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A Sombra da Alegria…

“También sobre el alma nieva
La nieve del alma tiene
copos de besos y escenas
Que se hundieron en la sombra
o en la luz del que las piensa”*

Federico García Lorca

Canción outonal


É com muito prazer (e um tanto de medo da responsabilidade!) que dou início a coluna que vai falar de literatura em espanhol, tema pouco explorado em nosso país, considerando-se o tamanho de nossa fronteira terrestre e a proximidade com os falantes desta língua… Quero somar alguns detalhes que esqueci de mencionar no post de abertura. Em 1º lugar, esta será uma coluna muito pessoal! É claro que, em alguns momentos, teremos certo formalismo, mas… na maior parte surgirão opiniões, gostos e sugestões que dizem respeito a minha própria experiência. Outra coisa, a literatura não será assunto único. Falarei de aspectos culturais que possam ajudar o leitor a compreender melhor este universo tão rico e colorido da América Latina. Será algo pretensiosamente inspirado nos moldes simbolistas, utilizando cores, aromas e sabores ao lermos os poemas aqui referidos… E, por fim, reafirmo que todos os textos, poemas e citações que estiverem em espanhol serão traduzidos.

Sem mais, espero que gostem e se identifiquem com Entre cielos y suelos… críticas construtivas serão sempre bem vindas!

Hasta luego!


Autor: Mario Benedetti

País: Uruguai

Cor: Cinza, a cor que mais combina com a atmosfera citadina dos poemas benedettianos… por este motivo, usarei figuras em preto-e-branco e em tons de cinza.

Comida: Dulce de leche (doce de leite uruguaio é o melhor!). Sugiro que façamos uma experiência gustativa…

Música: Jorge Drexler- El fuego y el combustible (o fogo e o combustível). Músico-compositor uruguaio, letras com jogos de palavras, poesia pura!


Mario Benedetti (1920) além de poeta foi ensaista, teatrólogo, contista, comediógrafo e novelista. Em toda sua obra, o ambiente urbano é cenário corrente, e a classe média burguesa, foi sua personagem principal. Em seus textos, ele sempre figura como observador, aquele que conhece profundamente seus personagens e partilha suas experiências. É como se leitor fosse testemunha de amores mal resolvidos, de passeios pela cidade (Montevidéu), de descobertas tecnológicas ou mesmo de conversas de bar. Algumas vezes, ao nos depararmos com algum poema benedettiano, temos a impressão de estarmos lendo um roteiro cinematográfico, devido à agilidade dos pequenos quadros narrados, tal qual Drummond fez em poemas como Cota Zero:

Stop.
A vida parou.
Ou foi o automóvel?


Benedetti pertence à Geração Uruguaia de 1940-55, cujos autores trouxeram à tona uma literatura fortemente marcada pelas influências do Realismo, do Existencialismo (de Heidegger e Sartre, sobretudo) e do Neonaturalismo. De acordo com estes referenciais, o leitor transforma-se em cúmplice do escritor, que neste momento, preocupa-se principalmente em transplantar a realidade para sua obra, seja ela poética ou prosa. Surge daí uma desobediência do espaço-tempo, bastante evidente no uso contínuo do fluxo do pensamento e de uma não preocupação com a estética. Temos assim, o uso de versos brancos e livres e a criação de poemas em prosa, que flertam com o conto, como mostraremos mais adiante, no poema/conto La Mendiga (A Mendiga). Sobre os poetas uruguaios da geração de 1940-55, E.A. Imbert afirma que: “absorvem os sais, também as prosaícas da vida cotidiana, e aludem ritmos, rimas, estrofes e metáforas suntuosas. O tempo pulsa tragicamente neles; caminhando por ruínas e escombros as vezes se detém a cantar um instante ditoso mas em seguida tropeçam e pensam na morte”.[i]

Poemas escolhidos de Mario Benedetti:

Mass Media

De los medios de comunicación / Dos meios de comunicação

en este mundo tan codificado / neste mundo tão codificado

con internet y otras navegaciones / com internet e outras navegações

yo sigo preferiendo / eu sigo preferindo

el viejo beso artesanal / o velho beijo artesanal

que desde siempre comunica tanto / que desde sempre comunica tanto


Piernas/ Pernas

Las piernas de la amada son fraternas / As pernas da amada são fraternas

cuando se abren buscando el infinito / quando se abrem buscando o infinito

y apelan al futuro como un rito / e apelam ao futuro como um rito

que las hace más dulces y más tiernas / que as fazem mais doces e mais ternas


pero también las piernas son cavernas / mas também as pernas são cavernas

donde el eco se funde con el grito / onde o eco se funde com o grito

y cumplen con el viejo requisito / e cumprem com o velho requisito

de buscar el amparo de otras piernas / de buscar o amparo de outras pernas

si se separan como bienvenida / se separam-se como boas vindas

las piernas de la amada hacen historia/ as pernas da amada fazem história/

mantienen sus ofrendas y enseguida / mantém suas oferendas e em seguida


enlazan algún cuerpo en su memoria / enlaçam algum corpo em sua memória

cuando trazan los signos de la vida / quando traçam os signos da vida

las piernas de la amada son la gloria / as pernas da amada são a glória

E o poema-conto:

La Mendiga

La mendiga bajaba siempre a la misma hora y se situaba siempre en el mismo tramo de escalinata, con la misma enigmática expresión de filosofo del siglo diecinueve.
Como era habitual, colocaba frente a ella su platillo de porcelana de Sèvres, pero no pedía nada a los viandantes. Tampoco tocaba quena ni violín, o sea que no desafinaba brutalmente como los otros mendigos de la zona.
A veces abría su bolsón de lona remendada y extraía algún libro de Hölderlin o de Kierkegaard o de Hegel y se concentraba en su lectura sin gafas. Curiosamente, los que pasaban le iban dejando monedas o billetes y hasta algún cheque al portador, no se sabe si en reconocimiento a su afinado silencio o sencillamente porque comprendían que la pobre se había equivocado de época.

A Mendiga

A mendiga descia sempre na mesma hora e se situava sempre no mesmo conjunto de degraus, com a mesma enigmática expressão de filósofo do século dezenove. Como era habitual, colocava em sua frente seu pratinho de porcelana de Sèvres, mas não pedia nada aos pedestres. Também não tocava quena nem violino, ou seja, que não desafinava brutalmente como os outros mendigos da área. Às vezes abria seu sacolão de lona remendada e tirava algum livro de Hölderlin ou de Kierkegaard ou de Hegel e se concentrava em sua leitura sem óculos. Curiosamente, os que passavam lhe iam deixando moedas ou bilhetes e até algum cheque ao portador, não se sabe se em reconhecimento a seu afinado silêncio ou simplesmente porque comprendiam que a pobre havia se equivocado de época.


Deixo-os com seus próprios (pré) conceitos…

Até maio!


* “Também sobre a alma neva/ A neve da alma tem/ copos de beijos e cenas/ Que se fundiram na sombra/ ou na luz de quem as pensa”.


[i] IMBERT, Enrique Anderson. História de la Literatura Hispanoamericana, p.322.

Para saber um pouco mais sobre os filósofos…

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre

http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger

http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B8ren_Kierkegaard

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3 Respostas

  1. Karen! me hace feliz saber que te gustó tanto el arte de Benedetti.

    Encontrar en algo tan sencillo, aquella profundidad que nos toca en el alma..
    que nos hace sonreir, mirar el cielo y pensar que de las cosas simples nace lo verdadero, lo sincero, lo natural.
    Muchos éxitos para ti

  2. Bravo! Nada melhor do que começar por um país tão querido como o Uruguai e citar Benedetti… Estou no aguardo de mais poesias e sugestões Srta. Karen!

    Besos!

  3. […] Tradução de Karen de Andrade […]

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