Mala

Pra começo de conversa, ela sempre detestou convenções. Principalmente as que não tem explicações lógicas. E se era pra carregar e parir um filho, as coisas não iam ser convencionais pra ela.

Antes de se dispor a cagar uma melancia, ela queria ter certeza de que não seria apenas uma mala para carregar uma criança por nove meses.

Uma das suas condições era burocrática: seu sobrenome no final, sem choro e nem vela. Não adianta vir escrivão dizendo que não pode, que não é assim que se faz tradicionalmente… “Foda-se a tradição, quem carregou fui eu, o último nome é meu.”

Pra ter certeza de que tudo sairia fora das convenções, ela mesma registraria o rebento. Sem essa de mãe lá no hospital, recuperando-se do trauma, e pai feliz com mais duas testemunhas escolhendo o nome do bebê. Se o pai regatear ela já  tem pronta uma ameaça: “quem disse que o filho é teu?”

Afinal, os homens nunca sabem.

Óculos do Google!

Fascinante esse novo recurso do Google para dispositivos móveis. O que mais me fascina é o sistema de reconhecimento: se antes precisávamos de determinados códigos para produzir o conteúdo (como QR Code e os dispositivos de Realidade Aumentada), se esse Google Goggles funcionar realmente, damos um novo passo para a convergência da informação. Vejam o vídeo promocional.

Uma Microscopia do Crepúsculo

ALBA

[POSTLÚDIOS PARA OUTUBRO]

I.

Nos teus piares, primos – Ó aves! –
meu sonho desemboca,
mínimo,
tênue nos mares,

Ele volta do milagre para a encosta
pelas ondas até a areia – aurora,
espumosa…

II.

O triunfo da avezinha é meu íntegro espírito –
Avizinha-te comigo,
sê minha!

Que fim de noite,
belíssimo…

E abrindo uma luz azul translúcida azulada –
uma estrela de asas espreguiçadas.

III.

E eu amei o friso das pedras,
família estranha.

Recebam-me – Aves! –
nas coisas da certeza,
-

Pois nos teus cantos –
pilares – em bruços ficam as folhas,
ligeiras inda da modorra

– Morada – sonolência…

IV.

Ó, noitada!
Que fizeste dos arvoredos? –
que afundaram no teu poço trêmulo
– vazio tenebroso em que o astro faltava.

Ó, noitada!
Tens, pelo menos,
as sombras da estrela
que nunca se fatigam circundando a alva.

V.

Vós, nuvens
que em filetes perfilais
sobre a face do astro.

Na serena majestade inspirais
[que nos governa]
tracejos que revelam:
ali –
secretos afās de sufocar-nos!

VI.

Derrama-se a aurora
pelas ramas

Como entre pomas
maternais – mamāo e leite

E os pássaros bicando-lhe
negríssimas sementes,
da cava extravasando e pela casca
[lascas das noites
que atravessamos comumente.

VII.

Na teia da aranha
incide a luz direta, inda
indecisa de passar por meio a tira

Ela fica
em esguia esvoaçante:

O brilho dela oscila
perdido, no labirinto de um instante.

VIII.

Mas, tu!
Noturna aranha que em fuga
esgueira, enorme.

Agora vejo
as tuas teias: sāo os rastros
nevoentos
na planície que esfriaste
em teus venenos –

Mas, no oposto:
na posta rubra de uma nuvem
onde dormes, eu noto:

O dia –
Conseguiu ferir-te o dorso!

IX.

Minha giga
estiva para a estrela que ataram
em arcos tensos

E um uivo apenas seu extenso
retesou

Meu arranjo ou morreu,
ou talvez gelado pela ceifa do arcanjo

Ajuntam agora as folhas
que já formaram o nosso leito.

X.

Revoada de aves negras!

É que a vossa asa –
imensa ânsia em ser eterna madrugada.

Sois trechos da alma dela em luto
levantados do sepulcro.

Quando pousais na árvore florida
vejo-vos trejeito de feri-la
por terdes medo de voltar pra casa.

André B. Nogueira, 2007

Qualquer um de filtro branco

Não tenho nada contra a pós-modernidade. Nada mesmo. E nem posso ter, pois até esse momento ainda sequer completei três décadas de existência (apesar de estar perto), o que me faz ser (mesmo que não quisesse) um dos filhos dessa pós-modernidade. Às vezes, quando converso com um carioca cinquentão amigo meu, percebo que não há como fugir de ser um filho da pós-modernidade. Não, esse cinquentão não é um careta barrigudo chato (tudo bem, um pouco barrigudo…). O cara é muito bem humorado, e deixa muito garotinho juvenil que conheço no chinelo. O que me faz perceber essa pós-modernidade é o trato que a rapaziada em geral tem com as tranqueiradas do dia-a-dia. Segundo esse amigo meu, lá nos idos dos anos 80 – nesses tempos eles é que eram os modernos – era muito raro ver alguém fazendo essas coisas, mesmo os que tinham muita grana (pelo menos no Brasil), e o foco da geração não era esse (além, é claro, da tecnologia que ainda não existia não só por aqui). Não tem nada a ver com ser capaz ou não. Nada a ver mesmo. É o lance de estar focado. Enfim… Mas esse não é nem o assunto do qual vou tratar.

          Não tenho nada contra a pós-modernidade. Nada mesmo. Já disse e retomo. O que me deixa às vezes perplexo é a mudança – e também a queda – de alguns padrões tão arraigados na vida cotidiana, e que pareciam, de certa forma, imutáveis e indispensáveis. Estava eu um dia pensando, após falar com meu pai pelo telefone, sobre um hábito que, durante longos anos, fez parte do meu ambiente familiar: fumar. Fumar era algo comum – e, de certa forma, inofensivo e fundamental – para quem foi adolescente durante um longo período que se iniciou sabe-se-lá-quando e que vai mais ou menos até o final da década de 90. Nesses tempos (não posso esquecer de dizer que considero os anos 90 a época de um pensamento só), qualquer um comprava facilmente um maço de cigarros em qualquer padaria ou bar para levar para a mãe, pai, avô, irmão, primo ou qualquer um sem ser questionado, independentemente da idade. Era comum discutir com amigos qual marca de cigarro que se iria fumar ao crescer. Cansei de ver, ao fazer compras com minha mãe, mulheres e homens colocando pacotes de cigarro em carrinhos de compra no supermercado, como um item da compra do mês. Durante muito tempo – muito tempo mesmo – o cigarro foi associado a uma sensação de maturidade e responsabilidade. Os poderosos fumavam. Os atores de cinema mais badalados fumavam. Os pais fumavam. Os irmãos mais velhos fumavam. Os intelectuais faziam seus longos discursos de posse de um longo cigarro – de filtro branco, geralmente – na mão. O primeiro cigarro significava muito mais do que simplesmente fumaça: significava estar próximo (pelo menos de alguma maneira) daqueles que todos queriam, de certa forma, ser.

          Na pós-modernidade não se fuma. Sou ex-fumante, e sei disso. Não defendo de maneira alguma o hábito de fumar. Também não sou fiscal de fumaça dos outros, já que não há nada pior que ex-fumante chato. Posso dizer que foi difícil abrir mão do cigarro, não só pela quantidade de cigarros fumados por dia (uns dois maços, mais ou menos), mas também por tudo que já foi escrito anteriormente. Largar o careta (gíria para cigarro) significaria ter de abrir mão de um montão de outros hábitos, como café, chocolate, ver filmes de madrugada, chá, Halls, pelo menos nas duas primeiras semanas, de acordo com algumas receitinhas milagrosas. O interessante é que abrir mão dos hábitos ajudava muito, já que fumar – como eu já disse – vai muito além de aspirar fumaça. Talvez, nesse ponto, somente quem já fumou entenda…

          Antes que me esqueça, não é à toa que os maços de cigarro trazem estampadas aquelas fotos. De certa maneira, elas tiram a beleza do maço e o glamour da coisa. Considero uma sacada mais ou menos feliz do idealizador. Muita gente que conheço diz não se importar, e até brinca com o fato, mas para quem já fumou antes dessas sanções sabe a diferença – e olha que a indústria do cigarro não precisava investir tanto em estética quanto investe hoje. No momento em que a sanção pegou, uma das marcas até começou a imprimir um rótulo a mais para que se pudesse cobrir as imagens, o que também foi proibido. Ou seja, fumar, de uns tempos para cá perdeu muito da sua beleza (para não dizer toda ela), o que, pelo menos para mim, faz com que a moda de não fumar (lembrando Caetano) realmente pegue. Como amostra final, lembro de uma cena que explica bem a idéia de glamour: Durante alguns anos, meu pai, típico metalúrgico do ABC (e que não fuma há nove anos), sempre pedia para que alguém comprasse um maço de cigarros sempre do mesmo modo, alguns poucos minutos antes de ir para o trabalho: entregava o dinheiro e dizia “Qualquer um de filtro branco”. Ele esperava, pegava o maço, se despedia e ia para o trabalho. Era como se fosse parte de seu uniforme…

Não ofereça Keep Cooler para Mário Bortolotto

Há uns dias atrás, passando os olhos pela Internet nos momentos de saco-cheio de pesquisa acadêmica, me deparei com uma notícia que conduziu minha cabecinha para aí uns oito, talvez nove anos atrás, não tenho muita certeza (a velocidade dos acontecimentos e minha ânsia cega fizeram com que não sobrasse muita coisa em minha memória desse tempo – se é que me entendem…). Eu ainda me encontrava em Santo André por esses tempos e, se não me engano, completamente no núcleo da esbórnia poética (prefiro chamar assim), mais precisamente localizado no cruzamento das ruas Elisa Fláquer e Álvares de Azevedo, entre três bares, um calçadão, uma loja de instrumentos musicais e Cds, transitando entre a míriade de malucos, cigarros, bebidas, substâncias ilegais, poesia, música de violões e mais-sei-lá-o-quê e o-que-pudesse-aparecer-a-qualquer-momento. Foi nesse lugar que percebi do realmente são feitas as páginas de Camões, onde bebi  dos versos de Keats, fumei dos cigarros de Quintana e me encharquei completamente nos enlevos da verdade de Wallace Stevens, além, é claro, de experimentar aquela sensação única que se tem (e que o Abujamra já explicou tão bem) ao se pousar uma caneta ao término de um verso, conto, ou qualquer outra coisa qualquer que se escreve.

Em uma dessas noites quentes de verão (lembrando Cazuza), após o fechamento dos bares e no caminho para um outro local, foi que me chegou à mão, através de um dos diversos tipos que  encontrei durante os tempos de recreação noturna, e que geralmente nem se sabe o nome (e que  na verdade, nem faz diferença saber), uma revista-zine-não-periódico-não-literário-não-circulante, daquelas xerocadas e cheias daquele material tridimensional, composto de concreto, álcool, trechos de filmes, literatura e fumaça de cidade. Um tempo depois, li o zine. Entre poesias, mini-artigos sobre Einseinstein e James Dean (creio que eram esses os assuntos), constava um conto que falava de um cara que conhecia uma garota em seu prédio (ou sei lá onde) e a coisa ficava meio entre o sexo embalado por Goulard de Andrade, Keep Cooler, uma garrafa de Orloff perdida na geladeira e Nina Simone. O conto soava meio como o resultado de uma conversa entre Nélson Rodrigues e Rubem Fonseca escutada de canto de ouvido em algum balcão de bar. No geral, a coisa soava meio noir, e trazia no rodapé o nome de um tal Mário Bortolloto, além de citar um grupo do qual o referido participava: Cemitério de Automóveis. Interessante a coisa. Um tempo depois, o zine sumiu. O que ficou desse zine, juntamente com a estória, foi aidéia de fazer um outro no mesmo molde, e que, obviamente, não se realizou (o xerox ficaria caro, e eu não estava disposto a beber umas cervejas a menos em prol da empreitada). O tal zine teria fotos, um poema principal escrito sobre a foto de um Kildare em cima da uma máquina de escrever de onde sairiam os escritos selecionados e editados, e  sei-lá-mais-o-quê. Tinhamos até um nome, retirado de um filme chinês assistido por mim e meu sócio na empreitada na mais pura coincidência, em uma dessas noites que se perde procurando algo: O clube da sorte e da felicidade. Enquanto pensávamos no que faríamos, andávamos procurando inspiração. A Santo André da época era bem generosa a esse respeito. Sempre havia alguma coisa interessante pra fazer, que poderia ser ir ver os quadros do maluco Johnny Lazarinni (acho que ele esteve no programa do Jô Soares uma dia, sei lá) expostos na Casa do Olhar, ir aos recitais e saraus na Casa da Palavra, ver as edições do Revolucionarte, assistir aos shows (gratuitos) na Concha Acústica, ou dormir na casa dos hippies em Paranapiacaba (que era o antigo cinema da cidade, hoje tombado pelo patrimônio histórico), sem esquecer dos passeios noturnos habituais, com literaturas e afins. O zine não aconteceu, e, na real, gosto muito mais  de  movimento do que de papel xerocado (apesar de não serem coisas comparáveis…). Correr atrás do zine significou, na época, correr atrás de um montão de coisas para rechear sua tridimensionalidade. A Santo André de hoje já não é mais a mesma cidade – e nem deve ser. O centro está virando uma espécie de ponto de passagem, graças ao mais novo empreendimento universitário da região. Alguns amigos meus é que gostaram da mudança, já que a residência deles próxima ao empreendimento praticamente duplicou de valor nesse meio tempo…  Afinal, esse nem era o tema da conversa…

Metalinguagem blogueira

Interessante essa entrevista do Marcelo Tas para John Bell, presente no blog do Tas. O que mais me chamou atenção foi o paralelo entre blog e jardim. E é realmente pertinente.

O que fazemos com nossos blogs é simplesmente como cultivar um jardim na frente de sua casa. Se cuidamos bem, damos valor, embelezamos e aperfeiçoamos a cada dia, nosso jardim fica atraente para as outras pessoas. E não preciso fazer propaganda do meu jardim para os outros: os outros fazem propaganda do jardim para outros. Meu vizinho que vai dizer para seu melhor amigo que o meu jardim é lindo. E esse melhor amigo do meu vizinho que vai dizer para sua esposa que meu jardim é legal. E assim vai, sem eu saber quem está vendo meu jardim ou quem sabe do meu jardim.

Já ouvimos essa corrente de conteúdo em algum lugar não?

Thkis

Um fim de tarde, como qualquer um. Uma cidade enfadonha, como todas outras. As horas eram expressamente corridas, como as que nunca mais veremos. Uma amizade firme, uma amizade como seria se de muito tempo, de muito se superar e se surpreender. A cada dia um dia e a cada olhar uma descoberta. Possuíam uma ligação em que muito já se passou. Um passado já comentado em olhares, sorrisos e já é suficiente para rirem ou chorarem juntas. Duas garotas: Jey e Emy. Duas semanas foi o que se passou até trocarem telefonemas e combinarem de sair para a história uma da outra. Era como nos filmes, onde o que se passa não se esquece e até se duvida. Sinceras elas eram com certeza e é na falta de certeza que se passou o que não vi, mas que, ao fechar os olhos, não esqueço.

Acho melhor corrigir-me, pois não foi em uma tarde, foi naquela noite. Uma sexta-feira quente, inquieta. O dia tinha sido normal, nem melhor nem pior, cheio de conversas, assuntos, cigarros, cervejas e baralho. Como já não era novidade, ouviu-se um convite para uma baladinha tunts tunts, para no depois dormir uma na casa doutra. Como já era de praxe, ouviu-se aceitar o alívio convite para não se ficar só. Seguiu-se assim, como o combinado. Os olhares, que ao longo da noite por vezes se travaram, agora nem corriam mais; eram diretos. Indiretas, entretanto. Dançaram sentindo-se sob as estrelas que refletiam naquela bola de espelhos no teto e beberam todos os desinibidores alcoólicos e não alcoólicos que passavam pela cabeça e pelas mãos. Seguiu-se no amadurecimento daquela noite, a própria noite. Praticamente inesquecível e insaciáveis só foram embora quando a exaustão as impedia de continuar dançando. No cansaço, em casa já, pós noite, com o raiar do dia pensando em invadir a persiana, conversavam longamente. Estavam para dormir, ou pretendiam, mas ainda sem sono, mas ainda com muito que falar e, eufóricas, falavam do tudo como se não estivesse acontecendo nada. E não mesmo. Mas os silêncios que desconfortavam, aconteciam com cada vez mais freqüência, mas não eram aqueles silêncios onde não se tem o que falar, era daqueles em que o assunto se tornava inevitável. Jey resolveu tomar um banho. Gelado provavelmente. E, assim, deixou Emy desprendida e só em seu quarto. É rapidinho. Talvez tenha sido mesmo, mas nunca saberei. Não totalmente familiarizada com a casa, Emy procura algo que não saiba; no armário muitas roupas, na escrivaninha algumas folhas e nas prateleiras algum livro. Procura um que possa embalar seu descanso. Encontra um curioso, pequeno, capa escura, com letras finas, compridas e escarlates; tratou logo de chamar sua atenção. Pegou-o ligeiramente sonolenta, e sentou-se na cama de Jey enquanto ouvia o chuveiro ligado. Abriu na página marcada e começou a leitura, o sono não veio mesmo, e até se foi. Ela leu sobre uma garota e sua atração pelas outras, estando a página marcada exatamente em seu primeiro beijo. Distraída com a coincidente leitura desapercebeu que o som do chuveiro não se ouvia mais. E ali, agora já deitada na cama, se deixou levar por cinco páginas rápidas rápidas… Quando que de súbito, a porta do banheiro, que estava exatamente a sua frente, abriu. Daquela nuvem branca de vapor, que não se via nada, surgiu, com passos delicados, pezinhos precisos sobre o carpete macio e avermelhado do quarto.

Aos poucos se deixando mostrar, era como se todos aqueles silêncios, aqueles assuntos, por nada, ficassem todos a priori. Emy, estarrecida, boquiaberta, não disfarçou, sabia-se mais do que nunca instigada pela leitura, mas calou-se. Aquele vapor se dissipando, mostrava lentamente aquele lindo, doce e infantil sorriso envolto de uma toalha e com outra nos cabelos, deixando caída uma pequena mecha sobre os negros olhos. Sexy – pensou e quase falou, mas preferiu, mais uma vez, calar-se e, outra vez, desviou o olhar. Jey nada falou e sem desviar o olhar, não desviava nem seu pensar, queria o mesmo. Poderia ter ido direto ao guarda roupa procurar algo para se livrar daquela toalha molhada, seu vinho pijama de cetim talvez, mas não, parou de frente para o espelho e, em um jogo de cabeça, tirou a toalha que cobria seus cabelos e começou a secá-los, quase como querendo chamar o olhar no sentido da atenção e da tensão. Emy, sem perceber, já havia deixado sua leitura de lado e, de canto de olho, admirava-a. Jey rearrumava seus cabelos castanho escuro dentro daquele turbante molhado e veio sentar-se ao lado da amiga. O que está lendo? A pergunta saiu no mesmo instante que via a resposta e, inevitavelmente, se ruboriza. Olhando de lado, já nem mais se lembrando da pergunta, disfarça um possível pensamento sobre que roupa por. Nisso, Emy repara que uma mecha de cabelo rebelde havia caído sobre os ombros de Jey e levada na mais inocência malícia, com a ponta dos dedos, que ao longo da noite se procuravam, coloca para dentro da toalha, de onde havia saído. Jey apenas olha, e, mais uma vez, os olhares se seduzem e se perdem ao se encontrarem. A ponta dos dedos que arrumava o cabelo escorre pela face até o queixo como em um carinho suave. Lentamente retira sua mão e, mais nervosa, desvia seu olhar de novo. Jay dessa vez não deixa, é ela quem coloca seus dedos no queixo de Emy, trazendo seu olhar de volta e, sem pensar, dessa vez sem nem respirar, aproxima-se. Quente… Um beijo é dado. Selando o dia, a história, a sexta que já se via sábado e a minha imaginação que de nada teve se não uma remota sugestão!

Como algumas palavras podem mudar tudo.

Como algumas palavras podem mudar toda uma situação.

Acho que isso vale para tudo na vida.

Homenagem às primeiras músicas dos cds

A força das primeiras músicas dos cds. Spark, Hidden Place, La Jeune Fille Aux Cheveux Blancs. O ímpeto com que dizem “contra todo o resto que há no mundo, contra tudo aquilo que tentou impedir meu nascimento, isso é o que eu tenho a dizer”. O modo como começam a primeira frase.

Entre todos os modos que se pode existir a música fala com você e te deixa entrar no universo que só existe naquele cd. Do primeiro acorde e da primeira frase você deduz todos os sabores que virão.

É uma música mal educada que vem chutando tudo ou então que suspira algo no seu ouvido ou que é tímida, mas não importa se é com agressividade ou suavidade, ela te faz olhar por cima do ombro e perceber que tinha um pedaço do seu olho que nunca tinha visto nada, um pedaço do seu olho que sempre viu tudo, mas que você nunca tinha reconhecido como seu filho.

Ela pode vir como uma oração. Como uma catedral ela é a transição que te tira do mundo de antes. Mas a oração pode ser entrar num buraco. Sentir medo ou desespero.

Você sente nela o traço do tempo. É dizer “é isso mesmo”, é assim que faziam. É um reconhecimento. O artista se faz guerreiro e entra em batalha, no arranhão que já existe no rosto e se deixa entrever pela armadura ele diz “esse sou eu”.

É um soluço. O prato principal disfarçado de primeiro prato. Um pedido de desculpas e um cuspe na cara. Como tudo mais no Ocidente ela é a resposta do artista à sua culpa e agressão. É fincar a faca no coração do mundo enquanto se chora a alegria de ter de fazê-lo. Sente-se vivo.

Ela tem me inspirado para escrever. Quantas vezes depois de ouvir uma primeira canção eu não pensei: “agora eu não tenho desculpa para não escrever, olha isso!” Ela não dá a mínima pra você porque só olha pra frente, se você olhar pra baixo verá que a mão está estendida para que você a pegue.

Quantas vezes eu não fui com tudo com ela. Mergulhei na água fria. Pulei nas nuvens. Deslizei em calculadoras e máquinas de escrever. Multidões que passavam e não me viam invisível entre elas. Quantas vezes não foi uma dorzinha simplesmente no coração que nós chamamos de prazer e que depois explode num grande ah que nós chamamos de admiração.

Quantas vezes não foram elas que me ensinaram a travar minhas próprias flechas. A olhar e esperar. O momento mágico, retumbante. Agora ou nunca. Em que você. Entra.

Uma Microscopia do Crepúsculo

ALBA

E lá fora...

[INTERLÚDIOS PARA JUNHO]

*

Astro, branco e frio
[cisne no confim]
e luas mil esmaltadas pela bruma

 

Que madrugada em sua alma…

E dentes no covil de sua boca.

*

 

Vinha, da extensa boca aberta
a barcaça

Sonhando,
e vivendo em parte fantasma
nas ranhuras dos espíritos que respirava.

*

Garrafa de luz,
vens rasgar a madrugada
que esvoaça ferida sob a seta da tua raia
num flanco cândido da alcoólica vidraça.

*

Pequenina calhandrina –
voas – e vejo os nós das asas em fuga

E, pelas lascas douras das guedelhas
tuas, as garras tanto espelhadas em fagulhas.

*

Um dia
mais claro que a oliva dos mapas
na tua vista –

Nas quebradiças, duas –
folhas mistas – íris tuas

antiquários do Outono tu tremulas.

*

Menina
que chora, pequenina,
sob a sombra de um boneco de Olinda.

Há rostos tristes nos presépios, ainda.

*

Arei as trastes
trêmulas da tarde [gris –
mas inclinada à negra uva
noturna]

E estria tua face
e o cacho que lagrimas
[Desatado
de minhas ternuras pastoris].

*

Nāo páras de chorar
a voz dos outros, viola.

Encheram-te
os sons do mar e vivem-te aedos
revividos –
E amarram sonhos bons
a pesadelos…

*

E lá fora,
tudo abrolhando.

Ela,
na caixa escura da sala,
fica a coser em seu piano
árias com a fibra aérea
que fabrica luas e sono,
Ela

E lá fora,
tudo abrolhando.

*

Dê-me os dedos, querida –
Deixa ver!

Da linda lira desse aedo
há trechos n’ água cinza
inquietos na poça mista – elos
de versos e música:

Onde descansa a sua lágrima,
Ó chuva,
as argolas que casaram
esses bens – ficam ali expostas

Faz noite
e os navios saem
e vāo cantar e os guia
no transbordo desse corpo seu,
oferecido –
Seu sacrifício! –

Pois, lá descansa sua lágrima,
Ó chuva –

Querida,
me dê os dedos!
Deixe já a lira dos aedos!

*

Na lagoa, luas mil –
sinos repousados em seu lúcido prato

Esmaltados nas sombrias
e auras águas – amora que sangra

E desabrochando em sua garganta
aquela rosa de pétalas opostas

Sua alma – aurora!

(André Nogueira, 2007).