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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Escrever hoje

Viver da literatura é o sonho de muita gente. Por muito tempo tem sido assim. O anseio de emocionar ou influenciar pessoas através da arte das palavras encontra candidatos em todo canto. Poucos conseguem fazer-se notar e, ainda assim, a custo de muito esforço pessoal. Não só manter um trabalho paralelo à de escritor para conseguir pagar as contas, mas também se encaixar num padrão literário predominante no mercado.

Esse é o tema destacado na edição de janeiro deste ano da revista alemã Literaturen, publicação mensal da Editora Friedrich Berlin sobre livros e temas relacionados “às literaturas”.

Segundo a reportagem, a situação da literatura alemã não é das piores. Depois de um período de relativa decadência, hoje ela se fortalece, ao receber, durante o ano de 2007, grande atenção da mídia e diversos eventos de discussão acerca dela. E há muito tempo não se vendia tantos livros como no ano passado. Naturalmente Mrs. Rowling encabeça as listas de mais vendidos, com seu fenômeno mundial Harry Porter; entretanto, diversos autores alemães e austríacos aparecem na seqüência. A cena editorial de hoje, após um período de vicissitudes, desânimo e crises existenciais, ganha novo impulso, haja vista a quantidade de pequenas editoras independentes recentemente fundadas.

Mesmo assim, há dúvidas quanto à fidelidade do reflexo desse panorama sobre a real situação da literatura de língua alemã. O público está sobrecarregado: em 2007, aproximadamente 95 mil novos títulos foram lançados. Isso é muito mais do que os alemães querem ler. Tamanha quantidade ninguém quer, precisa, nem pode assimilar. E a maioria deles se mostra verdadeiramente desnecessária. O resultado disso é que os livros tornam-se obsoletos muito cedo, pois acabam ficando muito pouco tempo à venda: um livro que não chama a atenção do público em até seis semanas está fadado à morte. E para não se afogar no excesso de publicações, os leitores fazem uma pré-seleção recorrendo ao método das listagens, ou seja, listas de mais vendidos, listas pseudocanônicas de melhores livros de algum período ou espécie, ou anúncios em jornais e revistas. Perdem as pequenas editoras e seus autores.

Dessa maneira, a linha-mestre das editoras é proibir obras experimentais. Os estatutos de prêmios afirmam equivocadamente eleger um “melhor romance do ano”, quando na verdade escolhem aquele que mais se encaixa às seguintes qualidades: ser capaz de entreter, amigável ao leitor, de fácil leitura, de simplicidade lingüística e complacência formal, sem grandes pretensões estilísticas, com trama conexa – de preferência proveniente do ambiente da classe média – e com montagem popular e clara (romances familiares, de gerações ou de relacionamentos). Enfim, com um risco estético mínimo, o que garante maiores vendas. Assim, os temas e textos dos autores contemporâneos tornam-se cada vez mais similares e substituíveis. Tendem ao mesmo estilo e a mesma forma, ou seja, predomina a monotonia na produção literária.

Além de outros fatores, como estratégia de marketing e criação de modas temáticas literárias – vide a recente Ostalgie alemã, ou seja, a nostalgia pela Alemanha Oriental, e a febre em torno de O Código da Vinci de Dan Brown e seus demasiados desdobramentos -, os autores precisam ainda passar por uma sabatina de exposição de sua imagem ao público, através de aparições não só em palestras, conferências e tardes de autógrafos, como também em programas de televisão, com a obrigação de mostrar competência para discorrer com opiniões surpreendentes sobre assuntos de diversas áreas, além de esporadicamente escrever ensaios e outros discursos na mídia.

Essa necessidade de atividades paralelas à escrita em si fica evidente nos depoimentos dados por alguns autores alemães que estão em evidência. “Ser escritor não é profissão para o ganha-pão. Os iniciantes não sabem disso, autores de bestsellers não querem aceitar isso e os coelhos velhos notam isso tarde demais”, comenta o escritor Bodo Kirchhoff. Ele também acha que alguém que “não se entrega completamente à leitura, pois basicamente queria fazer outra coisa bem diferente (assistir TV, sair, brincar), que vê em um romance apenas uma solução para o tédio ou para coisas como distúrbios sexuais ou fins de relacionamento, para quem não faz sentido a sonoridade de uma frase ou o drama dos detalhes, (…) deveria largar o livro e não comprar mais nenhum”, pois essa pessoa “está perdida como leitor e pertence ao número crescente daqueles que procuram apenas por livros sobre coisas de televisão e por autores simpáticos”.

Esse comentário de Kirchhoff evidencia a questão do papel da literatura em nosso mundo. Ela tem mesmo uma função social ou serve apenas de fetiche cultural a uns poucos intelectualmente avantajados? Parece-me um tanto paradoxal exigir que a profissão de escritor receba mais prestígio quando o próprio profissional distancia-se de grande parte do público leitor. Por outro lado, é difícil compreender como a uma grande parte dos leitores pode agradar tanto ler coisas que poderia encontrar mais facilmente em novelas ou nos enlatados hollywoodianos. Nada exatamente contra ler um livro fácil por diversão de vez em quando, mas o que se vê é o predomínio da informação digerida sobre o pensamento e o raciocínio próprios.

No fim das contas, o escritor hoje deve optar entre viver da literatura escrevendo o que se considera de pobreza literária ou manter-se com outro ganha-pão para continuar escrevendo por prazer para um público restrito. Conseguir tudo é mais complicado. Mas há até quem ganhe na loteria.

Referência:

LÖFFLER, S.; KIRCHHOFF, B. Schreiben jetzt. Literaturen, Berlin, ano 9, Janeiro/Fevereiro, p. 4-33, 2008.

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6 Respostas

  1. Por outro lado, é difícil compreender como a uma grande parte dos leitores pode agradar tanto ler coisas que poderia encontrar mais facilmente em novelas ou nos enlatados hollywoodianos.

    Eu lembro de um conhecido falando que tinha gostado bastante do álbum dos Tribalistas, mas tava parando de gostar quando “todo mundo começou a gostar”. Eu acho que existe muito desse negocio de querer ser diferente e basicamente descartar como “inferior” tudo o que eh de certa forma popular (e acredito que também me encaixo um pouco nisso).

    Do mesmo modo, apesar de o conteúdo desses livros ser bem mastigado e, talvez, tao “intelectualmente exigente” quanto uma novela, a pessoa se sente melhor por estar lendo e não assistindo na TV “como aqueles desmiolados”…

  2. Achei muito interessante este artigo. Infelizmente, basta olharmos as listas de livros mais vendidos no Brasil para constatarmos que os rankings outrora liderados por Jorge Amado e Érico Veríssimo são hoje encabeçados por autores como J. K. Rowling, Paulo Coelho e Dan Brown. Isso sem contar os Içami Tibas da vida. Livros de psicologia de botequim são vendidos em qualquer papelaria com o título de “queijo não sei das quanta”, enquanto obras de autores competentem empoeiram na estante do sebo. Sem dúvida, o mercado editorial tem colocado limites ao avanço da literatura. Escreve-se para um mercado, para pessoas que adoram ler os trocentos exemplares de “Sabrina”, “Júlia” e outros folhetins de qualidade discutível. A editora quer lucro. O autor criativo não tem espaço, a não ser que custeie sua publicação como, aliás, aconteceu com muitos escritores brasileiros que inovaram a literatura.

  3. já tinha um conto do Henry James falando disso, cem anos atrás. está em A Morte do Leão, não me lembro agora do título.

    mas discutia a relação direta entre mediocridade e literatura como ganha-pão.

    pensar que Joyce dava aulas de inglês…

    o triste é que mesmo concursos literários que pretendem catapultar novos autores para o mercado prestigiam mais textos escritos sem grandes inovações de linguagem.

    felizmente, ainda temos a 34.

    Affonso Ferreira não vende nada, mas está lá!

  4. Talvez caibam aqui novas reflexões: essa literatura “maior”, tão longe do público em geral, não seria simplesmente uma arte pela arte, a que apenas um grupo pequeno suposta e arrogantemente superior tem acesso e poder para apreciar? Será que esse grupo seleto gostaria mesmo que sua arte nobre se popularisasse e assim ele perdesse o poder que exerce com a palavra?
    O mercado editorial tem culpa? Ou é apenas parte do processo? Se não vende, não tem dinheiro, não sobrevive. Ou eles é que determinam quem vai ser vendido? Existe alguma culpa mesmo ou é só um comportamento normal?
    O grande escritor deve se preocupar em ter um estilo próprio, mesmo que inteligível a poucos? Ou o grande escritor é aquele que faz suas idéias brilhantes e inovadores chegarem ao popular, tornando a arte algo acessível, dado que nem todos tem condições (tempo/vontade/acesso) de se estudarem profundamente a arte literária?

  5. é por isso que você fez engenharia.
    =)

  6. Eu diria que o que menos importa é a qualidade da literatura publicada (ou lida), mas o que sobre ela é dito. Ou vocês, um pouco ao contrário do que Bart disse, nunca ouviram uma música por recomendação de alguém? A retroalimentação positiva dos “10 mais lidos” é, na minha opinião, mais forte do que a qualidade dos livros que lá estão. Ousaria ainda dizer mais, que se nestas listas estivesse por algumas semanas Joyce, provavelmente se tornaria um dos mais lidos, embora talvez 90% daqueles que o leriam, não o entenderiam, mas ainda assim, no comportamento da manada, continuariam a elogiá-lo (qualquer semelhança com o famoso Jabá, não é mera coincidência). Então a “solução” para emplacar um clássico, ou uma literatura “maior”, talvez seja um pouco mais simples… é apenas conseguir que alguém entre em algum meio de comunicação imponente (como Abril) e force uma lista dos 10 -mais por algumas semanas. O sistema se encarrega do resto e os escritores multi-tarefas da literatura “maior” se tornariam Rowlings da vida. Enquanto isso não acontece, infelizmente decidem os 10-mais (e consequentemente o que é lido e a penúria da literatura “maior”) as forças do capitalismo: propaganda e formadores de opinião extremamente intelectuais, como ídolos do Futebol.

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