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SPHERA, de Marco Lucchesi

Trataremos este mês do livro SPHERA, de Marco Lucchesi. Marco é um poeta jovem, de apenas 44 anos; muitas de suas publicações já passaram pelo crivo da comissão julgadora do Jabuti, nosso conhecido prêmio editorial nacional, ficando por diversas vezes entre os finalistas. Carioca, hoje leciona na UFRJ, e possui traduções do italiano e do alemão.

O livro SPHERA, publicado em 2003, nos apresenta uma escrita própria do poeta, recheada de versos livres e poemas curtos, construídos sobre uma linguagem familiar e pouco rebuscada – exceto quando deixa escapar neologismos e alguns usos do vocabular oriental. Uma tentativa de valorizar seu material poético reside na repetição quase exaustiva de um recurso ingênuo: a separação de uma palavra entre um verso e outro, usando como ponto de cisão um prefixo de negação, o que, no texto, dá à palavra o próprio sentido e o sentido inverso de si mesma. Exemplifiquemos, para não embaralhar a cabeça de nossos leitores, com um poema da página 41:

 

Um rebanho de

palavras junto

ao rio

e um lobo i-

material

 

Reparem no artifício ao qual fiz referência: a palavra imaterial se divide, tornando a leitura ambígua e adensando as possibilidades de interpretação. Devo repetir meu parecer sobre essa técnica: simples, pouco sugestiva, óbvia demais e desgastada pela recorrência excessiva ao longo da obra.

No geral, o que se pode observar é um uso de um linguajar comum, levemente afastado do que convivemos no cotidiano, pincelado aqui e ali com artifícios poéticos insossos e inesperadas referências estranhas ao leitor. Em termos de assunto, o livro gira em torno de alguns motes básicos, passando pelo que parece lirismo íntimo, pela propriedade alquímica do verso poético, pela perplexidade perante o nada, o inacessível e/ou incompreensível, até chegar, inopinadamente numa alusão rápida ao imaginário religioso nordestino, personificado por Padre Cícero. Temos aí um vasto e bom material, que todavia se prejudica bastante pela ausência de unidade temática e pelo pouco vigor poético impresso às exigências desses objetos. Analisados isoladamente, grande parte dos poemas são fracos; em conjunto, a base que poderia torná-los coerentes num determinado contexto falta, e deixa o leitor a imaginar qual fio condutor regeu a composição daqueles filhos-únicos.

Mas não fiquemos a bombardear o poeta sem dar-lhe chance de defesa; não, que isso seria muito injusto por parte do crítico. Destaquemos os pontos altos, pois sempre os há, e argumentemos porque os julgamos assim. O poema da página 115 nos servirá de bom exemplo inicial:

 

Reclama o Todo

as suas devidas

partes

 

faminto de pro

fundas harmonias

em fogo se transmuta

ácido e espelho

 

e a parte

contra

o Todo

 

se dissolve

se consome

e se estilhaça

 

Esse poema nos expõe uma clara tensão de forças entre dois elementos abstratos: a parte e o Todo. A própria escolha desses termos, personificando-os e ao mesmo tempo evitando restringi-los, faz o poema ser multiface: cada leitor vai associar os termos a concepções pré-existentes em si, sem abrir mão dos sentidos absolutos que acompanham estes termos por definição. A peça é fluida, flexível, densa. Um certo tom grave se insinua na enunciação, talvez suscitados pela palavra inicial, reclama, da maiúscula em Todo, e das profundas harmonias, que sejam lá o que forem, parecem grandes e importantes. Seguindo o poema, encontramos três figuras interessantíssimas: o fogo, o ácido e o espelho. Sabemos que os dois últimos se transformam (ou antes, alquimicamente se transmutam) no primeiro. Devemos agora, como bons leitores, especular sobre o que poderia justificar a escolha desses três elementos: se eles representam algo específico, como no “correlato objetivo” de Eliot, ou se suas características mais evidentes podem nos evocar sentidos variados, etc. Começando pelo fogo, sabemos que ele é quente; que carcome, que destrói; que é um símbolo de civilização e raciocínio, pois já foi exclusividade dos deuses, mas graças a Prometeu nos é compartilhado. É quase imediato que associemos o fogo ao Todo, principalmente depois de saber (como nos revela a última estrofe) que a parte, na presença do Todo, se dissolve, se consome e se estilhaça. Por oposição, o ácido e o espelho acabam sendo símbolos da parte. O espelho reflete, e talvez por isso simbolize o “eu” no momento de compor, a expressão parcial de si mesmo perante uma existência maior e mais magnânima. O ácido pode fazer referência a muitas coisas: às lamentações, aos dissabores da vida, às drogas (porque não?), etc. Cabe a cada um tecer suas hipóteses e sugar o máximo que puder da teia poética criada pela disposição formal e bem resolvida das unidades de sentido.

Mesmo já tendo assoprado um pouco depois de bater, ainda não estou satisfeito; vou encerrar minha contribuição mensal repetindo o movimento de crítica ferrenha / elogio, terminando com mais uma transcrição de um poema para apreciação dos leitores.

Marco Lucchesi é adepto claro, nessa obra, do verso livre. Andar por essas searas é um risco, mesmo no século XXI. O verso livre não é aleatório; sua liberdade consiste na inovação da forma, na reinvenção estrutural consciente e trabalhada a partir do afastamento ousado das formas clássicas. Muitos poetas contemporâneos não parecem compreender isso, e destilam suas verborragias de forma inconseqüente. A poesia é um trabalho, um esforço, uma obra, e essas não se concretizam por arroubos ou explosões. Creio que o poeta Lucchesi compreende perfeitamente isso; sua escolha pelos versos livres é intencional e funcional; apenas é, infelizmente, mal-sucedida. Talvez para justificar sua tentativa, o poeta semeia quatro ou cinco sonetos no livro, perdidos no meio do desenvolvimento de poemas curtos, quebradiços e sucintos que vinha se fazendo. No sentido de unidade da obra (a qual já critiquei), devo dizer que os sonetos vêm colocar por água abaixo o barco que já mal se sustentava; individualmente, porém, eles são as peças mais bem resolvidas do livro. Ainda que não se equipare aos grandes sonetistas da tradição em língua portuguesa, Lucchesi faz um trabalho interessante e cria alguns poemas saborosos nesses retornos aos redondos 14 versos. Um deles me tocou o gosto pessoal, pelo tom elevado e constante, pela temática metapoética, pela elocução retórica e sublime; e com este soneto da página 73 encerro esta crítica, pedindo perdão pelas bordoadas dispensadas e dispensáveis, mostrando o que o poeta tem de melhor.

 

Prepara atentamente o magistério

em fontes, pelicanos e atanores

e acede cuidadoso ao ministério

com ácidos, solventes e liquores.

Vigia bem teu sublimado império

de líquidas fronteiras, e os amores

de reis e rainhas, no mistério

de cópulas ardentes e vapores.

Aos poucos se revela no tugúrio,

erguendo o poderoso caduceu,

a fúlgida presença de Mercúrio

E sob as nuvens químicas do céu,

na superfície desse mar sulfúreo,

emerge luminoso o próprio eu.

 

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