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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Do som da cabeça

Dizem que João Gilberto ficava trancado no banheiro da casa da irmã tocando violão. A acústica era perfeita. Ela fica trancada na própria cabeça ruminando o assunto. A acústica é perfeita.

Se disserem qualquer coisa, ela não escuta caso esteja trabalhando com sua cabeça. Busca a perfeição dela, da mesma forma que João busca a do violão. Esquisito e compreensível. Quando perguntam por que ela não está prestando atenção, ela pisca os olhos, que até aquele momento estavam opacos, como se o corpo dela tivesse morrido um pouco para a mente trabalhar melhor, e pede desculpas, mas não são sinceras, já que na opinião dela as pessoas fogem de si mesmas o tempo todo. A única diferença entre ela e os outros é que ela não sabe disfarçar. Por telefone é mais fácil: com alguns sons ela finge que presta atenção e pronto, o interlocutor fica satisfeito. A verdade é que ele só queria falar, e se ela não atendesse, outro iria ouvir.

Mas isso não quer dizer que ela não quer ser escutada. Quando se propõe, raramente, a dividir seus problemas, espera a atenção de quem a escuta, mas isso devido à solenidade do momento: ela não conta quase nada para quase ninguém, e decidir contar já foi um grande passo. Escolher para quem contar um maior ainda. Contar de fato foi quase a chegada do homem à lua. Para contar, ela precisa que o assunto esteja vazando pelas orelhas, ficando quase palpável, não tendo encontrado nenhum outro caminho. Por isso quase todas as suas confissões se dão em um tom meio desesperado. Saem confusas e emboladas, com o mesmo final sempre: “E o que eu faço?”. Normalmente dizem respeito ao que ela imagina não conhecer e considera o ouvinte capacitado de resolver. Normalmente falam do coração, que ela considera um terreno desconhecido apenas para si, sem nunca pensar que assuntos do coração são o único terreno que nunca se deixa de desconhecer.

Pragmatismo é sua crença e imaginar alguma coisa que não possuía solução sempre foi um tanto difícil de conceber. Por isso, desde que saiu das bonecas, passa muito tempo trabalhando nas coisas do coração e, invariavelmente, chegando a conclusões pragmáticas, e por isso nada funcionais. Não que ela não viva o amor, não. Ama muito e já amou muito, mas nunca da forma mais comum. Costuma gostar antes de conhecer (única parte comum a quase todo mundo), mas desgostar no primeiro beijo para se apaixonar com o primeiro sintoma de rejeição, coisa que ela lida muito mal, mas gosta de conviver. Dá um gosto na boca que merece ressoar pela cabeça. Mas tudo isso diz respeito ao amor de namorado.

Com o amor de amigo ela é diferente. É agradável e às vezes tanto que os amigos se perguntam a quem ela quer tanto agradar, sem pensar que é a eles. Muitos inclusive nem sabem que ela é mais agradável ainda com quem não considera tão amigo. Só aos grandes ela destina algo além da boa convivência. A muito poucos ela destina choros e uma ou outra crítica mais dura. E só para ela destina-se a maior parte da angústia diária.

Outro dia estava olhando para ela e juro que vi algo de macabro, será que finalmente vazou algum som daquela acústica perfeita? Acho que ela notou que eu consegui vislumbrar uma coisa diferente e disfarçou. Sem eu nem perguntar inventou uma desculpa e ficou me olhando, vendo se conseguia procurar algum vazamento de som na minha caixa acústica. Não viu. Eu nunca mais vi nada também. Mas o que vi ficou sempre ressoando, e desde então tenho trabalhado bastante na minha cabeça, mesmo que ela não tenha a acústica tão perfeita.

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5 Respostas

  1. Amei, quero mais diários!

  2. que demais esse diário =)
    mãe… que lindo!

  3. Gostei muito.
    A história flui; não é longa demais, nem muito curta.
    E termina com o mesmo tópico do início.
    Lindo!

  4. que lindo, ka.
    =)

  5. Pensar que eu tinha capturado a esquisitice do mundo. Fiquei tão feliz que quase sufoquei. Como não tinha ninguém perto, não precisei disfarçar pra chorar. Agora eu já me esqueci do caminho das minhas epifanias, ficou guardada só a impressão, bem difusa, o sentimento diluído. Neste texto você conseguiu engaiolar uma daquelas coisas que só nos são permitidas entender por um momento. Já já eu me esqueço das suas palavras, mas na minha caixa acústica soarão, perdidas e sem contexto, as impressões, como a marca do espiral do caderno na bochecha depois de uma soneca acadêmica.
    AMEI!
    Vou tentar engaiolar o seu texto e ensinar o caminho para os meus neurotransmissores, quem sabe eu não esqueço?

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