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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Meu Beijo no Asfalto

Esse texto começou como um relato. Um comentário, daqueles que dissecam algumas das coisas que eu mais amo. Depois de algumas linhas eu percebi que era preciso algo mais forte. A situação necessita uma vestimenta mais adequada, às vezes roupa nenhuma. Seria fácil vibrar com a peça, mas seria triste não deixar transparecer o meu amor por ela, como aconteceria no texto que eu abandonei.

Em estilo rodrigueano, eu deixo a luz cair em resistência, de modo que meus olhos quase não sejam vistos enquanto eu grito minhas paixões.

“Eu não beijaria um homem que não estivesse morrendo!”

Fique claro: essa é a visão de Arandir das coisas.

Arandir decidira que a esposa deveria fazer um aborto. Ela era linda demais para desfigurar o corpo. Depois de só um ano de casado ele preferia não encerrar a lua-de-mel ainda. Ela, criatura “fina, frágil” e “de intensa feminilidade”, concorda. Foi penhorar uma jóia para pagar pelo procedimento. No caminho de volta, já com o sogro, Aprígio, voltando para casa, vê um lotação que atinge um rapaz junto ao meio fio. Ele se aproxima.

Arandir recebe um pedido inusitado

“estava morrendo. Morrendo junto ao meio fio. Mas ainda teve voz para pedir um beijo. Agonizava pedindo um beijo.”

Arandir deu o beijo. Visto por um repórter, o caso foi explorado, a história foi reescrita: agora Arandir tinha um relacionamento com o rapaz, depois a viúva do Atropelado os tinha visto juntos, finalmente, para todos era fato consumado.

“Seu marido mantinha relações anormais com outro homem. (…) Te traía não com uma mulher, mas com um cara! Na hora de morrer, ainda levou um chupão!”

“Relações anormais”, “intimidade que não pode existir entre homens”. Os termos variam, todos no mesmo sentido. Não, não pretendo desenrolar uma tese sobre a visão da sexualidade na época. Isso realmente não importa. O que importa é que um homem foi humano o suficiente, homem o suficiente, pra deixar um desconhecido morrer feliz. A recompensa que ele recebe é clara: piadas no trabalho, dúvidas dos visinhos, família e amigos. Ele deixa de importar, deixa de existir. O beijo resume toda sua existência.

“Parei a cidade. Só se fala no ‘Beijo no Asfalto’!”
“A pederastia faz vender”

O jornalista tem necessidade de fama. Ligado a um policial homofóbico, ele convence as pessoas de que há ali uma história, boa a ponto de elas deixarem de acreditar em si mesmas e concordarem. As versões são construídas com palavras hábeis, ameaças e violência. Selminha, a esposa de Arandir, que, a princípio não se incomoda com o que aconteceu, começa a ter nojo do marido. A viúva do atropelado inventa um caso sobre os dois tomarem banhos juntos. Desconhecidos ‘reconhecem’ o sujeito de vista, sempre ligando-o a Arandir, sempre levando os outros a confirmarem a história.

Ameaça e violência na distorção da história

“Viúvo de atropelado! Ou viúva!”

O refúgio da casa perde sentido sem o apoio da mulher. Quando ela é levada pela polícia, ele foge. Ela é ameaçada até concordar com a história. Desiste de defender seu homem, depois de ter sua roupa arrancada por outros dois. Seu constrangimento é uma vingança àquele que ela causa ao policial, ao jornalista e à platéia, defendendo a honra de seu marido.

Montagem de 2007 - estética que mistura os planos da realidade“Eu conheço muitas que é uma vez por semana, duas e, até, 15 em 15 dias. Mas meu marido todo o dia! Todo o dia! Todo dia! Meu marido é homem! Homem!”

Quando a esposa se convence de que o marido a traía e o abandona, recusando-se a ir encontrá-lo no hotel onde se escondia, sobram apenas duas tramas, até então subalternas. Dália, a irmã de Selminha, era apaixonada pelo cunhado. Selminha o abandona e ela aproveita para se entregar. Vai ao hotel. Se confessa. Aceita morrer junto com ele. Não se importava com mais nada. Inocentemente pergunta se era verdade sobre o caso com o atropelado.

“Você é como os outros. Igual aos outros. Não acredita em mim.”

Dália o perde ao se igualar ao mundo e deixa o hotel. Aprígio entra no quarto. Nesse momento, a platéia foi alimentada acreditando que ele não gosta do genro. Tanto que nem fala o nome dele, e evita ao máximo a sua presença. A sugestão de Arandir é que o sogro tem um ciúme muito grande de Selminha para suportar o homem que a roubou dele.

“O senhor me odeia porque. Desejava a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha!”
“De você! Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria o teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver.”

É desesperador, é infeliz, é honesto. Como a falta de caráter do jornalista Amado. Como a incapacidade do delegado Cunha. Como o sofrimento de Dália. Como o medo de Selminha. Como a pureza de Arandir.

“Ninguém pode viver sem ninguém.”

Selminha estava certa. Ao fim da peça todos estão traídos, desesperados, bêbados ou abandonados, de modo que eu pareço ouvir essa fala dela se repetindo quando a luz se apaga, esclarecendo, depois de tiros, sobre os gritos de Aprígio ao cadáver de seu querido, que ele nao viverá sem ninguém.

“Arandir! Arandir! Arandir!”

Arandir foi humano. Por mais que me agrade mais a versão eles-tinham-um-caso-secreto, essa não é a história de uma paixão interrompida cedo demais junto ao meio-fio. Essa é a história de como algumas pessoas simplesmente são pessoas. E como outras simplesmente sabem o que fazer para ter o que querem. Explorar não é novidade, mas explorar algo tão lindo é minimamente doentio, completamente sufocante, indiscutivelmente rodrigueano, inegavelmente uma das coisas horríveis que mais me apaixonam.

“É lindo! É lindo, eles não me entendem. Lindo beijar quem está morrendo. Eu não me arrependo! Eu não me arrependo!”

E não deveria. Eu também não me arrependo…

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2 Respostas

  1. GENIAL!
    Simplesmente genial!

  2. Lindo, henrique.
    lindo o texto, lindo o trabalho.

    Ao fim da peça todos estão traídos, desesperados, bêbados ou abandonados, de modo que eu pareço ouvir essa fala dela se repetindo quando a luz se apaga, esclarecendo, depois de tiros, sobre os gritos de Aprígio ao cadáver de seu querido, que ele nao viverá sem ninguém.

    lindo.

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