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Concisão e lírica feminina: Brio, de Lélia Coelho Frota.

 

Lélia Coelho Frota, nascida no Rio de Janeiro em 1938, pode parecer escapar ao período que nos propusemos comentar. Publicando seu primeiro livro em 1956, portanto com 18 anos, a estréia da poetisa se dá bem longe da década de 80, “padrão-base” temporal aqui assumido como orientador na escolha de autores e textos. Todavia, esse inadequação é apenas aparente: a poetisa continuou a produzir, publicar e refletir sua obra, ganhando em 1978 o Prêmio Jabuti na categoria Poesia com o livro Menino deitado em Alfa, e editando em 1996 Brio, uma espécie de coletânea e republicação parcial de sua já então sólida obra, o livro que iremos analisar.

Vejo, a partir desse livro, a ilustração de dois estilos-chave da autora, que se contrapõem num jogo de tensão: um expansivo lírico-feminino, naturalmente pungente e subjetivo, e uma contenção formal que tende à concisão extrema, talvez herança da “faca” cabralina. Por vezes, temos a predominância do poder do primeiro, e surgem daí poemas mais longos e de viés narrativo; em outros casos, o segundo estilo se impõe, e então testemunhamos a escritura de poemas curtos e lapidados. O próprio nome do livro reflete essa dualidade: Brio é uma palavra que transmite a idéia de carinho, zelo, cuidado; é uma palavra essencialmente feminina. Mas ela também sugere lentidão, trabalho prolongado, pois uma coisa feita com brio não é, definitivamente, feita às pressas. Assim, temos em Brio a presença dupla do emotivo suave e da atenção esmerada.

Exemplifiquemos o caso lírico com o poema Perséfone (Página 67):

 

 Esfoliante

Espessante

Tamponante

Esfolante

Mênstruo

Monstruo

Plutão tigra

Tinge o linho de sangue

Precipita

Funda a treva

na força

do abraço áscuo, trifásico.

 

A rubra romã

entreabre,

morde:

a lua ruiva comigo fulva.

 

A língua do deus, anti-íntima

perfura a membrana da fuga

abre a mão que retinha

o segredo, grão da sua fome.

Ensina,

Tira. Fala.

E no corpo da presa acende

a grande anêmona vermelha.

 

A pele se veste de papoulas,

dá.O verde rompe da boca, erva, sobe pela terra.

 

Saber

dizer meu nome devo

àquele que a poder de cavalos,

de rodas, de rapto, de abismo,

da casa materna me arrastou

menina, ninfa, para o Tártaro

quando eu, distraída, corria para colher o asfódelo e o jacinto.

 

Aí, o fio que conduz o campo semântico do poema é a lenda grega do rapto de Perséfone por Hades, o deus dos infernos. Todavia, lentamente o panorama se confunde: a imagem originalmente mítica ganha sentido paralelo, com a exacerbação de certos elementos: a cor recorrente nas palavras rubra, ruiva,e vermelha; a belíssima última estrofe, que simboliza o momento em que Perséfone se entrega a Hades e o reconhece como senhor; a primeira estrofe, rápida e de dinâmica justaposição. Tudo isso vai criando sub-repticiamente novas possibilidades de interpretação, dando uma nova face à lenda clássica. O poema, nitidamente feminino, narrado em primeira pessoa, mostra bem o poder da sugestionabilidade provocada pelo lirismo emergente. Formalmente, a ausência de métrica regular e de rima esconde uma organização formal própria, regida por outros interesses, que pode tentar ser decifrada a partir de certos elementos, como a disposição da palavra “saber” isolada num verso, e da poentuação entre “tira” e “fala”, aparentemente (mas apenas aparentemente) desnecessária.

Agora, vejamos momentos em que a precisão cirúrgica reduz o poema a pouquíssimos versos:

 

A vida te abraça,

docecurva, lentoverde aterro.

 

O poema acima, localizado na página 37, pertence à seção “Quatorze andantes do aterro”, e se utiliza da densidade semântica e sonora para criar efeitos de leitura: o verso “docecurva, lentoverde aterro” não faz apenas junções de duas palavras, mas a criação de uma terceira, poeticamente potente; e o faz duas vezes consecutivas, com o intervalo de uma simples vírgula. Seu poder de sugestão conduz o leitor a um estado de suspensão suave, amaciando o choque da palavra aterro (que, além de ter um rr, sugere algo esteticamente pouco apreciável).

Temos, ainda nesta categoria, o seguinte poema, chamado Rua Larga e localizado na página 55:

 

            Os automóveis dançam a quadrilha das praças.

            Que rumo tomar, coração disperso das avenidas?

 

Poema simples, objetivo, mas não desprovido de rigor imagético. Podemos inferir que o impulso inicial do poema surge também da existência de um lirismo íntimo, localizável na palavra “coração” (que mais se amolece com o adjetivo que o caracteriza, “disperso”). Mas essa primeira pulsação não pode se expandir e se derramar: desta forma, teríamos um poema cheio de clichês e sem força poética. O corte finalizador, o ponto final, a limitação a dois versos evita a queda no pieguismo, no lugar-comum. E a poetisa cria uma interessante composição de poucas notas, onde não falta harmonia por não se arriscar à continuidade.

O melhor da poesia de Brio me parece colocada na última seção do livro, que é na verdade e republicação de um livro antes independente: Veneza de Vista e Ouvido.  Deixo ao leitor a possibilidade de explorar essa seção por si só, pois minha crítica não se julga à altura de tentar identificar os elementos criadores lá presentes. Reproduzo, apenas a título e curiosidade, o poema “I Solisti Veneti na Igreja dos Frari”, da referida seção, na página 91.

 

            Não são os violinos, a viola d’amore

o alaúde, o oboé, a flauta

que tocam.

 

com arcos propiciatórios, caixas brilhantes,

ondeadas de cordas,

metais reluzentes,

ritualmente os músicos dão início a um gestual silencioso

que faz descer da cúpula do nada

o som, aterrisando nas arcadas.

 

E com esse poema me despeço, tecendo elogios a Lélia Coelho de Frota, cuja poesia não é fácil nem simples, e chega a ser um pouco obscura ou desconexa a primeira vista. Mas é que a obra dessa escritora é elaborada com o intuito ser lida várias vezes, lentamente, verso a verso: com o costume, o leitor não poderá deixar de se sentir transportado a um mundo onde as coisas parecem suspensas por fios finíssimos, e que, apesar de densas, flutuam no ar.

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4 Respostas

  1. Leo,

    tomara que tenha mais sorte com os comentadores nesse novo blog.

    btw: sabe que Joyce também fala da viola d’amore, no Finnegans Wake?

  2. Leo, gostei bastante dessa sua iniciativa de falar sobre poetas “contemporâneos”. É muito interessante a cada post conhecer um autor novo.
    Ainda mais assim, com textos como esse, bem escrito e estudado.
    Abraço!

  3. Estávamos precisando de poesia contemporânea!… justamente para vermos se gostamos de cânones ou de Literatura! heheh Já valeu pela iniciativa, Léo! Engraçado q no primeiro poema eu tive uma mais uma leitura erótica… Interpretando o primeiro poema como erótico, gostei dos poemas “suspensos” dela
    Abração

  4. Saraiva,

    Contento-me sempre que um novo nome da ‘literatura brasileira’, no caso de uma ‘verdadeira literatura’, chega a meu conhecimento. Acredito que as descobertas do seu estudo sobre a contemporaneidade do estilo, sobre a novidade do nosso país, acredito que continuarão nos rendendo nomes – nomes que sejam de valor e competência. Puxa, (em vista disso) mas que tarefa a sua!
    Quanto a sua formal leitura da nobilíssima Coelho Frota, permita-me apenas acrescentar algo sobre o poema da Perséfone, para contribuir de alguma maneira. Soube da história de amor entre Plutão (pai de Perséfone) e Jacinto – Eles brincavam de discos, no bosque. Um dos discos lançados por Plutão atinge Jacinto, abrindo uma fenda na sua testa, e matando-o (acidentalmente). O sangue que jorra de Jacinto suja a erva do bosque, onde cresce uma flor vermelha, que ganha seu nome. Assim, lemos que Hades (deus das profundezas – da morte?) rapta Perséfone quando ela “corria para colher o asfódelo e o jacinto”, e, conhecendo antes disso as imagens da fenda e do sangue que escorre dela (a imagem do pai diante da morte e da filha diante do deus da morte, que a possui): “a pele se veste de papoulas,/ dá. O verde rompe pela boca, erva, sobe pela terra”. Nesse caso, parece tanto o aprendizado sexual da ninfa, quanto um atavismo dela. Tal poema tem uma dualidade da psyché, mais que do estilo – esta última, achei pouco evidente segundo a poesia que, formalmente, a gente comparou.

    PS: A viola d’amore aparece também nas ‘Elegias de Duíno’, de Rainer Maria Rilke. Aguardo ansiosamente pelo momento em que você comentará o Sr. Piva.

    André.

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