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Casa de Bonecas – Henrik Ibsen

A peça parece invertida, na contra-corrente do século XIX. O Grande Inovador da ópera, Wagner, não resiste ao adultério, ao homem que tudo arrisca pela mulher amada, em seu Tristan und Iseult; Verdi, outro dentre os grandes compositores do século XIX, não terá como emblema de sua arte senão sua La Traviatta, aquela baseada em A Dama das Camélias de Dumas Filho, a história da cortesã que morre de tuberculose e apaixonada por um homem de nível social superior ao dela. É apenas uma prova de não-amor, quase sempre forjada, que faz com que o homem desista da mulher amada; é sua falta de crença na verdade do que ela diz, o trabalho de Iago que as circunstâncias e as personagens desempenham é o único obstáculo entre o homem e a mulher, objeto frágil e incapaz de agir senão por impulso e amor, sendo jogada de um lado para outro da trama.

Não é isso o que está acontecendo em Casa de Bonecas, absolutamente. Não há adultério, e até as insinuações mais claras dele entre Nora e o Doutor Rank, até a declaração de amor do médico, não abrirão, em nenhum momento, espaço para que, na peça, a idéia se concretize. É como se Ibsen brincasse com seu expectador, dando-lhe sinais claros daquilo que nunca acontecerá nem aconteceu, gritando-lhe que aquela não é mais uma peça do século XIX. A mulher não é mais uma coitada apaixonada que vive à mercê de seu amor; o centro da tensão entre marido e mulher não é mais o adultério, e a mentira nada mais tem a ver com ele o homem não se mostra disposto a incondicionais provas de amor. É exatamente isso o que está sendo destruído aqui: as ilusões românticas, as provas de amor, o valor dos sacrifícios pessoais em nome desse tão nobre sentimento. O milagre esperado por Nora, o milagre romântico, recusa-se a vir. Ao invés dele, vem uma enxurrada de falta de virtude e de egoísmo por parte do marido.

A Senhora Linde está ali para provar a Nora que uma mulher pode se virar, se sustentar, libertar-se de sua “casa de bonecas” (ou pelo menos deixar de ser a boneca da casa e passar a ser a criança que com ela brinca), e a mulher de Torvald afirma, ao sair de casa, que precisa se educar. Ibsen está preparando a mulher para deixar de ser a cortesã que se apaixona pelo nobre, ou a esposa dedicada que vive de pequenas alegrias mas sem gozar um instante de real felicidade, ou a princesa que se apaixona pelo cavaleiro e cujo amor supera a morte. Nora não tinha influência alguma sobre o marido, o que descobre com a chantagem de Krogstad, e assim como essa, todas as ilusões da mulher vão caindo, uma a uma. Cristina Linde não rejeita o casamento, pelo contrário, precisa dele, mesmo que seja com um homem que tem má fama, um agiota; mas ela afirma que aprendeu muito com a vida, de certa forma, já passou por sua educação. Nora, ao ver seus sonhos esfacelados, descobre-se cega, e a lucidez que tem no final não aponta uma volubilidade dela, e sim uma aceitação. Nos surpreende na peça de Ibsen que a senhora Helmer não descubra nada novo, apenas confirme, com grande lucidez, aquilo de que sempre suspeitou, como se fizesse a mesma constatação de José Saramago ao fim de seu Ensaio sobre a Cegueira, “somos cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem”.

Nora elimina qualquer possibilidade de ser ajudada pelo marido, como negou a possibilidade de ser ajudada pelo pai quando precisou de dinheiro. Passou a vida se privando em benefício das obrigações de mulher e mãe, e a sua educação se inicia justamente por uma descoberta da individualidade (o que nos lembra da busca de Édipo por ela na trilogia tebana), e ainda por cima tendo que conviver com as insinuações sarcásticas do marido. Agora, é hora de a mulher libertar-se do marido de todas as formas, libertar-se do Romantismo, não mais ser a Luísa de Eça em seu O Primo Basílio, mas a famosa Capitu de Machado. Ibsen pode não ter mostrado o mundo fora de sua “Casa de bonecas”, mas com certeza apontou-nos a insustentabilidade da vida da mulher dentro dela.

(para o próxima mês: Heartbrake House, de George Bernard Shaw. Tradução: Casa de Orates, mas não é boa. a peça pode ser encontrada no http://www.gutenberg.org)

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2 Respostas

  1. EXCELENTE!

  2. O resumo deixa muito a desejar.

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