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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Rio Abaixo

Luz branca e sem sombras. Uma sensação de vazio percorre meu corpo. Não vejo mais a moça na janela. Também o velho não se acha mais debaixo da árvore. Só resta agora a visão nua e indiferente daquilo que me cerca. O circo está montado. Memórias. Fragmentos de memória. O veneno da fruta mordida, dói e lateja a vida perdida. Memórias de uma placenta pré-maturamente exposta;de uma sala de jantar destroçada. Deposito meu cansaço no banco da praça e tento tecer minhas idéias. Três horas dormidas, nenhum ânimo acalmado e esse nó na garganta que esqueceu como se desatar. No fundo, um abismo de pétalas abaladas por existências desreguladas. Rostos e máscaras. Potes de geléia e dentaduras que ficaram por encaixar. Tudo se recorda.

Coisas de uma transcendência morta, de idéias vencidas. Mas não há luto, esse diálogo intermitente entre os dois mundos. Tudo se recorda. É carne encardida e calcada. É o mundo denso e pesado; inorgânico no cerne e nas oscilações. O mundo se deflagra. Eu definho. A realidade, essa chuva de verão, pouco importa. A alma é inerte. Açúcar, sangue e pó, recolho tudo em um saco plástico e tento criar um homem. Um ídolo de cabeça pensa que oscile pelos caminhos da vida. Um homem livre em busca de algo.

São esses pensamentos. Sempre simples pensamentos de vida. Da lida diária que é sair de si e recolher em si antes de dormir. As almas empoeiradas aguardando vento, ou pelo menos um dedo curioso que imprima uma marca, qualquer coisa. Qualquer coisa. É um quarto vazio, um corpo frio, um tempo absolvido de si aguardando fluidez. É esse hiato justificado que se torna permanente. Nas convalescenças desses reumatismos emocionais, dessas ressacas atemporais. O inchaço da vida. A expansão do tédio. Os móveis se estarrecem. Quem será o primeiro a despertar? Será homem real? Ou será ele projetado, abstrato, esperança mental? No auge do dia, a lâmpada perpendicular incide sobre os homens. Os incita a sair ao sol e sentir o alento universal. O movimento se nega.

Aguardo as insurreições lacrimais do meio dia. Nada ficará exceto os fatos e cacos de tempos maiores. Sento e espero, hirto. É a cegueira do corpo atolado no marasmo do caos anacrônico e inorgânico. Prostro-me no feno, braços abertos. Submeto-me às seduções das ruas. Padeço sobre os lençóis manchados de vinho; os lençóis embriagados de vinho. Estarrecido no banco, declamo a palidez do mundo e, sabendo que o perco, aguardo pacientemente na fila do cinema. Dentro da sala o mundo deixa de existir. Mas o mundo sempre retorna.

Relembro os ruídos atávicos da noite, os estrondos das portas enferrujadas e as diatribes das janelas escancaradas. As estruturas são delicadas demais para a companhia da vida. Só resta esperar agora. A noite logo vem esconder. O mundo consola-se nos ventres recém-nascidos, como a recordar um início definido e cristalino. Os aleijados e amputados se transfiguram e das ruas partem uivos de solidões derradeiras. A vida de agora em diante será feita do vil, dos destroços invioláveis inumados na desordem de todas as coisas. Do silêncio de duas almas atônitas que perderam suas palavras ao ver a multidão vitrificada. Nada passa. Nada fica. Nesse circo crestado tudo seca. Menos o corpo. Estão todos doentes o suficiente para estarem completamente confiantes. E a vida deflagrada serve de sofá. Os pescoços estão gangrenados. É vertigem. É ferro. É fogo. É a estética de todos os dias. É o preto no branco. É o gim com tônica. É fel e gasolina. É a tela hipocondríaca que pede tinta. São os ócios dos ofícios humanos do estar-não-estando. A alma, extinta, não perpassa a matéria vã. E vive-se tranqüilamente até a hora do fim.

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6 Respostas

  1. Muito bem, Mariana!
    Como sempre algo escrito com seu estilo próprio e marcante.
    Vou sempre acompanhá-la e aguardar novos “desencontos”.
    Carmen

  2. Adoro suas imagens e suas frases curtas.
    “A tela hipocodríaca que pede tinta” é o máximo.

  3. Minhas filhotas são o máximo. Morro de orgulho. Queria tanto que a gente escrevesse sobre coisas mais felizes. Esperança, filha.

    Beijão.

  4. Tenho que reler de novo… não dá pra alinhar tudo numa primeira lida numa lan house.

    Mas como notas mentais pra mim mesmo eu tenho,

    1. o interno versus o externo que estão presentes o tempo todo apesar de não explícitos numa oposição, e eles não se confundem, um não é o outro, mas um muda pro outro muito rápido, que dá até uma vertigem!

    2. na primeira lida fica tudo muito confuso porque as imagens vão se construindo, construindo e acumulando, acumulando e não aparece um diálogo com algum outro elemento pra elas fluirem. A criação do homem parecia ser uma possibilidade disso. Isso é uma coisa que eu também faço e agora fiquei pensando nisso. Talvez por isso tive que falar da dona esperança no meu texto. Essa necessidade de sair um pouco de si mesmo, pra ter um diálogo, pra não ser só um quadro. Mas claro que isso pode ser uma escolha claramente por isso mesmo… Então não sei, fica a questão…

    3. Gostei muito do final! Me emocionou talvez justamente porque tava pensando numa coisa dessas esses dias. A frase “Estão todos doentes o suficiente para estarem completamente confiantes” tem tudo a ver com isso, esses dias tava pensando em escrever no meu orkut “odeio as pessoas que andam pela vida como um grande foda-se”, mas claro q isso é só o q vc disse mais superficialmente… hehehe

    é isso…
    ai, de novo, termino de escrever isso com aquela sensação ruim q eu te disse naquele dia no bandejão… estranho né? espero q o q eu disse te ajude de alguma forma…

    um bjão!
    té mais!

  5. * “isso é só o q vc disse mais superficialmente”, quer dizer, eu repeti mais superficialmente o que você já tinha dito.

  6. Texto bom se comenta msm mais de seis meses depois de publicado! hehe

    Por isso, eu, q curto ler o que não é canônico, quando li o seu, mó tempo depois de todos os comentadores, tive até vontade de falar “texto bom fica para a posteridade”! Curioso, né?, em mim q acho no mínimo necessário questionarmos a existência dos tais cânones, seu texto causou até esperança quanto aos segregadores “sistemas” literários, “críticos”, q sempre ao fazerem uma seleção tiram algo bom das listas dos 10 maiores do mundo “como a de H.Bloom), etc… hehe

    Mas seu texto me deu esperança não porque eu creio que o intermediador/crítico literário vá valorizá-lo e divulgá-lo por aí, mas sim pq seu texto é mutio bem trabalhado, amarrado, é comunicativo e à pessoas diferentes…e quando vejo algo assim me alegra saber que, ao as pessoas lerem-no, realmente é possível que a maioria delas considere-o bom (e não um crítico tenha que fazer isso por essa turma)…

    Sei lá, eu como leitor fico mto feliz de achar algo que eu gosto sem ninguém ter me influenciado a ler tal coisa…etc

    Achei demais a velocidade do teu tx…bem diferente…enquanto o lemos dá bem a sensação de que “vive-se tranqüilamente até a hora do fim.”

    Bjão e parabéns

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