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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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A ameaça memética (ou: quero ser pós-moderno)

Bem, bem.

Muitas obras se saem melhor na concepção que na execução.

A idéia básica desta vem diretamente da memética, que começou como um exercício conjectural do egoísta genético Richard Dawkins e tomou proporções bem exageradas.

Ok. Assim como genes são a “menor unidade de informação biológica”, memes seriam unidades de informação conceituais, auto-replicáveis e dissemináveis. Em Cabeça Tubarão (The Raw Shark Texts), Steven Hall tangencia a ficção científica e imagina que agrupamentos de memes poderiam formar seres vivos.

Puramente conceituais.

Há uma série de “fotografias” de insetos conceituais, peixes fósseis conceituais. Formados por letrinhas. E, no submundo, grupos de cientistas e criadores tratam e caçam peixes conceituais modernos.

Dentre eles, o ludovício (ludovician — seria mais joycoso se fosse ludovicious!), tubarão extremamente ameaçador e violento (né?), que obviamente necessita de uma razoável quantidade diária de memórias e pensamentos para se manter em forma e bem nutrido. E o danado ainda é parasitário!

Quem sofre é Eric Sanderson (que no cinema será mulher), passando o livro sob perseguição do bichão (que ele mesmo libertou pra ir atŕas da namorada). Para se proteger Sanderson, apropria-se de conceitos alheios para disfarçar o rastro e cria barreiras conceituais com toca-fitas ligados em série.

Bacana?

Metade.

Hall adora novas tecnologias, mantém lá seu MySpace, um site do livro, vários vídeos relacionados no Youtube, um site com anotações. É bom marqueteiro também: cada edição de seu livro, em cada milímetro da Terra, tem um fragmento diferente e inédito do romance. E, ao menos no Brasil, o lançamento do livro foi precedido de uma campanha campanha de marketing viral.

Seu romance de estréia – o best seller já vai virar filme, indicativo quase infalível de sua qualidade – traz “uma série de enigmas e mensagens cifradas”, “zilhões de referências a filmes, música e cultura pop em geral”, refletindo “nosso universo contemporâneo pós-moderno de jogos eletrônicos, pen drives de muitos gigas e produtos culturais interativos que exigem participação intelectual efetiva do leitor, esperando que se gere discussão na web, fóruns e wikis para enfim desvendá-lo”.

ah, vá.

(Sete Soldados da Vitória se sai bem melhor. Evviva Grant Morrison!)

O livro se propõe como novidade nessa série de easter eggs (mesmo a animaçãozinha do ludovício já é coisa bem batida)., mas em trama (clichê), linguagem (convencional) e estrutura (linear), no tecido literário em si, não traz nada de novo, incorporando muito pouco do grande universo conceitual-tecnológico que pretende manifestar.

Eric Sanderson:

a) acorda após um ataque total do ludovício. Não lembra nem o próprio nome. Encontra mensagens deixadas por si próprio, mas vai teimando até ser inevitável concordar com elas. Começa a ver uma psicóloga, que o aconselha a não ler as tais mensagens, depois é descartada e não faz falta.

b) lê trechos de diários sobre a grande viagem que fez com a namorada Clio à Grécia. Ela morreu afogada e Sanderson achou uma boa idéia vender a alma (ou a mente), libertando um ludovício para trazê-la de volta.

c) sai pelo mundo para encontrar um jeito para encontrar um jeito de deter o ludovício. encontra figuras curiosas. é auxiliado por Scout, bad girl com quem, é lógico, envolve-se romanticamente. e re-encontra um cientista-samurai, Trey Fidorous, que o odeia por ter libertado o ludovício, mas no fim reconhece que Sanderson é um cara legal.

d) acaba arranjando outro inimigo, Mycroft Ward, outro ser memético que forma “colônias de mentes”, cooptando-as para sua coletividade una, extremo oposto do ludovício (o que Hall faz questão de frisar, para que não tenhamos dúvida). E que, no fim, é a chave para deter o tubarão.

e) sacrifica-se para fazê-lo.

Não deixa de ser curioso que um autor que investe tanto em difundir-se pelas so-called novas tecnologias de informação e comunicação (TIC, parceiras pós-modernas do TOC) tenha um verbete tão curto na Wikipedia.

Btw: o nome do tubarão em português, Ludovício, ganhou um significado interessante, remetendo ao ao sempre recente vício em jogos, especialmente eletrônicos (já sofri disso. Ainda não posso chegar perto de um Warcraft), dos arcades aos RPGs massivos que matam coreanos.
Ponto para Vanessa Barbara, überrepórter de piauí.

Calling all downs. Calling all downs to dayne. Array. Surrection!

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5 Respostas

  1. […] Ambidestria wrote an interesting post today on A ameaça memética (ou: quero ser pós-moderno)Here’s a quick excerpt#227;o e comunicação (TIC, parceiras pós-modernas do TOC) tenha um verbete tão curto na Wikipedia…. […]

  2. Aos costumes, muito bom.
    De onde veio essa onda de termos em inglês?
    Hehehe, Marketing bom não significa conteúdo bom. Uma pena. A idéia (heheehe) era boa. Como você disse logo no início…
    flow
    Miguel

  3. seria mais joycoso

    ahahahahahahhahahahahahahahahaha

    muito bom.

  4. Muito legal! Fumo neles, Mateus!
    Infelizmente, com o advento da modernidade, tudo está enfraquecendo… A música, os programas, os livros e até a ficção científica.
    É curioso o fato de que, passado o período no qual os grandes escritores de FC temiam as realidades semi-escravistas da humanidade – lá pros 1984, segundo George Orwell, quando malemá havíamos saído da barriga de nossas progenitoras; ou então em 2001, sendo perseguidos por um HAL dominador – ainda nos encontramos até certo modo distantes disso. Alguns (não muitos) sintomas da FC são presentes hoje, inegavelmente, mas o chute no escuro dos autores não se consolidou como esperado. A TV está se encaminhando ainda para a era digital (embora a mente de muita gente já seja dominada por ela) e as guerras estão confinadas, por hora, em locais específicos como o Oriente Médio. Nem Nostradamus acertou o fim do mundo! Até mesmo Osama Bin Laden falhou em dar o passo inicial para tornar real o universo da ficção científica clássica! Por enquanto, podemos continuar a chamá-la de ficção!
    Acredito que por conta disso, é perceptível uma nova tendência no gênero: os autores agora procuram aliar à FC clássica, novos “artifícios” como os memes (que eu admito ter me familiarizado agora, pelo seu texto), uma vez que parece que o tradicional não causa mais o mesmo efeito de outrora… No entanto, a fórmula básica continua a mesma, e a estrutura de romance padrão e repetitivo prevalece.
    Eu acho que a melhor maneira de realmente melhorar a FC é tentar revolucionar a forma (que já vem batida na literatura há um bom tempo), não o método central da história.
    Continue assim! Gosto muito de acompanhar seus estudos, são bastante esclarecedores. Você sabe: eu adoro FC e especular sobre tudo relacionado! Abraço!

  5. Eu tinha um mapa em algum lugar…

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