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Can’t hear with the waters of.

Para adiantar a missa: Arthur C. Clarke morreu há duas semanas.

yeah.

Autor de dezenas de livros de ficção científica, parceirão de Stanley Kubrick no filme 2001 – uma odisséia no espaço – e, por conseqüência, do fabuloso computador HAL9000, o LED mais expressivo na história da eletrônica – e na série de livros derivados, elaborador de minuciosas descrições (às vezes chatíssimas) em pormenores quase indecentes de maquinários e naves espaciais. E, claro, autor da máxima da FC “Se um cientista muito velho diz que algo é possível, sem dúvida estará certo. Se disser que algo é impossivel, provavelmente estará errado”. Um dos grandes, ombreando Isaac Asimov.

MAS. O que me veio à cabeça logo que li a notícia foi que, não fosse um velho compatrício nosso, 30 anos atrás, o currículo de Clarke que andam desfiando por aí seria bem mais curto. Nada de Júpiter virando estrela, David Bowman visitando a viúva ou da série Rama inteira.

Parece que, depois de As fontes do paraíso, Clarke havia decidido se aposentar. Ficara sem idéias. E foi salvo por um fanfic! Jorge Luiz Calife, (infelizmente) mais conhecido como tradutor da série Duna, resolveu mandar por correio um conto que continuava a história de 2001. O decano da FC gostou o suficiente para a cabeça fervilhar de novo e fez mais três livros, sem contar o filme 2010 – O ano em que faremos contato.

Quando o primeiro desses livros foi lançado, Calife recebeu o devido crédito pela iniciativa e inspiração. A Nova Fronteira, editora de Clarke no Brasil, contatou-o então para publicar Padrões de Contato , romance de FC de Calife que havia recusado anos antes (estrelando a imortal Angela Duncan). Mas a fama não veio. Nem sucesso comercial. Calife publicou outros dois romances e um livro de contos, mas não foi muito além disso. E não foi exatamente malsucedido dentro desse nicho.

O caso é que a ficção científica sempre foi meio marginal no Brasil. Se nos EUA, onde é incubado há quase cem anos, autores do gênero raramente obtiveram reconhecimento literário (ou, convenhamos, alcançaram excelência técnica para pleiteá-lo), ao menos teve os fãs para o manterem vivo. Durante algumas décadas tivemos Gumercindo Rocha Dórea, mais algumas iniciativas esparsas como a recente coletânea Melhores contos brasileiros de ficção científica (com um link capitalista). Dos nacionais, nada muito expressivo.

Pude entrevistar Calife em 2005. Lembro que ele atribuiu esse insucesso do gênero no Brasil à nossa cultura mais relacionada a tradições religiosas ou mágicas. Mas, se fosse só isso, como explicar o sucesso da FC nos países anglo-saxônicos, em que Tolkien e discípulos também têm grande aceitação (e muitas vezes compartilham seus leitores com os da FC)?

A questão é que em FC, aqui, só viceja o que é estrangeiro. Asimov, Douglas Adams, Philip K. Dick, Ray Bradbury e o próprio Clarke estão sempre nas gôndolas de livrarias, A mesma Nova Fronteira que o publicava e trouxe também Duna só aceitou o romance de Calife após o autor receber os agradecimentos – e, por extensão, o reconhecimento, a validação, a certificação – de um estrangeiro consagrado.

Qual o problema, então? Desprestígio do nacional, caipirice? Ou maior facilidade de associação da temática científica e tecnológica com a realidade autores do assim chamado Primeiro Mundo?

As duas culturas, de C.P. Snow, aborda de maneira um pouco ingênua, mas um tanto perceptiva, o quanto a cultura letrada e humanista se apartava dos engenheiros e pesquisadores de ciências naturais (com recíproca também válida). Isso na Inglaterra da década de 50. Snow menciona ligeiramente como a grande literatura de língua inglesa absorveu pouco do cenário da pesquisa e desenvolvimento em personagens e tramas, ao contrário do que acontecia na Rússia. Imagine no Brasil,então, o quanto a atividade científica ficou apartada da cultura geral, a ponto de raramente lembrarmos de cientistas ou pesquisas como parte da história do país – e, nas poucas vezes em que isso ocorre, a visão ser negativa, como as ações verticalizadas do governo federal que levaram à Revolta da Vacina, no começo do século passado.

Sem conclusões, agora.

Para a estréia, é o bastante.

A 3Quarks vai falar de ciência e literatura. E novos escritores (ou velhos). E, às vezes, de assuntos tangentes.

By the rivering waters of, the hitherandthithering waters of. Night!

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6 Respostas

  1. Amei! E estou morrendo de vontade de ler algum desses autores e obras citadas. Ansiosa para o próximo post! Sejamos bem-vindos!

  2. Ufa Mateus, ainda bem q vc existe! Só vc (e alguns outos) pra não nos deixar limitados à ilha IEL! As pontes são mais do que importantes, são essênciais, ainda mais essa sua de Literatura e Ciência…Abração

  3. Ave Mateus, “O Passos”! Eu sempre fui um grande fã dos seus textos, da maneira “complexamente simples” que você escreve! O domínio perfeito do nosso luso-idioma, menos abrasileirado do que o normal, e mais preciso do que quase todo mundo é capaz de reproduzir! Mas ao mesmo tempo, fácil e prazerosamente “legível”, com um perfeito tom de humor crítico e sarcasmo disfarçado (ou nem tanto), transmitido até mesmo por termos como um “(infelizmente)” entre parênteses, ou até um “compatrício”! Lembrando da figura Mateus falando palavras como essa, o risinho no canto da boca é inevitável!
    Mateus e sua capacidade de proferir frases inteligentíssimas, e discorrer sobre as mais diversas temáticas, com o eterno “pé” na ficção (sobretudo a científica), de forma cada vez melhor! O tom extremamente crítico, mas não tendecioso, como é ícone da imprensa marrom que nos aborda a todo tempo, e contamina, mais do que uma epidemia de dengue, as mentes mais fracas! Muito legal sua postura, científica, de defender um autor nacional, esquecido e merecedor de parte dos créditos totalmente atribuídos a um gringo pela maioria dos seus leitores!
    Parabéns, amigo – afinal, considero-o assim por mais de 7 anos! Continue na sua empreitada de sucesso! Você é realmente bom, e será bem sucedido com certeza! Abração!

  4. Como de costume, muito bom Mateus. Como colocado pelo “Herr” Felipe, seu estilo continua refinado.
    Isso me lembra suas histórias dentro dos cenários intermináveis de Tormenta.
    Bons tempos.
    flow
    Miguel

  5. Sobre a marginalidade da ficção científica no Brasil, fiquei a pensar num texto que li na semana passada, salvo erro do Colin Davis, sobre a subjetividade da diáspora…Dizia o autor que a ficção científica é uma maneira de viver duas realidades…O que isto tem haver com o termo diáspora ou imigração? Tem haver que viver fora de sua terra(home) é vivenciar duas realidades…
    Pesquisador REALMENTE viaja. Mas venho eu a me perguntar porque será que no Brasil não curtimos tanto viver duas realidades? Porque somos um país que tradicionalmente recebeu pessoas e não que enviou?
    Fica por aí a questão.

  6. Gumercindo Rocha Dórea é nome de besouro astronauta. Se fosse só Gumercindo, seria um gato ordinário. Certeza que não foi um comentário relevante, contudo há de ser levado em conta que meu conhecimento pífio de Ficção Científica não vai além de imaginar um besouro astronauta.

    Bjs!

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