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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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A Primeira Fresta Da Caixa

“Come, you spirits / That tend on mortal thoughts”
Laila Robinns como Lady Macbeth, enlouquecida e enxergando sangue em suas mãos, em “Macbeth”, de Shakespeare, na montagem de 2004 de Bonnie J. Monte

Talvez a tenda já tenha caído e tudo o que sobre sejam só os restos de um ritual de interpretação que, mais que um sentido, tinha vida, mas venham assistir à queda da cortina, à destruição da quarta parede, à ofensa ao público, ao elogio à loucura e às elegias ao pior lado da natureza humana. Eles não se desculparam, porque não sabiam que não podiam falar sobre isso. Alguém precisava fazê-lo. Alguém precisava rasgar as boas maneiras e jogar na cara de todas aquelas pessoas a culpa delas sobre tudo o que mais dói dentro de nós. Mais que um tapa na cara, era preciso um beijo no asfalto, um abandono completo e uma entrega indecente às pessoas erradas.

Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa

Eles rasgaram o meu rosto com as palavras. Eles rasgaram as cortinas com as cenas. Eles transformaram o palco que tanto amavam numa caixa vermelha, de sangue. A música, o silêncio, a fala e o tempo livre. Eles respiraram pra dentro do mundo soprando personalidades. Suas personagens moraram ao lado de alguns, mais que muitas pessoas. Eles condenaram a humanidade, eles puniram os deuses, eles tiraram toda a (falsa e pretensiosa) dignidade que tantos fingiam ter. Era preciso. Mais que necessário, foi delicioso. Quando você chega num ponto em que vive com isso, vive com eles, se aceita um desses monstros rastejantes sobre o tablado manchado, você já não dorme, você vê as cortinas se fecharem. Você já não vive, você interpreta. Você já não sonha, você cria. Pra mim, nada pode ser tão grande.

“Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro.”

A Caixa Vermelha é onde ficam o meu agradecimento, as minhas impressões, e a minha vontade, pra todos aqueles que, com um palco, me fizeram sentir, me fizeram chorar, me fizeram viver…
* visitas guiadas todo dia primeiro, nesse projeto de muitas mãos e muitas tábuas*

entre-aspas:
*versos 38 e 39, Cena 5, Ato I, “Macbeth”, William Shakespeare
*Laila Robinns como Lady Macbeth, enlouquecida e enxergando sangue em suas mãos, em “Macbeth”, de Shakespeare, na montagem de 2004 de Bonnie J. Monte
*Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a língua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa
*frase de Louis Jouvet e Jean-Louis Barrault (em seu livro “Je Suis L’Homme Du Thêàtre”), famosa no Brasil depois de interpretada por Paulo Autram em “Liberdade, Liberdade”, de Millôr FernandesHitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa
Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa

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3 Respostas

  1. melhor pessoa e cor para isso, impossível.

  2. Cor e Forma perfeitos: há aqui melhor arquiteto dessa grande representação ou, se preferires, simplesmente vida? Não, claro que não. Só há você!

  3. Ah, essa gente de teatro!
    Pandora retirou o laço preto de cetim e espiou timidamente o interior da caixa. No fundo, viu o palco, cheio de manchas, arranhões e lágrimas. Pouca luz, porque o espetáculo ainda não começara. Observou o encaixe das tábuas e pensou no que estava por vir… Sentiu o cheiro pouco habitual de velhas cortinas desbotadas e aplaudiu com entusiasmo… Viva o futuro!

    Muito orgulhoso.
    Muito seu amigo.

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