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Macunaíma de Koch-Grünberg

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

(Mario de Andrade, Descobrimento)

Macunaíma (O herói sem nenhum caráter), lançado em 1928, ainda se apresenta no Brasil como um romance, ou rapsódia como denominou Mário de Andrade, precursor(a) dos estudos de brasilidade. Não que seja um marco, mas Macunaíma trás à baila a pesquisa folclórica, antropológica e social da massa amórfica que se constitui a cultura brasileira. E no rastro dos 80 anos de história, desse senhor-jovem livro antropofágico com uma pitada de surreal, é que nos enveredaremos nos próximos meses, ora topando num pau atravessado na trilha e dando encontrões nas arvores. Será nesse nosso dois dedinhos de prosa mensal que falaremos sobre quem possivelmente influenciou Mário a criar a personagem Macunaíma, a obra em si e seu legado para os críticos e cineastas posteriores.

Para facilitar a caminhada, escritor modernista sempre manteve clara sua relação com livro Vom Roroima zum Orinoco que tomou como inspiração principal para produção de Macunaíma a obra. O título completo em alemão Vom Roroima zum Orinoco: Ergebnisse einer Reise in Nordbrasilien und Venezuela in der Jahren 1911-1913 de Theodor Koch-Grünberg, publicado na Alemanha, em cinco volumes, entre 1917 e 1924. No Brasil somente agora em 2004 é que foi traduzido por Cristina Alberts-Franco e publicado em 2006 com financiamento MWM International e a parceria Editora UNESP com o Instituto Martius-Staden traz um acervo de fotográfico recolhido durante a expedição de 1911-1913 e que foi disponibilizadas pela Universidade de Marburg para esta edição brasileira(1). No entanto há no mercado somente o volume primeiro de três traduzidos, intitulado, em português, Do Roraima ao Orinoco: Observações de uma viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos de 1911 a 1913.

Esse grande estudo, que compreende anotações de um viajante, impressões de um estudioso que recolhe todas as peculiaridades desses povos nos mostrando o quão rico é a cultura indígena com seus rituais, mitologia, crenças e organização social.

Koch-Grünberg começa com sua chegada a Manaus em 27 de 1911 e o porto esta irreconhecível. A companhia Manaus-Harbour modernizou-o completamente. Por toda parte, erguem-se longos armazéns. Os transatlânticos atracam diretamente nos pontões, nos quais se pode desembarcar com comodidade. Se dúvida isso prejudicou bastante o antes tão encantador panorama da cidade, que se elevava suavemente, cercada de verde fresco(2). E já seguindo sua viagem pelo rio, por dias em uma pequena lancha dos poderosos da região acrescenta que na margem há algumas cabanas de índios Wapischána semicivilizados. São empregados das fazendas de gado que encontraremos de agora em diante. Maldições em português, farrapos europeus, avidez por aguardente, essa é toda sua civilização!(3)

Alguns relatos nos remetem diretamente a Macunaíma de Mário, com seu gosto singelo e porquê não inocente. Quando o etnógrafo conta que a seu pedido, o chefe arrasta o xamã Katúra até nós. No começo, ele resiste a cantar na máquina, que é como os índios chamam todos o meus instrumentos mágicos. Ele pergunta desconfiado, por que quero levar sua voz comigo. (…) Agachado num banquinho, o bonito e esbelto homem nu, com seu rosto fino, feroz e enérgico, canta no funil com a voz forte e anasalada (…) Katúra faz uma cara atônica quando sua própria voz ressoa clara e nitidamente; Pitá morre de rir.(4)

Baseado nas lendas dos heróis arecuná e taulipang, o escritor paulistano encontrou herói Macunaíma. E, que, segundo o explorador alemão, o nome do grande mito-herói tribal contém como raiz a palavra MAKU, que significa “mau” e o sufixo IMA, “grande”. Sendo então, Macunaíma “O Grande Mau” na língua indígena. Influenciando assim o autor de Paulicéia desvairada, a expor “essência nacional” e a ainda inexplorável identidade brasileira fruto de um processo de miscigenação.

Contudo ainda é importante ressaltar os aspectos científicos da expedição que, na Alemanha, chamou a atenção dos germânicos e dos demais povos do velho mundo para potencial do relatado não somente para a etnologia, com também para a geologia, geografia, dos estudos da linguagem e a contribuição intrínseca à antropologia. Além logicamente para a linguagem estética que até aquele momento não era compreendida.

1. http://www.martiusstaden.org.br/publicacoes/do_roraima_ao_orinoco.asp
2. Capitulo 1, Pelos Rios Negro e Branco. In: Koch-Grünberg, Theodor Do Roraima ao Orinoco: Observações de uma viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos de 1911 a 1913; tradução Cristina Alberts-Franco. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p.29.
3. Introdução. in: Koch-Grünberg, Theodor Do Roraima ao Orinoco: Observações de uma viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos de 1911 a 1913; tradução Cristina Alberts-Franco. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p.15.
4. Capitulo 4, Com o Chefe Pitá em Koimélemong. in: Koch-Grünberg, Theodor. Do Roraima ao Orinoco: Observações de uma viagem pelo norte do Brasil e pela Venezuela durante os anos de 1911 a 1913; tradução Cristina Alberts-Franco. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p.73.

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7 Respostas

  1. engracado isso, neh? se inspirar em um livro estrangeiro para “expor “essência nacional” e a ainda inexplorável identidade brasileira.” esse mundo eh muito estranho mesmo!

    um beijo!

  2. Mário não se inspirou num “livro estrangeiro”, se inspirou, sim, em lendas de nossos índios, recontadas por um estrangeiro. É evidentíssimo que uma história não vai perder o seu valor porque foi contada por um estranho; afinal, quantas lendas conhecemos – dos nossos selvícolas mesmo – que andam por aí espalhadas por naturalistas e antropólogos que se embrenharam mata adentro e as ouviram de nossos nativos. O que Mário fez foi somente não se dar ao trabalho, ou ao risco, de querer ouvi-las em loco, escolhendo as que melhor se adaptavam ao seu projeto de construção de um “herói sem nenhum caráter”, para retratar o brasil mais brasileiro do que muitos outros que, com a observação, e a audição, não souberam fazer. Uma obra de arte, uma escultura p. ex., não deixa de ser brasileira, autêntica, por ter sido lapidada com madeira de outras plagas, o que deve ser observado é se o artista alcançou fazer um trabalho no qual seu povo se veja retratado!

  3. Nao digo que a historia perde seu valor. Penso, porem, que muitas dessas “lendas de nossos índios, recontadas por um estrangeiro” continham imparcialidades proprias de um olhar externo visando finalidades de pesquisa e ciencia. Alem disso, nao fiz nenhum juizo de valor profundo, simplesmente achei peculiar essa contradicao de uma obra do movimento antropofagico se basear em um obra estrangeira.

  4. Um autor muito sabiamente afirmou que Mário tinha muito de Macunaíma ou Macunaíma tinha muito de Mário, por ser sua criação, mas percebi que a primeira afirmação é mais adequada. Mário tem muito de Macunaima.

  5. à Mariana:
    mas o movimento antropófago não é contra a cultura estrangeira no Brasil, ele diz que deve sim extrair da cultura quando ela for boa. Foi o que Mário fez, apenas achou que o Macunaíma de Koch-Grünberg tinha algo da brasilidade que ele tanto queria falar. E fez da sua maneira.

  6. Muito bom. Mas o verbo trazer na 3a do singular como trás é de amargar!!!

  7. Makunaima é o nome de uma entidade mítica (herói criador) do povo Pemón, um dos tantos povos originários que habitam o território da Venezuela.

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