este estilo narrativo. As figuras de linguagem são fantásticas!!! Parabéns.

  3. Adorei!

    de novo a sensação de ser transportado de um lugar pro outro instantaneamente como se não tivesse limite nenhum e é uma delícia.

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