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Papel do passado: Não por acaso

Muito me estranha como poucas pessoas sabiam da existência do filme Não por acaso, sendo que, pelo que vi na net, a maior parte dos que o viram gostaram. Inacreditável a falta de repercussão de um filme produzido pela Globo filmes e pela O2 filmes e que consegue chegar num meio termo admirável entre o intelectualóide e a produção para massas. Um filme brasileiro desses não deve servir apenas para amostras e prêmios internacionais, mas deve ganhar atenção especialmente aqui no nosso país, pois fala de uma forma interessante de nossa terra e nossa gente, e com uma linguagem acessível a todos. Quanto aos “críticos”, nos 20 minutos que fiquei na net procurando-os e lendo-os, vi que entre os poucos que se arriscaram a falar do filme, quase nenhum escreveu mais de uma página sobre ele. Por isso, ou usando isso como simples pretexto, vou começar a falar sobre o papel do passado nesse crítico…

O Papel do passado, que não é pequeno em nossas vidas, deve ser cada vez mais visto como o papel que a crítica de arte deve tomar para si; o “crítico” tem a função de ser o passado em pessoa e, daí, já podemos fazer a distinção entre passado e verdade, pois o crítico ao trazer o passado aos nossos olhos não necessita ter o grande esforço de tentar ser o dono a verdade, aliás, melhor que não seja tão pretensioso e incite a troca de idéias.

Diga-se de passagem, esse nome, “crítico”, já é péssimo, né?! Vou tentar extingui-lo! Por quê não usamos cronista? Um cronista usa o tempo como material básico, ou, na verdade, o sem tempo e a pouca divisão dele, já que usa algo do passado (obras, estudos sobre elas, o cotidiano, coisas de sua vida, chavões, o que der na telha, etc) no presente, ao escrever diariamente , para formar e influenciar algo no futuro, num leitor. Taí sua importância: quando trouxer críticas, que traga as construtivas.

Primeiramente, para vocês entenderem de que aspectos do tema “Passado” pretendo falar hoje – já que falar que o assunto é o Passado ou a Memória, em si, não diz nada, pois estes são um universo – vou apresentar dois mundos dentro desse “Papel do passado” que quero, superficialmente, opor: Memória pessoal e Memória histórica do Homem.

Para explicitar vou contar um fenômeno lamentável que nem precisa de pesquisa para comprovar: as pessoas que chegam à faculdade (ao mundo encantado do conhecimento ilimitado do Homem e à crença nisso) param de escrever assim que chegam, mesmo muitas daquelas que foram estudar justamente para escrever melhor. E por quê? Não tiveram aventuras suficientes para contarem? Não são comunicativas? Duvido!

Ou é porque começaram a engolir o academicismo e o canonicismo para os trabalhos finais de cada semestre, para neles, regurgitarem de volta à faculdade tudo que “aprenderam”, e que, geralmente, já havia sido ruminado por outros? Entram nesse espaço com ares de crescimento individual e ficam sem discutir com suas opiniões, sem prazer em pensar até o esgotamento sobre algo, sem escrever, sem criar, sem ver coisa onde não tinha. Quero defender que, se mais pessoas trouxerem histórias, se fizerem questão de mostrá-las, criarem formas e espaços para isso, e assim, mostrarem as diferenças entre as pessoas que nesse ambiente acadêmico estão, dessa forma farão o que de mais risco elas podem fazer pela faculdade e pelo encontro de novas soluções. Sem dúvida, esse também é o maior desafio, visto a dificuldade que é a busca por essa identidade. As faculdades, terra da ciência, para ficarem boas, precisam de olhares artísticos, de um olhar com a Memória pessoal, mais criativa, imaginativa, mais sábia do que sóbria.

Alguns românticos já falavam da importância das autobiografias e, sabe-se, que toda obra de arte tem um quê de autobiografia. Falavam também de como a vida tem infinitos temas – nem se todas pessoas fossem artistas e quisessem a vida toda fazer arte de temas diferentes, não faltariam temas – e que cada pessoa teria a poesia em si, sendo esta não simplesmente um gênero literário, mas mais um espírito, uma essência, a poética individual que cabe a nós descobrirmos.

Aliás, entre os românticos, um que defendia algo a ver com isso que disse é Friedrich Schlegel, em “Conversa sobre Poesia”. Este é o texto que, até hoje, melhor vi explicar coerentemente até os aspectos mais subjetivos da teoria e da prática romântica. Esse ser romântico do qual ele fala é alguém muito aberto à comunhão, ao otimismo, à criação, às individualidades e às histórias alheias, por mais diferentes que sejam, mas especialmente à sua própria (de onde se abastece para fazer nascer as obras). Isso é ou não é para acabar com qualquer preconceito escolar de que os românticos são apenas pessoas pessimistas que só pensavam em morte, necrofilia e coisas supérfluas?

As crônicas que nos próximos meses escreverei aqui serão sobre o “Papel do Passado” quanto ao cinema, e eu as vejo simplesmente como a minha leitura de certas obras. Nelas há o relato da união de minhas histórias pessoais, enquanto espectador, com a obra cinematográfica, então elas dizem respeito a que idéias se passaram e como se passaram em minha cabeça enquanto assistia aos filmes.

Por exemplo, por simples gosto já iniciei a ver o filme “Não por acaso” ansioso, por ter lido na sinopse que ele falava de três temas que na minha vida são alguns dos que eu mais gosto: Amor, a cidade de São Paulo e sinuca. Portanto, o que quero é contar também a história de como foi ver o filme, dando assim meu olhar particular e não de dono da verdade.

Como paulistano, vejo o passado de minha vida e o da cidade intercalados. Enquanto assistia ao filme pensei nas histórias já vividas há tempo lá, com tom mitológico, pensei em como adoro a Sampa da minha infância, os bairros que eu circulava; pensei que talvez, fisicamente, a cidade não tenha mudado tanto, mas o meu olhar sobre a cidade de lá para cá mudou, aumentou o chato olhar crítico; pensei como, com o passar do tempo, também me cansei do trânsito caótico, da violência e dos riscos e comecei a achar plausíveis os motivos de quem, depois de anos morando lá, diz que vai sair da cidade.

Foi com tudo isso e mais um pouco no meu cabeção, que eu fui assistir ao filme. Impossível, para qualquer crítico humano, ignorar ou achar que todas essas histórias não afetam seu gosto! Em meio a esse vendaval, para mim, o filme conseguiu re-significar alguns aspectos negativos que provém de meu passado recente com a cidade.

A fotografia mostra uma São Paulo linda em muitas cenas e que passa despercebida no cotidiano – deu vontade de sair fotografando a minha cidade mutante, antes que ela se esvaeça; o trânsito, ao ser parado por uma personagem em uma cena, dá um caráter épico a esta. Quem nunca quis fazer isso de mostrar que estava ali no meio da multidão, ou, quis ter o poder para desengarrafar tudo?! Deu saudade de lá! O filme conseguiu ter esse ar de épico, mesmo o enredo se passando na cidade sem Memória e, até por isso, ele cria mais virtudes, pois dá a ela mais memórias!

Esta cidade grotesca, dos acasos e desastres, sempre me deu muito medo, pois é impossível não pensar nessas duas palavras enquanto se está em São Paulo, a tarde, enquanto só passa na tv programas sensacionalistas e que só falam de tragédias na cidade. Isso deixa qualquer um neurótico! E assim, também no filme, a cidade dialoga muito com a trama dos personagens (e não só para o mal e para o acidental) e é aí que, ao haver o retrato de um povo, também vejo um caráter épico.

Praticamente todas as sinopses que encontrei pela net falam que os dois personagens que têm suas histórias contadas, Enio e Pedro, são pessoas que levam a forma de pensamento do que fazem – trabalhos metódicos, precisos, de controlar as coisas – para suas vidas, inclusive para seus mundos afetivos. Algumas críticas chegam a dizer que o filme é sobre a tentativa humana de ter tudo sobre controle e sobre a vinda do acaso, que acaba com essa pretensão. Leitura forte e interessantíssima.

Essa metodologia presente nesses dois personagens e em outros mais secundários, forma de trabalhar típica capitalista, retrata muito o povo de São Paulo e de outros centros urbanos. Por exemplo, ao mostrar em alguns momentos muitas pessoas numa mesma cena, e apontar como todas estão muito ocupadas, como estão tão próximas, mas também tão longe, e até, eu diria, como são frias – aliás, frieza essa que rebate algumas críticas que viram uma falta de profundidade emocional das personagens, como André Lux ( ver nota) ; esse frieza creio que o filme mostre que seja o natural à vida na cidade.

O filme leva muito em conta a teoria dos movimentos fluidos, que já havia sido assunto de estudo do engenheiro de trânsito Enio na faculdade, e que se compararia aos movimentos dos carros nas ruas e das pessoas na vida. Esse movimento, metaforicamente, mostra como estamos em caminhos juntos com outras pessoas e, inclusive, se alguém parar o movimento isto afetará a todos. Vejo que essa analogia mostra que a morte é a, talvez, umas das poucas teorias (num mundo tão cheio de teorias!) dentro da qual podemos entender um pouco de todos os seres vivos, e através da reflexão sobre ela, perceber como estamos ligados e temos coisas essenciais em comum. Por isso, talvez, taí o motivo pelo qual, normalmente, na história do Homem há épocas que se dá grande importância à ela, como o próprio romantismo.

Vejo isso assim: seguimos esses movimentos fluidos todos juntos, até por osmose. Se um pára, temos que seguir nossa vida e os dois personagens que o tentam fazer, Pedro e Enio, têm que descobrir em si mesmos as forças e as vontades novas para superarem a perda. Daí, vejo o olhar positivo e até otimista que há no filme, para mim: até a morte, o acaso, não é por acaso, pode servir para algo bom, uma nova construção, portanto, há uma re-significação até da morte, vista de forma diferente do que comumente vemos.

Voltando ao assunto se é válido ou não tentar controlar o que nos envolve, creio que o filme nos leva à temática da morte:

Não é por acaso algum quantas pessoas morrem por terem tido o maior amor à vida e terem-na vivido como uma aventura. O filme mostra uma morte, um acidente que, teoricamente, aconteceu por causa de dois segundos de atraso da vítima, por ela ter ficado dois segundo a mais com seu amor, que aliás, pediu a ela que ficasse mais dois. Eaí? Será que se tivesse dado mais um beijo em seu amor não sobreviveria? Ou bem por ter ficado dois segundos a mais com este que veio a falecer? O filme nos passa que não há como controlar boa parte do que nos afeta. Só sei que também não é por acaso que outras tantas pessoas são apenas mortos vivos, justamente por não arriscarem nada em suas vidas.

Assim termino esse texto, dedicado ao professor Luiz Dantas, o qual me apresentou a Rimbaud, poeta que deixou de escrever e foi colocar poesia em sua vida. Dedico-o também ao João Vitor, estudante, que também foi em busca dessa poesia, até pela África. Essa semana, estudante e professor, vividos, foram poetar lá onde dizemos que não há mais vida.

PS: Espero que gostem desse filme e que compartilhem comigo a opinião de que uma importância da arte – não sei se tem que ser sua função, mas é uma conseqüência quase natural sua – é a comunhão e o aprendizado de todos juntos, cada um com sua interpretação, portanto, se sintam à vontade para comentar e conversarmos.

Fontes: Foto inicial
http://tudo-em-cima.blogspot.com/2007/06/filme-no-por-acaso.html

Texto de André Lux, chamado “Sem emoção”:

http://tudo-em-cima.blogspot.com/2007/06/filme-no-por-acaso.html

 

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