• Veja também as capas anteriores!

  • Políticas do Ambidestria

    O Ambidestria todo está sob licença Creative Commons. Em caso de citação, não se esqueça de mencionar o nome do autor do post e o link direto para o post em questão. Não são permitidas alterações do texto.

    Veja mais detalhes na página de Políticas
  • Arquivo

  • Arquivo Especiais

    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
  • Acesso para autores

Pescador

 

Quando eu estava lá no meio do mar eu já não sabia mais o que fazer. Me tomou um vazio frio. Um fantasma cruel sem face que não me afligia, nem me angustiava, nem me machucava. Me espalhava. Eu olhava para todos os lados e, o olhar da noite, eu não via nada. E nada vinha até mim. Eu estava sozinho com o meu barco, eu não tinha pés, eu tinha madeiras sob os meus pés. E eu não respirava, eu era umidade.

Assim, eu não soube mais como voltar. Porque não havia mais vontade. Porque não havia mais como voltar. Eu olhava para os lados num labirinto que não era labirinto, já que eu não podia ver as paredes. O enigma, como esse algo indecifrável que me olha nos olhos, estava ausente. Eu olhei para a praia.

 

Nenhum e um e tudo são coisas muito semelhantes. Antes eu não era nada, agora eu sou um e ao mesmo tempo sou vários. E se tudo for completo não vai haver espaço pra nada ser um. Então eu sou eu. Incompleto. Eu sou pescador. Eu olho nos olhos de tudo que foi. E não vejo nada. Eu guardo a memória, esquecida, de tudo que pereceu e nasceu. Eu sou onde o mundo torna-se subterrâneo, onde o subterrâneo torna-se mundo. Eu sou. Nenhum de vós. Todos vós. Em potencial e morte. Em indiferença e paz.

Eu nasci das lembranças daquilo que foi sendo filtrado pelo tempo. E então eu nasci. Mas para mim, vejam só, isso é tão desimportante. Porque eu não sou mais que a dissolução de tudo que veio antes de mim. Eu sou a última chave, aquela que se dissolve na fechadura.

 

Eu sou a onda que não se levanta. Eu sou a memória que não se esquece. Eu sou a superação do conflito.

 

Eu dissolvo, dissolvo, dissolvo… até chegar ao. Fim.

Anúncios

6 Respostas

  1. … como que numa plenitude nao plena. gostei muito. mais do que o primeiro, ateh. esse eh mais pesado, mais denso e complexo. e eh caotico. e eu adoro caos. quase um fluxo de consciencia – a gente parece ateh ver concreto diante da gente o processo de transfiguracao.

    beijos!

  2. Nossa! Vc entendeu melhor o que eu queria escrever do que eu fui capaz de passar! Mais mérito do leitor do que do autor 😉

    Fiquei feliz que isso é possível!

    beijão

  3. “eu não tinha pés, eu tinha madeiras sob os meus pés” – uma vez eu escrevi sobre alguem que só pisava em madeira, madeira matéria morta, até ser parte dela e rolar a escada. e eu nunca tinha visto esse processo de outro jeito possivel, mas vc viu.

    eu amei a ideia. a construção a partir da dissolução.

    nosso suor é salgado, no fim das contas.

    vc entende.

    eu adoro

  4. eu soh estava testando um negocio. desculpa te usar de cobaia, raoni. mas agora se vc clicar no meu nominho da pra ir pro meu outro blog!

  5. as imagens se dissolvendo, as idéias também, e a sensação de que elas voltam, mas nem sempre como desejamos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: