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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Heartbrake House – George Bernard Shaw

 

            Por que começar a introdução a uma peça citando Chekhov? Por que, se é uma peça inglesa que representa justamente a “Cultured, Leisured Europe before the war”? Simples: A necessidade de movimento em Chekhov, a falta de movimento no dramaturgo russo. É nessa fonte que Shaw bebe para criar o sue panorama da Inglaterra (e da Europa) pré-guerra, no auge do seu imperialismo, cheia de suas Lady Utterwoods.

            Essa casa de corações partidos é, obviamente, um passo adiante da casa de bonecas de Ibsen. Se o dramaturgo norueguês conseguiu trazer ao palco questões sociais, chocar o público e fazer com que o teatro apontasse seus caminhos para deixar a sua função de entretenimento da burguesia, desempenhada tão brilhantemente no século XIX, é Shaw quem vai continuar trilhando esse caminho, apontando no que o teatro se transformará. Se a família da casa de Ibsen começa a perder a estrutura, em Shaw ela já está completamente dilacerada, invertida. Há aí novidade? “How are we to have any self-respect if we don’t keep it up that we’re better than we really are?”, pergunta-se Mangan, o capitalista que não consegue sobreviver ao ambiente da Heartbrake House. A casa é como um navio rumando diretamente para as rochas, mas o único capitão já sofreu baixa[1]. Muito velho, lúcido, ele não consegue se relacionar com nenhuma das duas gerações que o sucederam, e tampouco conseguem os representantes dessas se articular ou tomar qualquer iniciativa para “salvar o país”. O país, a casa, a vida, a família, o barco… tudo converge para um mesmo destino, como se Shaw escrevesse seu Moby Dick, e ao ouvirmos as bombas ao fim da peça, começamos a retomar os primeiros indícios de que tudo estava errado e, pois, só podia se encaminhar para a destruição, como há tantos indícios no livro de Melville de que apenas Ishmael sobreviverá à derradeira caçada do Pequod. Numa espécie de dança da morte coletiva, todos parecem aguardar por seu fim. Depois do bombardeio, quando os sinais de que a casa caminha para a ruína já se concretizaram, a última afirmação direta de uma personagem é “But what a glorious experience! I hope they’ll come again tomorrow night.”.

            As personagens não são ignorantes: cada uma manipula seu próprio destino de acordo com seus interesses, enquanto o capitão bebe rum para alcançar o sétimo grau de concentração. Mrs. Hushabye tenta manter-se superior nas relações de poder (especialmente com Ellen e Hector) através de seu misto “demoníaco” de ameaças, chantagens, acusações e uma docilidade e uma amabilidade dissimuladas que beiram a bipolaridade (e é tentador ver nela uma das famosas mulheres de Strindberg). Mangan, o capitalista que vende a todos a ilusão de que é milionário, mas que será desmascarado ao longo da peça, acaba por morrer juntamente com o ladrão (ponto em que o sarcasmo de Shaw chega ao extremo na peça, ao dizer que os dois ladrões é que morreram), e aqui está escancarado que George Bernard Shaw só poderia ser um Fabian. Seu teatro incita as discussões políticas, econômicas e sociais e não somente o entretenimento, mas como trazer isso para o palco e manter a platéia nele? Como ser Shaw em uma época de mentes tão fechadas às suas provocações e polêmicas? Através de uma ácida comédia, em que as risadas arrancadas mantém o expectador medíocre, simples pagante do espetáculo ou leitor burguês do século XIX feliz com seu entretenimento, mas que, para o leitor atento, funcionam como uma advertência. Vale lembrar aqui as palavras de Diderot, “o gracejo de teatro é uma arma cortante que feriria na sociedade”. Shaw, ao colocar a sociedade no palco como seu colega Ibsen, obviamente está também fazendo o inverso, estendendo o palco à sociedade. Lady Utterwood, nossa representante do imperialismo britânico, mulher do homem que governou todos os territórios da coroa sucessivamente, nos dá um grande aviso quando “Boss” Mangan se queixa da vivência naquela casa: “Think, (…), whether you can really do any better for yourself elsewhere: that is the essential point, isn’t it?”. Shotover ainda nos adverte: “You are beneath the dome of heaven, in the house of God. What is true within these walls is true outside

them. Go out on the seas; climb the mountains; wander through the valleys…”

            O que mais nos incomoda em ler Shaw atualmente não são as relações familiares inversas e cheias de malícia, dissimulação e manipulação, que Pinter depois saberá explorar tão bem, nem o alcoolismo de Captain Shotover, nem a morte de Mangan e do ladrão. Não, há algo muito mais sutil aí dentro, nas falas de cada personagem, que é a pergunta intrínseca à peça inteira: quais são os limites dessa casa das desilusões? Quando Shaw diz que ela é a Europa antes da guerra, não nos aponta o que acontece depois dela, se ainda continuamos loucos como aquelas personagens, mas invoca Chekhov, o Chekhov da imobilidade, da situação de beira do abismo na qual nada se faz, ainda que se saiba o que deve ser feito. Nos sentimos um pouco como Ellie, num certo momento:

 

ELLIE [staring at her thoughtfully]. There’s something odd about this house, Hesione, and even about you. I don’t know why I’m talking to you so calmly. I have a horrible fear that my heart is broken, but that heartbreak is not like what I thought it must be.

 

MRS HUSHABYE [fondling her]. It’s only life educating you, pettikins.

 

           

Educating. Educando. O mesmo termo que a Nora de Ibsen usará para se despedir de seu marido, antes de sair de sua casa de bonecas. Fica a pergunta: saímos de uma casa de bonecas para entrar nessa casa de desilusões? Somos Nora, ou que outra pessoa? Mazzini Dunn nos apresenta uma resposta (ao mesmo tempo em que me apresenta o fim desse ensaio): “How little it tells us, after all! The great question is, not who we are, but what we are.”


[1] O nome do personagem de Shaw, Captain Shotover, é um trocadilho, como a maioria dos nomes da peça. Shotover vem de shot over, algo como “baleado” numa tradução livre.

*Para o próximo mês: Harold Pinter – Traições (Betrayal)
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