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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Papel do passado: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

 

 

 

 

   

Em mais um dia de minha corrida vida acadêmica, estava eu pensando em mais um conflito: até que ponto ler livros atrás de livros (de Literatura ou teoria) tem acrescentado algo em minha vida? Repare de que tipo de livros estou falando, hein! Literatura! Uma das coisas mais humanas e que, como tais, é muito orgânica. Sobre eles, assim como para a vida, não cabe nenhuma teoria, reducionista por natureza, e daí o porquê existem faculdades: para ficarmos nos debatendo com olhares diferentes sobre a vida. Pensei que esse meu conflito não é mais uma questãozinha que eu possa resolver logo e passar pra próxima. Pensei em parar com tudo que há de comodismo na minha relação com a faculdade e ver o que verdadeiramente quero, e que já está numa lista infindável, em papeizinhos por aí. Pensei em não ler tudo como todos que estão aqui lêem, tentar criar algo – mas será que seria eu inteligente ao fazer isso? O que seria de mim se antes de entrar aqui eu tivesse botado uma malinha nas costas e dado a volta ao mundo? O que é ser inteligente na faculdade? Estaria realmente acrescentando algo à minha vida se eu parasse tudo? E às dos outros?

Deparei-me com Kant e sua diferenciação entre pensar e conhecer. Diz que o Homem tem uma necessidade de “pensar além dos limites do conhecimento”1. Pensar este que vejo mais como um criar e não um simples armazenar, como me parece ser o conhecer. Quanto ao uso da razão para Kant,  que creio seja comum ao pensar e ao conhecer (não sei até que ponto o é para o filósofo), Marilena Chauí diz: “a razão, separada da sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e não é sua função conhecer. Sua função é a de regular e controlar a sensibilidade e o entendimento”2; portanto, creio que ela esteja mais relacionada ao conhecer. Já o pensar, vejo que se aproxima do que foi experienciado e, assim, traz “sensações e impressões que associamos em idéias, mas estas não são universais e necessárias, nem correspondem à realidade”3, e daí provém o caráter mais idealista que racional do pensar.

 Tento imaginar o que acontecerá assim que cessar essa enxurrada de informação que hoje, em pleno final de semestre, está me enchendo (em todos os sentidos!) de conhecimentos de Histórias avulsas do Homem – que sim, claro, eu os escolhi ao entrar na Universidade, ao escolher fazer essas disciplinas, ao escolher os professores, porém todos nós numa hora nos perguntamos: e se eu pudesse ver e escrever mais sobre o que são minhas dúvidas e minha vida, a partir do que há de mais pessoal possível, do que é um verdadeiro problema pra mim e me incomoda? Rousseau teria asco de dois intelectuais que, enquanto discutem como salvar a humanidade vêem um homem ser degolado em baixo de sua janela, mas continuam a conversa como se nada tivesse acontecido. Eu acho que, ao pensar assim, só quero dar prioridades, o que todos, na verdade, muitas vezes, queremos e precisamos. Aliás, quem não souber priorizar, por mais que queira entender alguns dos problemas do Homem hoje, estará apenas tão perdido tanto quanto outras pessoas na multidão, numa espécie de crise de identidade. Identidade que é algo que, para se constituir, me parece, precisam haver escolhas e prioridades. E se eu pensasse seriamente, sinceramente e com liberdade em minha vida, em minhas “neuras”, no que realmente precisa ser melhorado urgentemente e escolhesse o que realmente é mais importante na minha vida particular e até para os outros Homens, que convivem comigo nesse mundo? Quem nunca se perguntou isso?

            Pensei que acontece uma espécie de estupro – já que vem algo externo a nós, nos incidi e penetra sem consentimento ou até de contragosto – e nem sabemos bem por parte de quem nessas supraestruturas dos homens Modernos, em que o capitalismo e a globalização têm feito haver relações entre todo tipo de gente de qualquer país. Pensei que nós sofremos o tal estupro e logo o aceitamos e ignoramos, e também que, claro, muitas vezes, talvez quando em doses moderadas, ele é o próprio conhecer, como quando somos levados a conhecer diversas culturas através de um emprego ou de um professor que nem escolhemos, “conhecer” este também tão fundamental em nossas vidas. Mas o que faremos com ele? Isso, especialmente para os acadêmicos, é o que mais importa para fazer valer o que desejamos. Aqueles que são futuros professores, que estão na faculdade, que têm grande vontade de fazer o “bem” e que quase sempre, pra continuarem conhecendo mais e pensando menos, arrumam como desculpa a frase “ah, adianta sim ter o conhecer em primeiro lugar, pois vou um dia passar isso à alguém”, aos que vêem assim eu digo: Não! Isso, em si, não valerá de nada! Eu diria a um desses sujeitos assim: “você é um humano, você não é o Google, você pode pensar! Tanto que até você ‘passar’ isso à alguém você mudaria de idéia, e o que aprendeu ficaria em papéis inúteis. Uma dessas pessoas que queriam o “bem”, dizem, foi Santos Dumont, apesar disso ele viu um invento seu ser utilizado para o “mal”, na guerra, e contam que por isso teria se suicidado. Isso serve muito aos cientistas de hoje também: não adianta que estes esperem que outros façam o bem com algum invento que eles criaram – uma experiência, por exemplo – mesmo que tenha tido a finalidade do “bem”, se eles não a fizerem valer efetivamente, o criador – mesmo com toda inteligência – e o que foi criado, serão apenas uma peça num tabuleiro. Em meio a um mundo tão cheio de coisas e informações, a arte, que também é a forma de significar as coisas da vida, é o que para muitas pessoas traz o essencial, dá o norte na vida, nos faz pensar, nos traz claramente o papel do passado, mesmo com todas as inseguranças que ela traz ao nos apresentar o que é novo e dá medo, ou quando nos mostra o que é trágico, e o que é colocado na vida como irresolúvel.   

            Então, tomando como solução esse pensar de que fala Kant, creio que virá ao sujeito um outro passado e, como tal, este passado revelará algo que virá/chegará mesmo àqueles que somente querem a descontração e a folia, que tentam fugir dessas amarras da rotina ou àqueles que querem destruir tudo que lembre um certo passado pessoal. Quanto de mim eu descobriria numa experiência libertária dessas? Quanto mais eu pensaria, no sentido kantiano? Quanto tudo isso, toda essa experiência pessoal, seria medível? Quantos desejos antes considerados proibidos eu descobriria?           

            Hoje vou falar de um filme com uma personagem principal que foi em busca dessa sua história pessoal desde o início de sua vida: Amélie Poulain. O filme conta como ela é diferente, e até como todos nós também somos se olhados de perto e conta, também, como seríamos diferentes/característicos se lutássemos mais para continuar sendo nós mesmos. Digo lutássemos, pois a vida de uma libertária não é necessariamente mais fácil por ela ser assim, são nessas dificuldades que pensamos em alguns momentos de clímax do filme em que não sabemos, por exemplo, se ela conseguirá criar coragem para se apresentar para o rapaz que ela paquera. Portanto, não que seja mais fácil ou difícil sê-lo, não vamos reduzir as melhores questões da vida a isso, mas acho que é no mínimo mais digno e feliz.

Em algumas cenas Amélie vê até mesmo o filme de sua vida na televisão. Incrível sonharmos com nossa identidade trabalhada assim por cada um de nós! Imaginem. Como seríamos mais íntegros (no sentido mais elementar da palavra). Seríamos mais nós mesmos e restaria (ou haveria naturalmente como parte desse processo) tempo e capacidade para nos preocuparmos com os outros.

            Podemos pensar que, a partir dessa experiência das Histórias pessoais, os humanos podem também se importar com a História geral. Sabemos que na televisão não passa a História de nossa vida (menos ainda quando nos referimos à unívoca, repetitiva e desgraçada TV pública, salvo a Rede Cultura), mas Amélie prova que poderia passar e, inclusive, seria interessante se selecionássemos o que se passa nela, da forma como Amélie selecionou pro velho vizinho com doenças nos ossos. Ele acaba relembrando algumas histórias e se emociona com essa reprise de algo alegre dentro de si que ela causa nele, na qual, aliás, ela o fez usar o primeiro instrumento de cinema que o homem teve: seu cérebro. Há a sabedoria de ver algo externo e ser tocado internamente por ele: o filme externo fez passar um filme bom para o interior do velho. Interessante como já cansei de ouvir inúmeros velhinhos dizendo da magia que é relembrar, em vez de quererem colocar algo teoricamente novo nessa máquina de projeção que todos temos. É recorrente ouvir esses mesmos velhinhos assumirem que, para eles, o novo vem a partir de um olhar novo sobre o que eles já têm e, melhor, já vivenciaram.

Como ao vizinho doente, à Amelie Poulain também faltava algo para ser mais ela mesma, faltava que ela se emocionasse para que fizesse mais pelos outros. Ela é uma pessoa que gosta de estratagemas, fica milaborando mil espécies de brincadeiras/jogos pra chegar no rapaz de seu interesse, ela é um pouco covarde. Aliás, o filme não a faz uma heroína perfeita, ela tem suas dificuldades, o que explicita uma idéia que o filme todo mostra que é a quase ambigüidade do indivíduo afetar aos outros e os outros afetarem o indivíduo, muitas vezes de maneira benéfica. E esse “intervir pelo outro” acontece, ela se emociona, e além de tudo, ele acontece depois que Amélie faz algo por alguém, quando entrega a um homem sua caixinha com objetos e lembranças de infância.

            Quanto a essa relação com a televisão, talvez, pra muitos, fique subentendido: foi necessária a morte de uma estrela para que Amélie aflorasse – ela só descobre uma caixinha de brinquedos que mudará  a vida de um homem e a sua depois que sabe do falecimento. Era Lady Di, e a notícia de sua morte lota as bancas e a tv com esse assunto que se repete durante o filme, e como este conta a história de Amélie, nós comparamos as duas histórias, vemos que a de nossa protagonista mudou tanto (e para melhor) depois que ela se buscou mais, teve mais tempo pra si, depois de desencanar de ver timidamente os outros na tv. Vemos que, pra variar, a solução parece estar em nós. Em alguma parte dentro de nós devemos ter o prazer de matarmos os cânones para a nossa libertação pessoal (mas claro que só é válido matá-los se sabemos o que eles são e o mal que podem fazer). Matar todos! Que todos vejam o poder criativo em nós mesmos e que nos unamos com os vivos! È o que pede Amélie! Quem mais saiu do filme pensando algo assim? Deve ser esquisito pensar que alguém que escreve sobre o “papel do passado” é capaz de falar uma coisas dessas! Mas matar cânones é diferente de matar esse papel, de matar, por exemplo, a história literária. Na verdade, pode ser o real uso disso tudo. 

            Pensei uma questão principal do filme como sendo a da arte na vida, como na hora em que os animais nos quadros e em uma escultura, no quarto de Amélie, começam a gesticular e se mover de acordo com o que se passa com ela. E será que para que a arte entre na vida precisamos matar os ídolos, esses seres amorfos aos nossos olhos (por estarem fora de nós), e que, muitas vezes, quando fazem sucesso em vida são porcos que só querem saber de fama e dinheiro? Esse ser, às vezes, é um baterista que recebe um milhão de cartas de fãs e tem a coragem de reclamar em público que está recebendo menos cartas do que o vocalista. Calhorda! Nem vou falar o que ele realmente quer dar menininhas.

            A partir de um sentimento um tanto nostálgico dos primeiros filmes que vi na vida, gostei de ter visto um desses filmes que mostram que ainda podem ser trabalhadas coisas tão “batidas”, as tornando legais de novo. No de hoje, por exemplo, há uma resignificação e reutilização das historinhas de amor, os romances, inclusive por tratar de casais diferentes do comum,  mas para dizer algo que creio não tão comum quanto os que eu via há algum tempo: essa descoberta de si. O filme acaba dando também, dessa maneira, a idéia de que o mundo simplesmente é algo, antes de ser condenável e que as histórias de amor em si não são condenáveis, penso que pelo contrário: quem nunca sonhou ou sonha com uma dessas para si? Quem não saiu do filme pensando que queria ser tão si próprio quanto o é Amélie Poulain?  

     

Queria relembrá-los que nessa coluna, até agora, pode parecer que há uma falta de habilidade minha para abordar a linguagem cinematográfica dos filmes que comentei – e em parte é verdade – o que, também, pode parecer pouco caso meu com essa linguagem. Isso é resultado de uma intenção que agora explico. Muitos de vocês podem realmente considerar que vejo e comento o Cinema como se o fosse apenas Literatura, que vejo apenas roteiro ou algo assim. Pois é, até agora é isso mesmo que quis fazer. Mas é que tem roteiros que são melhores para essas discussões do que muitos livros e merecem esse destaque!!! Talvez me sentiria muito mal se um filme com mensagens tão importantes fosse analisado como apenas arte pela arte, como se fosse por acaso que “Amélie” fez um baita sucesso e sua personagem virou um símbolo. Não é tão por acaso que há fans que até hoje em dia se encontram de ano em ano para discutirem-no, não é por acaso que ele tem tanto assunto para conversarmos sobre, e tanto a nos ensinar na relação básica de “eu” e “outro” (quanto ao amor e ao individualismo hoje, etc).

            Ver, destacar e dar a prioridade ao que realmente é mais importante e urgente é o que tentei ver em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, mesmo parecendo que reduzi o filme enquanto obra cinematográfica. Já que esse meu texto vai ficar na net, o resto das informações pragmáticas do filme vocês poderão achar em qualquer site de venda de produtos. Outras informações que prezem, por exemplo, a música e a imagem (que são MARAVILHOSAS! e as duas vão coerentemente com a mensagem que defendi haver no roteiro do filme), creio, vocês acharão em outras análises tradicionais e mais abrangentes.

 

 

1 MARONI. Amnéris “ O pensar em Jung, Bion e Hannah Arendt”. Tom, Sociologia e Realidade – pesquisa social no século XXI.

 

2 CHAUÍ, Marilena . “Convite à Filosofia”. Unidade 2, Capítulo 4: Os problemas do inatismo e do empirismo: soluções filosóficas, pg78.

 

3 Idem: Unidade 6, Capítulo 3: As aventuras da metafísica, pg 232.

 

 

 

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