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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Os Olhos Cegos de um Deus

“Welcome to the torture chamber!”

            No final de 1974, o autor Petter Shaffer realizou a primeira montagem de sua sexta peça – o drama psiquiátrico de um menino que havia cegado seis cavalos do estábulo onde trabalhava. A peça, Equus, foi um sucesso de público e crítica, sua primeira montagem ultrapassando as mil apresentações, ganhando os quatro principais prêmios de teatro de New York – o Drama Desk, o Outer Critics, o New York Drama Critics Circle e o Tonny Awards, de forma a equipará-la a outras gigantes da história teatral, como Death Of A Salesman de Arthur Miller, The Cocktail Party de T.S. Elliot, A Streetcar Named Desire de Tenessee Williams, Long Day’s Journey Into Night de Eugene O’Neill, Marat/Sade de Peter Weiss, The Homecoming de Harold Pinter, e, posteriormente, as duas partes de Angels In América de Tony Kushner e também o Amadeus do próprio Shaffer, além de tantas outras.

” ‘I see you’ ‘I will save you’
‘Bear your way. Two shall be one’
‘My chinkle-chankle shall be in thy hand’ “

            Não há simplicidade em Equus. Não há suposições, nem expectativas traídas. A construção não tem marcas, o enredo não tem superficialidades e a montagem atinge níveis desesperadores, inesperados e inovadores, comparáveis aos de Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, em toda a sua genialidade. Discute-se a Normalidade, a Psiquiatria, o Casamento, o Trabalho, a Idade, a Sexualidade, o Fanatismo e a Religiosidade, com visões que não tentam o ridículo objetivo de demonstrar todas as opções e interpretações, mas se fecham impecavelmente em torno da mão desse menino, que segurava um estilete e furava os olhos de seu Deus, numa história contada em flashbacks misturados a discurso indireto livre, a fala direta e a conversas com a platéia – quatro temporalidades e linearidades distintas dividindo o mesmo palco com homens vestidos de cavalo em figurinos incríveis, platéia entre os atores e platéia exterior, tudo sobre uma estrutura que gira e me faz acreditar, durante as duas horas, pelo menos, que aquele é o único sentido da existência.

 

*

“What use is grief to a horse?”

            Já exasperado pelo seu trabalho, o psiquiatra Dysart aceita esse caso, topando com um menino apaixonado por cavalos – mas que não cavalgava, segundo as outras pessoas, que tinha sido criado numa casa repressora e religiosa, em conflito interminável com os pais, e que se negava a conversar. A identificação é imediata. Eles se lêem nos olhos um do outro, e o menino, Alan, ao passo que o próprio psiquiatra entrega sua história, seu casamento falido, sua frustrante falta de filhos, seu desespero com a carreira, também se abre. Dysart passa a conhecer um mundo desvairado de Deuses-Cavalos e seu adorador maior.

“Prance begat Prankus! And Prankus begat Flankus!”
“Flankus begat Spankus. And Spankus begat Spunkus the Great,
 who lived three score years!”
“And Legwus begat Neckwus. And Neckwus begat Fleckwus, the King of Spit.
 And Fleckwus spoke out of his chinkle-chankle!”
“And he said ‘Behold – I give you Equus, my only begotten son!’ “

 

            Mais que um delírio, o espírito divino dos cavalos tornou-se uma religião. Allan trabalhava nos finais de semana num estábulo, limpando cascos dos cavalos e cuidando deles. Na morada mais sagrada entre os santuários, ele podia adorar e honrar seu Deus. Uma vez a cada três semanas, em plena madrugada, ele tirava do celeiro um dos cavalos, sem cela, apenas com as correntes na boca (“Why is Equus in chains?” “For the sins of the world”), e se igualando a seu deus, se oferecendo completamente e sem roupa nenhuma (“The horse isn’t dressed. He’s the most naked thing you ever saw.”) ele cavalgava enlouquecidamente, misturando-se cavalo e cavaleiro, num grau de comunicação divina além do imaginável, enlouquecidamente, enfurecidamente, orgasmaticamente, como se vê com Alan gemendo e gritando ao final do primeiro ato, enquanto cavalgava.

“It was sexy.”

            E não só pra ele, para o público também. Ai entende-se que a nudez da peça vai muito além do serviço de chamariz. É preciso que Alan se desnude pelo seu Deus para que a platéia possa deixar de se constranger e participar desse desespero, desse sonho, dessa descoberta; para que seja honestamente entendida a paz, que ele só tinha sentindo o suor que adorava, enquanto se abraçava a Equus “like a necking couple”. É preciso que a intimidade deles seja dessa forma tão sentida, para que seja acreditável, para que ele seja aceito como devoto, como adorador, como apaixonado.

“Ride or fall. That’s Straw Law.”

            Alan aprende a montar sendo obrigado pelo seu ritual. A Lei da Palha prevê apenas que ele consiga ou caia. Ele conseguiu e, no entanto, Dysart não. Dysart é constantemente humilhado pela conquista do seu paciente, pelo tamanho de sua grandeza e pela infelicidade imensa em que ele se encontra.

“I sit looking at pages of centaurs trampling the soil of Argos- and outside my window he is trying to become one, in a Hampshire field!… I watch a woman knitting, night after night – a woman I haven’t kissed in six years – and he stands in the dark for an hour, sucking the sweat off his God’s hairy cheek. Then in the morning I (…) go off to hospital to treat him for insanity.”

            Nesse ponto o psiquiatra já não acredita no tratamento. Mais profundamente, ele deixa de acreditar na doença, ao perceber a grandeza de seus efeitos. Seu conflito torna-se interno, duvidando de se é correto ‘curar’ o menino, ou ainda se é possível. Curá-lo do que? De tudo em que ele acredita? Tirar dele aquilo que o mantém inteiro? E com que objetivo? Fazer dele um entre os tantos outros que vivem secos… Dysart não consegue compreender. Se sente ameaçado. Desde o princípio, pelo olhar condenador de Alan, depois também pela sombra da cabeça de cavalo que o persegue e não desiste de mostrar que ele falhou, na vida. O questionamento da normalidade se explode. A normalidade em si se extingue, e todas as alternativas são inferiores, infelizes e dolorosas.

“The Normal is the good smile in a child’s eyes – all right. It is also the dead stare in a million adults. It both sustains and kills – like a God. It is the Ordinary made beautiful; it is also the Average made lethal. The Normal is the indispensable, murderous God of Health, and I am his Priest.”

            Dysart retoma a horrenda posição de sacerdote que ele já questiona desde o início da peça, imagem presente nos seus sonhos em que imola quinhentas crianças, sendo famoso e importante apenas pela sua capacidade de cortar. Seu medo é ter de cortar de Alan tudo aquilo que ele venera. Ele tiraria de Alan tudo o que ele próprio não tinha, e o reduziria a uma pessoa normal. O daria de volta a semi-vida de todos os dias, mesmo sabendo que Alan preferiria seu estado anterior.

“He lives one hour every three weeks – howling in a mist”

            No entanto, Alan já não pode mais retornar àquele estado. Uma garota do trabalho se interessou por ele. Fisicamente. E o levou para – literalmente para o garoto – a cama dos deuses: a palha dos estábulos. Ela se oferecendo a ele, Alan desejava, mas não conseguia. Não podia deixar de pensar e sentir seu Deus (“When I touched her, I felt Him. Under me… “). Como bem aprendera com sua mãe, sabia que Equus o via por todos os lados (“God sees you Alan. God got eyes everywhere”). E não lhe havia saída. Os olhos dele o perseguiriam por todos os lados com os olhares de reprovação, com os olhares que o subjugavam e retratavam sua falha e exigiam sua redenção (“The Lord thy God is a jealous God”). Não havia saída, não havia alternativa. O estilete era o caminho mais curto, o alvo, os olhos de Deus:

 

 

“Eyes!… White eyes – never closed! Eyes like flames – coming – coming!… God seest! God seest!… NO!… no more. No more, Equus. Equus… Noble Equus… Faithful and true. God-slave…Thou – God – seest – NOTHING!”

            Porque era o que ele devia fazer, Dysart anuncia que terminará o tratamento. Que encerrará os pesadelos do menino e o levará para a normalidade, para longe de sua felicidade, mas não sem dor imensa (“When Equus leaves you – if he leaves at all – it will be with your intestines in his teeth.”). Dysart não acredita, não poderia acreditar na felicidade que esse estado ‘Normal’ finge carregar. Não tem certeza da cura, da reabilitação do garoto, ou de uma melhora para ele. Só sabe que vai cortá-lo, como sempre fez. Que vai rasgá-lo e destruí-lo para que ele não seja mais quem é. Sua despedida é o abandono da crença, o abandono dos Deuses, a perda dos sonhos e o completo desamparo:

 

“You won’t gallop anymore, Alan.”

 

*

            E se isso não te dói, eu não tenho mais nada que o faça…

entre-aspas

* Citações da peça Equus, de Peter Shaffer (consultada a edição de 1977 da Penguin Plays), em formado ‘ATO.cena’, respectivamente: I.1; I.19; I.1; I.14; I.19; I.13; I.12; I.1; I.19; II.25; I.19; II.25; II.33; I.13; II.34; II.34; II.35.

cartaz de divulgação e imagens da montagem de Equus de 2007, West End Production, direção de Thea Sharrock

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5 Respostas

  1. Não conhecia nada sobre a peça (a não ser a sua obsessão por ela), mas senti a dor. A de Alan, a sua, a minha!

  2. Parece ser muito interessante essa peça! Eu só acho q vc poderia ter colocado a tradução dos trechos também…abs

  3. sobre a tradução: eu me questionei mto sobre isso. o texto traduzido tbm é bom, mas nao é tao fantástico. na realidade a questão é mega textual. a construção da peça é feita com dialogos quadruplos em tempos e locais diferentes, mas simultaneos e com pessoas cruzadas. em ingles é perfeito. em portugues tem marcas da tradução. eu sou maníaco demais. passaria muito tempo traduzindo até me satisfazer, e a tradução pronto nao me é tao encantadora. a solução foi apelar pro original… a sugestão será levada em conta no próximo em q isso for acontecer. o que nao será mes q vem. mes que vem teremos Nelson Rodrigues.

  4. dói, querido.

    e só você me faz tão curiosa do que outrora nem sequer ouvi falar.

  5. Hey.
    Bem, eu só conhecia muito pouco da peça[e justamente porque o guri lá foi chamado pra interpretar =S].
    Parece bom e denso.

    Até.

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