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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Dia de Folga

Que bom que você chegou! Você sabe que é um erro eu estar aqui, não sabe? Estou bem, garanto. Você sabe, eu sei que sabe. Que tal negociarmos? Você me deixa ir e fica tudo bem. Esquecemos que um dia estive aqui e você fica com um a menos, o que acha? Sim, não é uma boa idéia? Sabia que você concordaria. Concorda, não?! É só olhar para mim: há algo estranho? É claro que não. Nunca houve. Você sabe. É dinheiro? Eu tenho. Recebi uma herança. Um tio que morava na Suíça. Velho, coitado. Morreu dizendo que odiava a miséria, pode? Agora estou rico. Posso pagar o que você quiser. Você quer, não quer? Quer tanto quanto eu, aposto. Não, não é isso que você pensou. É claro que poderíamos pensar nisso, se você prometesse me deixar ir. Não é porque já não é mais doutor, mas você. Você entende? Mas só você. O que acha? Olha aquele bando lá embaixo. Eu não me pareço com eles. Eu sei que isso é uma janela. Muito grande por sinal. E lá fora as árvores se desfolham. Está vendo? Eu ainda sei fazer poesia. É claro que tudo isso é um engano. Eu ainda sei, eles não sabem. Eles não falam. Eu falo. Estou falando com você agora. Só preciso desfazer esse desastroso engano. Por que pôr essa roupa? Odeio branco. Sempre odiei. Você sabe. Tira isso. E a pintura dessas paredes também não me agrada. É tudo muito limpo. Assim eu me sinto sujo. Você também me parece sujo. Não é por nada, mas você não acha que também deveria sair daqui? Você não é obrigado a ficar aqui como eu. Mas se você sair, me leva junto, não leva? Promete? Seremos felizes, você vai ver só. Você sabe. Que tal um vinho para comemorar? Sabia que aceitaria. Estamos no lugar errado. Saúde! Já está de saída? Mas ainda nem comemoramos direito. Espera. Vou com você. Esqueceu? Acho bom não esquecer. Você volta? Sempre? Como sempre? Nos veremos então? Você me leva? Bom saber que estarei sempre ao seu lado. Sempre. Vamos amanhã, certo? Deixarei tudo pronto. Adeus não. Você voltará aqui mais uma vez. Uma vez, ouviu? Mais uma. Apenas. Voltará. Isso basta.

 

 

Xi, num é que cê tinha razão Gleyce? Menina, tô passada! Quem diria, hein, o-d-o-u-t-o-r. Ai! Cuidado com a cutícula. Isso dói viu? O cara entra na ala dos internos, aquele uniforme caretíssimo dele sem nenhum brilhosinho, e volta aqui na recepção como veio ao mundo falando que tinha que voltar. Voltar pra onde? M-e-d-i-z-p-r-a-quê? Todos os pacientes tão no retiro hoje. A gente pergunta: hoje não era dia de folga do d-o-u-t-o-r então? Era. Ai Gleyce, já mandei tomar cuidado! Puta, o cara só pode sê louco viu. Vir conversar com paredes em D-i-a-d-e-F-O-L-G-A é muito pra minha cabeça.

 

 

 

 

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12 Respostas

  1. de médico e louco todo mundo tem um pouco, e as enfermidades nunca são as mesmas.
    até na loucura, queremos ser diferentes do bando!
    mas nas conversas de relacionamentos, dos mais variados, somos sempre os mesmos, com as mesmas promessas!

    genial, mana!

  2. uaehuaeh
    legal o conto meu
    ;D

  3. o que dizer do seu texto maninha?
    esse texto é especial por quinhentos motivos e vc sabe disso melhor do que eu…
    seu jeito de escrever é único! tem pouca descrição mas ainda assim a gente enxerga a cena como um todo
    não tem tempo e isso deixa o leitor livre pra construir o tempo de narrativa
    fora o espaço…
    ele naum se perde diante da cena, sendo q a gente o visualiza…eu gosto de textos assim
    sem diálogos…parece “grande sertão…”
    é o tipo de texto que exige do leitor
    é um texto próprio e inteligente!
    bom te ver escrevendo…o mundo precisa de suas palavras
    nunca se esqueça que olhamos para o mundo de fora e de dentro ao mesmo tempo quando escrevemos e isso muda tudo…

  4. Parabéns Isa, mto bom mesmo.

    O pior eh voltar a lucidez (= !
    =*´Ss

  5. Quanto mais eu conheço essa Isabella, mais eu admiro essa menina..
    como disse muito bem a Laís, o mundo precisa das suas palavras..
    NÓS precisamos das suas palavras.
    Eu não queria que o conto acabasse, dava vontade de ficar ali horas e horas e deixar essa coisa de lucidez pra lá. Quem precisa disso, não é mesmo?
    Isa, orgulho de você!
    beeijos

  6. A narrativa é muito bem escrita, envolvente e original.
    O uso de frases curtas parece ser uma característica da autora. Tal recurso reduz a possibilidade desurgirem erros ortográficos e ambigüidades não intencionais no texto.
    Um conto geralmente é uma estória curta que não dá ao autor a liberdade de escrever papo furado: cada frase deve ter algo indispensável para a narrativa. É aí que a Isabella uso recursos inovodores neste tipo de narrativa: a maior parte do texto é mero papo furado que poderia muito bem ser substituído por uma mera frase do tipo “estava o médico conversando na clínica”. Porém, é o papo furado que cria o clímax da narrativa e envolve o leitor, que tenta imaginar quem está conversando com quem. A ironia presente no final do texto consiste justamente em frustrar as expectativas do leitor, revelando que a conversa é entre um médico e uma parede, algo que, a partir do diálogo inicial, o leitor jamais suspeitaria.
    A combinação do diálogo com um desfecho irônico me fez lembrar as crônicas de Veríssimo.
    Isa, também tenho orgulho de você!

    Beijos e parabéns!

  7. Quem diria que o médico é doidão…? hehehe
    Muito legal a forma como o “conto” foi “contado” sem ter ninguém pra “contar”. São os diálogos que narram!
    Interessante o “Ai! Cuidado com a cutícula. Isso dói viu?”. Deu para imaginar muito bem o local da conversa e o que “estavam” fazendo, mesmo sem ninguém pra narrar nada.
    Parabéns!

    Abraço.

  8. Muito, muito bom!
    A maneira como o texto c desenvolve, dando um tom mais vago, mais ‘sombrio’ talvez no dialogo inicial, é unica, faz o leitor imaginar as mais diversas cenas, todas possivelmente com desfechos lugubres.
    A mudança para os dialogo na recepção faz a volta ao estado ‘lúcido’, ou melhor, a revelação de que o diálogo (monólogo) anterior não foi lúcido! Desfecho inesperado e muito engraçado,ao estilo de alguns contos do Veríssimo, como já postou o rafahz.
    Parábens Isa!!
    beeijos

  9. Ótimo!
    Mais uma vez um texto cativante e bem elaborado tanto pela temática, desenvolvimento e final imprevisível e irônico. Cada sentença, cada pergunta a ser respondida tem um valor muito alto e , no final, culmina em um brilhante desfecho surprendente.
    Infinitos parabéns!!

  10. sabe que nao é um problema conversar com as paredes, até o ponto em que elas respondem e te entendem, e te condenam, e te esquecem, e te detestam…

    branco é uma cor horrenda que esteriliza o olhar.

    mto bom

  11. O uso do coloquial, as palavras quase que soletradas, dá pra sentir o tom de conversa.

    As situações e os lugares de forma subjetiva vão sendo colocados, e a gente vai lendo até o fim, com vontade, e não sai decepcionado ao terminar.

    Parabéns!

  12. a-d-o-r-e-i;

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