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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Sem título

Andava pela Luz numa madrugada infinita e muda, cujo silencio parecia ignorar o canto melancólico daquele jovem rapaz que brincava de se equilibrar na beira da calçada, alternando os passos esquerdo e direito entre os blocos brancos e cinzas todo cauteloso, como se um erro milimétrico fosse fatal: e era: sabia que se caísse não levantaria mais, talvez nunca mais, e enquanto assoviava uma melodia sem tom inventada na hora pensava que se errasse o passo direito cairia na calçada, se errasse o passo esquerdo cairia na rua, se errasse esse na calçada, esse outro na rua, esse calçada, rua, calçada, rua…

De repente parou, tão de súbito que balançou entre a calçada e a rua mas conseguiu se equilibrar num segundo seguinte: três blocos da calçada não eram brancos nem cinza, tinham uma cor indefinida de amarelo sujo e brilhavam, molhados de uma garoa que começava a cair, brilhavam um reflexo de uma luz ainda maior. Ele agaixou-se para ver melhor – parara de assoviar. Aproximou o rosto do chão, os olhos arregalados, o cheiro de rua molhada mais azedo; e ele, num impulso inexplicável, virou-se para a direita, mas lentamente, fitando o chão, a calçada, erguendo os olhos conforme erguia também o corpo e lá ele estava, úmido de garoa, os pés imóveis sobre a beira da calçada, com a cabeça à direita levemente inclinada. Olhava estonteado tentando entender: seus olhos se desarregalaram. Ele respirou fundo sem mover os olhos, abriu a boca sem dizer nada. Fechou-a e suspirou. Ainda sem desviar os olhos, deu uns passos para o meio da calçada e, não se importando em ficar parado embaixo da ponta de um toldo de onde a garoa acumulada caía em gotas maiores e injustas, ajoelhou-se:

– Quer se casar comigo? – disse mudo. Engasgou e repetiu num tom mais claro, mais triste: – Quer se casar comigo?

E não se sabe se ele ouviu a resposta daquele manequim de vestido de noiva, iluminado por baixo por uma lâmpada amarela que ressaltava as curvas do vestido e fazia os detalhes de seda escorrerem seu brilho até a beira da calçada molhada. Continuou ajoelhado e assim dormiu. E não se ouviram mais cantos ou passos bêbados. E a lua parecia não se emocionar com o ronco desafinado daquele noivo infeliz.

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4 Respostas

  1. nenhuma palavra, só suspiros para não estragar a magia do luar
    demais, demais!

  2. lindo, lindo, lindo.

  3. lindo e simples. tbm me sinto nessa eterna corda bamba que eh a vida.

  4. Filhota, você está melhorando de mais menina. Nesta coisa da escrita.
    Sabe este lugar que você descreveu, dos bloquinhos? Você não sabe, mas este lugar é aquela calçada da paulista em frente àquele Shopping chique.
    Este negócio de passo é difícil. O que se faz, normalmente, é pegar a noiva de plástico no chão, botar em baixo do braço e voltar a caminhar… assobiando.

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