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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Lembranças

Era uma noite clara. A janela da varanda estava entreaberta e deixava a luz luxuriante da lua cheia invadir meu quarto. O vento chorava e soprava as cortinas brancas da janela. Dentro, somente uma singela luminária pretendia clarear a penumbra em que me encontrava.

Ao fundo ouvia-se o frêmito de flautas e violinos que sussurravam em meus ouvidos sons de uma orquestra negra que transbordava naquele ar oceânico graças ao bom e velho rádio.

Ao lado direito da janela uma poltrona preta estava coberta de papéis. Ao lado esquerdo, minha cama coberta de roupas.

Eu estava de costas para a janela e de frente para um grande guarda-roupa, o qual mais guardava segredos do que qualquer outra coisa. Ele estava quase vazio após uma extravagante vontade de escancará-lo. Peguei tudo que vi pela frente e atirei no chão. Precisava me desfazer de objetos que não deveriam ser mantidos ali.

Virei a luminária para a direita e andei até a poltrona, coloquei os papéis que lá estavam no meu colo e me sentei com lassidão. Uma pilha de papéis. Cartas, cartas e mais cartas. Era curioso perceber como na era da informática ainda havia tanta comunicação feita a base de caneta e papel. Uma bela caligrafia ali se insinuava e trazia lembranças da doce mão que a escreveu. Seria preferível que assim não fosse. Todas as cartas daquela pilha com a mesma caligrafia. Todas as cinqüenta e seis páginas.

Passei o olhar pelas cartas como quem procurava evitar fitar os olhos de um amor. Cuidei em me conter para não as reler, até porque ainda lembrava o conteúdo de cada uma delas, mas foi irresistível. Estranho prazer este que encontramos em sofrer. Eu poderia simplesmente as ter deixado de lado e sequer ter aberto aquele guarda-roupa. Uma vez sendo projetado novamente para aquele mundo de reminiscências, eu precisava resgatar o que ali tinha ficado mal-resolvido. Seria inevitável a reabertura daquela caixa de Pandora.

“(…) Agora enquanto estou escrevendo, paro, levanto-me e vou olhar o céu… Isto me deixa muito feliz, mas não aquela felicidade do A. Caeiro. Sei que as estrelas estão lá e que continuarão independente da minha vontade, porém eu tento enxergar por trás das estrelas, através do céu, da lua, da noite, procurando um sentido para tudo, para o tempo e o espaço, para a distância e a saudade, para este sufoco no meu peito e esta ansiedade de chegar amanhã e eu poder falar com você nem que seja por cinco minutos…

Então paro. Saio da janela, volto à escrivaninha e continuo escrevendo.

Não preciso saber o sentido de tudo isto, Caeiro estava certo. Todas estas coisas só tem sentido porque eu tenho você. Na verdade tudo continuaria existindo, mesmo sem você aqui, mas meus olhos não seriam capazes de ver pois estariam fechados, pois quando lhe conheci foi que realmente abri meus olhos para viver….”

Romântico, amável, lindo e inteligente demais para realmente existir. Imortal, anjo e demônio. Porém existia e me amava. Arriscou-se por mim, enfrentou a família e enfrentaria quem mais proibisse nosso relacionamento. Cobriu-me de afetos, carinhos, atenção. Aos poucos me conquistou e me prendeu em um beco sem saída. Não havia solução, sabia que estaria preso a ele para sempre.

Nossas vidas não nos permitiam grandes sacrifícios de tempo, raramente nos víamos pessoalmente. Cada encontro era intenso. Cada afago, abraço, beijo, inesquecível.

O que me restou de tudo aquilo? Toda esta dor e estas cartas. Somente lembranças. Lembranças que logo eu transformaria em cinzas.

Organizei tudo apressadamente e acendi três velas num castiçal dourado. As chamas estalavam esmaecidas, baixas, mas ardiam e estavam famintas. Eu as alimentava com o sadismo de ver aquelas cartas que me corroeram se tornando pó e com o masoquismo de as queimar uma a uma, sofrendo a cada página, a cada palavra sorvida e sentida e abandonada no vácuo. Este ritual se seguiu até eu me cansar e impetuosamente atirar no chão todos os papéis que segurava.

Não, ele não teve qualquer culpa senão ser perfeito demais e com isto me conquistar e me fazer sentir tão vivo ao lado dele como nunca havia sentido antes. Queimando as cartas não era ele que eu destruía, e sim o que me prendia a ele, laços invisíveis de um amor infindável e insistente.

O suave aroma do fogo e das cinzas circundavam pelo ar que eu respirava. Fechei meus olhos procurando esquecer o que me afligia e quando os abri quase desfaleci de horror.

Lá, jogado próximo à janela e iluminado pelo reflexo da lua, a única coisa que eu não pretendia voltar a ver, o pernicioso urso de pelúcia de olhos azuis. Tinham os mesmos olhos, o urso e aquele quem me deu; olhos opacos paradoxais de expressões recônditas e sinceras, lúgubres e alegres, voluptuosas e puras.

Tomado de desespero suspendi o aparentemente inocente objeto a altura dos meus olhos e o perscrutei. O ursinho não era só mais uma lembrança, diferentemente das cartas; era uma realidade, uma verdade, uma vida. Ele estava ali. Refletidos por aquele brilho azul-oceânico plastificado, meus olhos se perderam num retorno ao passado. Uma cena ocorrida há exatos três anos.

Eu olhava pela varanda quando ouvi passos tímidos no meu quarto. Virei-me de súbito:

-O que faz aqui? Meus pais não o viram? – questionei preocupado.

-A porta estava aberta então resolvi entrar sem tocar a campainha e lhe fazer uma surpresa – ele me disse com o sorriso mais encantador que já vi – Tive sorte em não me deparar com os olhos felinos de minha adorada sogra.

Sorri com a ironia.

Observei-o por inteiro: estava belo como sempre, porém excessivamente bem-vestido e trazia nas mãos um pacote embrulhado em papel de presente vermelho, minha cor favorita.

-Que faz tão arrumado, tudo isto para mim?

-Tudo isto com certeza é seu. Porém hoje tenho que estar bem arrumado para ir a um lugar especial – respondeu gravemente.

-E que lugar seria este? Estou curioso…

Por alguns segundos eternos um silêncio dominou. Ele tinha parado de falar repentinamente e tinha uma expressão receosa.

-O Consulado Espanhol – suspirou com uma voz baixa, quase muda.

Pausamos e nos entreolhamos. Um mal pressentimento tomou conta de mim. Duas lágrimas começaram a nascer nos meus olhos.

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CONTINUA…

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