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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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O dono chegou

Eis que de repente abre-se a porta da sala de criação e surge sem aviso prévio, sua majestade, o cliente.
Ele veio “dar uma olhadinha no que eu já tenho“. Parece uma proposta velada de assédio sexual, e é quase isso: ele veio espiar o texto que estou fazendo para uma peça, que tanto pode ser um folder institucional de dez páginas ou um título para um anúncio.

Pelo que me contaram, esta situação seria impensável nas agências de publicidade há poucos anos atrás. O cliente recebia esboços e layouts das mãos do atendimento, jamais tinha acesso direto ao redator ou ao diretor de arte. Se não gostasse de alguma peça, podia recusar ou propor alterações, que seriam encaminhadas para a criação através do atendimento. A sala de criação era inexpugnável. Hoje é diferente. Recebo o cliente, puxo uma cadeira e ainda sou obrigado a mostrar na minha tela o rascunho de um texto que ainda não está finalizado. É constrangedor. Antes de terminar de ler o segundo parágrafo, ele já arrisca seu primeiro “e se você mudar um pouco isso aqui?” Traduza-se por “não gostei, mude“.

Não tenho problemas com a autoria. Sou pago para escrever o que o briefing pede, quando existe um. Meu trabalho é usar minha habilidade para fazer títulos perspicazes, textos concisos, coerentes e corretos. O texto não é meu, é do cliente. Ou melhor, é feito para ele. Até aí, nada de alarmante. O duro é quando o cliente está fungando no meu cangote e quer co-editar o texto em tempo real. Prefiro mandar uma versão acabada e escutar “Está uma bosta, faça uma outra versão, desta vez bem piegas” do que a torturante situação de alguém dando palpites, por mais bem intencionados que sejam, no meu trabalho inacabado. Quem trabalha com texto sabe: enunciar uma sentença, escolher palavras, tempos verbais, alterar a ordem, testar conjunções e reelaborar conceitos são atividades muito íntimas. Depois de pronto, pode até ser saudável ouvir opiniões, mas ter alguém ao seu lado durante o ato é invasão de privacidade.

O resultado desta presepada geralmente é uma mixórdia que fica parecida com a cara do cliente, prolixa e deselegante. Quando ele finalmente vai embora, respiro aliviado e tento polir o que sobrou do texto para desbastar as arestas mais evidentes sem que percebam que foi alterado.

Uma agência de publicidade produz serviços e peças cujo valor é muito difícil especificar e apreciar. Mesmo que exista um briefing bem feito, sempre haverá um oceano de possibilidades de interpretações entre o escrito e a expectativa do cliente.

Mas como é ele que paga a conta, quando paga, dou vazão a toda minha explosiva pusilanimidade e faço como o cliente gosta.

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6 Respostas

  1. As palavras a servico de uma ideia. Discuta a ideia, nao o texto. Somos artistas verbais, Werner, ou nao verbais, mas o que fazemos nao e’ arte. Garimpamos solucoes. ERGO EGO (pense o contrario) peca para o cliente ler PAUL ARDEN. Otimo seus texto, como sempre. Grande e forte abraco, sem acento e para aumentar sua justa raiva ; ) Abracao.

  2. Desta vez bem piegas.

    cliente é uma tristeza. nem sabia que houve uma época em que não vinham encher diretamente. bons tempos.

  3. Genial, irado e coerente. Que publicitário não vive esse Inferno de Dante? É tudo uma questão de quanto se ganha pra viver nele, kkkk!

  4. tinham me falado que esse texto era bom.

    gostei muito.

  5. Demais!
    Como é terrível ter alguém por perto quando ainda não concluímos plenamente a idéia, né, Papi?
    Parece que perdemos o fio da meada e é um inferno voltar praquela idéia super boa que tinhamos na cabeça.

  6. Não tem jeito.
    Se vamos ‘vender’ o escrever, sempre vai ter alguém pra palpitar em cima.
    O que é ‘vendido’ nunca é a sua criação, mas a idéia que vc conseguiu formalizar transfigurada em algo que agradou o cliente.
    É um Frankenstein.

    Mas o importante é ser um Frankenstein pacífico e submisso às nossas vontades, e não o monstro de 2,40m de Shelley, certo?

    Nosso trabalho é vender Frankensteins literários.
    E a gente vai fazer isso cada vez melhor, believe me.

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