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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Afroépicos

Das gregras Odisséia e Ilíada já ouvimos falar bastante, bem como da posterior e ainda antiqüíssima romana Eneida. As indianas Mahābhārata e Ramayana são menos famosas, entretanto vez ou outra são comentadas. As recentes velhas histórias que agora procuram se encaixar na estante empoeirada entre as ancestrais epopéias são as africanas Pui e Dausi, cantadas pelos griots, seus aedos de ébano.

Todas têm em comum o fato de se originarem de uma tradição oral. São histórias que passaram de geração a geração, incorporadas de carga cultural e função educativa e moldadas constantemente até serem transplantadas para a forma escrita. Se para Walter Benjamin o verdadeiro narrador acabou com a introdução da literatura escrita, talvez ele ficasse feliz em saber que diversas regiões do mundo ainda dispõem de tradicionais contadores de história. Até recentemente, a África era um desses lugares, devido a sua alta taxa de analfabetismo – fruto da ausência histórica de uma técnica ou um sistema local de escrita somada ao secular, quase milenar, julgo imposto ali pelas nações “civilizadas”. Dentre os poucos alfabetizados, a maioria o era em línguas européias, empurradas úvula abaixo. Pouquíssimos eram os letrados nos próprios idiomas africanos, notadamente os subsaarianos, dado que o Árabe do norte do continente tem sua origem no Oriente Médio.

Assim, a transmissão dessas epopéias continuou ainda por muito tempo sendo feita de forma oral, à moda da história antiga. Curiosamente (ou talvez obviamente), não foram africanos os pesquisadores que descobriram essas obras e iniciaram o processo de seu registro impresso para divulgá-lo ao mundo. Os precursores foram dois etnólogos africanistas alemães – Leo Frobenius (1873-1938), que traduziu as epopéias para o Alemão, e Hermann Baumann (1902-1972), que montou uma coleção com cerca de 2500 lendas e mitos africanos – e um britânico – Robert Sutherland Rattray (1881-1938), especializado na cultura da etnia Ashanti, que se encontra em Gana.

Foi um trabalho nada fácil, afinal de contas são muitas línguas e inúmeros dialetos falados em toda a área pesquisada por eles. Além disso, principalmente para Baumann, interesses políticos tumultuaram seus trabalhos, pois o partido nacional-socialista alemão pretendia fortemente utilizar seus estudos étnicos para utilizá-los numa possível política neocolonial – mas isso é assunto que vai além do que se pretende apresentar aqui.

No caso das epopéias, o principal trabalho foi feito por Frobenius (hoje nome de um instituto de pesquisas etnológicas em Frankfurt). Realizou diversas expedições pela África com o apoio de missionários, com os quais a duras penas se comunicava. Ele próprio não falava nenhuma língua africana. Deixava os habitantes dos vilarejos narrarem suas histórias a guias locais, que as traduziam para Inglês ou Francês. A partir dessas anotações, fez a tradução para o Alemão tanto de Pui, como de Dausi, que, junto de outros diversos contos e canções, servem de interesse primordial para os estudos etnográficos acerca da região.

Pui e Dausi foram originalmente transcritos na língua Soninke, difundida na região do Sahel, na parte ocidental da África. Pui é um conjunto de canções heróicas e divide-se em um total de doze partes, das quais apenas oito são ainda conhecidas. Não há uma dependência direta entre os enredos de cada parte, porém tratam geralmente de heróis, reis, príncipes e princesas, que defendem a terra através de guerras.

Dausi são poemas épicos cantados por bardos. A parte principal possui 150 versos, sem uma metrificação regular. Trata-se de um poema sobre um reino sonike chamado Wagadu, cuja capital Kumbi seria antigamente também a do legendário Reino de Gana. Quem canta os poemas é um filho do rei. O reino cai por terra; um outro filho do rei, com a ajuda de um tambor mágico, uma hiena e um abutre, constrói uma nova cidade, que será a capital Kumbi, numa região pertencente a uma serpente, que faz a terra rica através de sua chuva de ouro. Para isso, no entanto, ela exige que todo ano uma virgem seja sacrificada. Contudo, o amado de uma virgem a ser oferecida como próximo sacrifício revolta-se e mata a serpente. Por isso, Wagadu cai e a moça morre e tudo se perde. É interessante notar que existem aí elementos típicos dos poemas épicos (como uma serpente no papel de uma espécie de deus, que só ajuda a quem o teme, e o inconformismo de um indivíduo com o destino de sua amada, que o faz romper com seu “deus”), porém com uma pitada de tragédia, sem, todavia, aparecer por fim a redenção proveniente da catarse. Fica a reflexão: como tradições orais tão distantes geograficamente poderiam apresentar esses aspectos em comum? Haveria alguma influência da cultura européia nessas epopéias tão tardiamente descobertas? Ou trata-se simplesmente de um desenvolvimento natural da cultura humana, independente de raças?

Seja como for, por sua dedicação aos estudos africanísticos e por considerar as culturas da África e da Europa igualmente valorosas, Frobenius influenciou uma geração de intelectuais africanos. Segundo o poeta e ex-presidente senegalês Léopold Senghor, um dos fundadores do movimento Négritude (que defendia o rompimento com a Europa e a retomada da tradição cultural africana – le “retour aux sources!” ), Frobenius “devolveu à África sua dignidade e sua identidade”. Situação bem curiosa essa.

Referências

CONRAD, David C. & FISHER, Humphrey J. The Conquest That Never Was: Ghana and the Almoravids, 1076. II. The Local Oral Sources in History in Africa, Vol. 10, New Brunswick, 1983.

FROBENIUS, Leo. Atlantis VI: Spielmannsgeschichten der Sahel, Jena, 1921.

FROBENIUS, Leo & FOX, Douglas C. A gênese africana : contos, mitos e lendas da África, tradução de Dinah de Abreu Azevedo, Landy, São Paulo, 2005.

SEIDLER, Christoph. Wissenschaftsgeschichte nach der NS–Zeit: das Beispiel der Ethnologie, Magisterarbeit, Freiburg, 2003

http://de.wikipedia.org/wiki/Afrikanische_Literatur

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Uma resposta

  1. Muito interessante este artigo, adorei!
    Com relação aos elementos em comum entre tradições orais distantes, não acredito haver influência da cultura européia, ainda que tardia. Na verdade, o que ocorre nestes casos é um fenômeno de natureza psíquica: as tradições orais vão passando de geração em geração, mas cada geração modifica um pouco a história para que ela se adeque melhor às liçoes de moral ou dilemas enfrentados naquele momento, até que ela adquire uma forma praticamente imutável. Durante este processo de modificação destas tradições orais, símbolos universais (arquétipos) como a água (representando a purificação), o sol (representando renascimento) e a serpente (representando uma divindade) vão passando a ocupar papel central na estória. É o mesmo processo que originou, por exemplo, os contos de fadas europeus.
    A serpente do épico africano podia ser, por exemplo, um rei ou uma tribo, mas com o passar do tempo a narração foi sofrendo ligeiras modificações até aparecer a serpente, animal fálico (que nos remete ao prazer proporcionado pelo sexo), e peçonhento (que nos oferece perigo). Assim, temos a personagem mais adequada para exercer uma função de divindade: aquela que nos oferece prazer quando a agradamos e nos pune quando fazemos algo que a desagrade.

    Com relação ao movimento négritude, não acredito ser possível o rompimento com a Europa em um mundo globalizado. O que é necessário é criar uma espécie de antropofagia africana para permitir que influências culturais não africanas se misturem à cultura regional, impedindo que tradições culturais africanas se percam. Em outras palavras: não se pode impedir que o africano coma cachorro quente, mas espera-se que ele tempere o catchup com seus condimentos tipicamente africanos.

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