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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Hoje eu ouvi uma música.

Lembrei da primeira noite que eu não dormi por chorar demais. E eu não deixava mais ninguém em casa dormir em paz. Sabe, eu sou assim, agora e desde aquela época, bebendo tudo a grandes goles, sorvendo a tristeza com pedaços muito grandes por achar que assim parava de doer mais rápido.

Eu não conto tudo isso como um segredo, como se importasse mais para você saber do que para eu contar. Eu é que preciso dizer.

No entanto, se você não quiser ouvir, voto com toda a minha bile que você deve parar agora. Não acho que as pessoas devem sofrer por algo que não lhes apraz. É claro que existem aquelas coisas que incomodam e que a gente tem que provar, raspar até o fundo da vasilha, até vomitar o amargo da boca.

Ele morreu.

Pois é, é sobre isso que eu ia falar. Não vou dizer o nome dele porque me dói, também não vou dizer qual era a música. Acho que iria parecer acessível a qualquer ser distraído. Vai parecer estranho, porém, digo que eu não me lembro se realmente ouvi a voz dele, ou se já, alguma vez, eu o avistei, nem que fosse de relance ou só mesmo um vulto. Acho que muito do que vou dizer pode ser uma tremenda mentira, mas é desse jeito que eu lembro.

Minhas irmãs eram muito chegadas à ele, falavam dele o tempo todo. Me contaram das músicas que ele gostava e como ele imitava o seu cantor predileto, as botas que ele usava, o jeito de andar, o chapéu, a calça jeans colada e as histórias caipiras. Já tinha me acostumado com ele, mesmo sem vê-lo eu sabia que uma pessoa como ele existia.

Ele adorava a fazenda e a música caipira, fazia a escola agrícola de perto da nossa cidade e cuidava dos bezerros dele. Ele era daquele jeito, pelo menos na minha imaginação, um garoto com seus dezessete anos, um sorriso grande, a pele queimada do sol, as mão calejadas da enxada, mas delicadas o bastante para dedilhar o seu violão e sangrar as suas músicas sertanejas, arrumando namoradas apaixonadas e apaixonantes, trocando-as sempre com a tristeza de quem vai e não volta mais.

Ele gostava tanto daqueles bezerros!

E foi lá mesmo que ele morreu, depois de uma época de chuvas comprida demais, pegou leptospirose e morreu, bem devagarinho.

A turma de amigos dele ficou meio esquisita depois disso. Do irmão dele ninguém mais soube. E todos eles se separaram e, quando se encontravam, já não falavam mais tanto.

Não precisava. Eles já não queriam mais se ver tantas vezes na semana, no ano. Mas eles se encontraram ainda um bom tempo depois disso tudo.

Não dava para esquecer, e não contar isso para os novos amigos era quase um traição. Mas eles não precisavam mais contar para ninguém, pois todos eles estavam lá, eles escolheram a roupa que ele foi enterrado, com a melhor fivela de boiadeiro que ele tinha. Foi mesmo um deles, o amigo mais chegado, que vestiu-o, o mesmo que iria com ele para Barretos.

E eu, com meus 12, 13 anos, não conseguia parar de imaginar ele deitado naquela caixa sem nenhuma expressão, todo arrumado, com as covinhas da bochecha escondidas naqueles músculos flácidos. Nunca mais as covinhas, nem aqueles dentes bonitos! E eu que nunca os tinha visto nunca os veria. E eu chorava, e quando cansava, fazia questão de pensar na caixa estofada, às vezes aberta, às vezes fechada, para chorar um pouco mais. Passei boa parte da noite assim, acho que minha mãe ficou irritada ou com dó, veio, deitou comigo e abraçou-me e me apertou o peito, impedindo-me de respirar muito fundo, fazendo-me sentir presa, sem movimentos. E assim eu adormeci aquela madrugada, espremida e amortecida pelo choro, cansada.

Não sei direito o que dizer sobre o que aquela música fez comigo. Jamais seria capaz de lhe somar novas lembranças. Ela já está afogada nas mesmas daquela época . E quando escutei-a de novo, depois de tanto tempo, eu não chorei mais. Me deu foi uma alegria esquisita, uma ânsia, um fogo, e eu lembrei de tudo como se eu nunca tivesse parado de pensar nisso um momento sequer em todos esses anos. Me lembro também daquela época, do quintal da minha casa, dos meus bonequinhos que eu brincava no jardim pequenininho da varanda, me lembro da cortina da sala e, do sorriso da minha mãe quando ouviu, certa vez, ele cantando lá fora com seu violão, gritava pra fazer graça e abraçava o violão como se fosse uma moça delicada.

O que ele fez na minha vida eu não sei, até onde a sua mania de cowboy alterou dentro de mim. Até certo ponto, não sei separar ele de mim.

Mas a música… Eu fiquei, e ainda estou, meio febril, um tanto obcecada, ouvi uma, duas, …. vezes. Procurei a letra para decorar mais rápido.

A letra era em inglês, na época eu não entendia lhufas de inglês, e a música ficou para mim como um espécie de hino, uma coisa fechada e que só cabia lá atrás, naqueles anos, quando a gente ainda chamava o pessoal da rua para pintar o asfalto na época da copa do mundo.

Agora isso me parece tão irreal, mas eu ainda sinto, e fico com o soluço preso na garganta quando tento me lembrar daquele garoto sem rosto, choro ouvindo a música, choro ao lembrar de ter visto brotar na minha frente, tão pertinho, ao alcance das mãos, uma bela obra de arte, que eu não cheguei a ver, e morrer na minha frente, do outro lado da parede.

O amigo dele ainda foi para Barretos sozinho ver o show do cantor que ele mais gostava.

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Uma resposta

  1. sabe lendo esse texto eu lembrei de uma alda que eu tinah acabado de conhecer e q me contou uma historia estrado entre o caminho do lugar de tomar acai e o lugar de andar de sk8 , lembrei de uma alda que uma vez selou uma amizade num eclipse lunar, acho q tinah magica naquele eclipse!

    se esse texto estivesse entre 93285745 outros textos e sem assinatura eu ainda saberia q era seu, eu nao li nem uma virgula, me sinto como se tivesse ouvido da sua propria boca tudo!!!

    lindo!

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