O xixi

Quando criança competia consigo mesma, apostava que conseguia ser mais rápida que si, que conseguia até segurar o xixi. Houve um dia em que parou de apostar, um dia em que não conseguiu segurar o xixi – mas talvez tenha parado de apostar apenas no dia seguinte. A professora lha havia encarregado de lavar as [...]

No vão da escada

Mais uma vez ela bebia chá no vão da escada – o que é o vão da escada, aliás? Engraçado como a solidão se apresenta sob tão diferentes formas em indivíduos tão parecidos. A solidão dela se tornava palpável naquela caneca cheia de chá fervendo. Já eram quase três horas da manhã e a insônia [...]

O Espelho

Era uma vez um espelho. Desde que se podia lembrar o Espelho vivia só, não tinha oportunidade de refletir muitas coisas vivas, ao menos não que se interessassem por um espelho. O que o Espelho mais via era luz, e por vezes sentia-se muito potente por lançar raios de luz na direção em que olhava. [...]

Saudade

Sinto seu cheiro, como uma madeleine.
Tomo seu chá, na sua caneca de tucano (é como se você estivesse aqui, dividindo seu sabor comigo). Seu chá tem um gosto nostálgico, tem gosto de você. Cruzo as pernas de um modo infantil, do jeito que você gosta, finjo que você olha pra mim. Posso mesmo te ver [...]

Saudade

Sinto seu cheiro, como uma madeleine.
Tomo seu chá, na sua caneca de tucano (é como se você estivesse aqui, dividindo seu sabor comigo). Seu chá tem um gosto nostálgico, tem gosto de você. Cruzo as pernas de um modo infantil, do jeito que você gosta, finjo que você olha pra mim. Posso mesmo te ver [...]

Persona

Ela tinha em torno de si o spleen em bolha invisível que a comprimia de todos os lados. Invisível, porém, ninguém a notava nebulando o sorriso convidativo que se abria a cada olhar. Ela, quando só, caía dentro de si, caía fundo, longamente. Perscrutava o próprio vazio para encontrar-se num espelho de Borges ou numa [...]

Janela Indiscreta

           
            Fazia uma semana, mais ou menos, que ela tinha se mudado para a minha rua. As crianças sempre brincavam lá fora, acho que ela queria brincar também mas era tímida. Sentava-se na calçada em frente ao seu portão e espalhava suas barbies no chão cinza. Prestava mais atenção, entretanto, aos meninos correndo e brincando [...]

Post Inaugural

Fica a palavra presa na garganta (ou antes ainda), e não sai – não pode sair. Não. Palavra apressada, palavra atrasada, o certo é que ela está fora de tempo e é só o tempo quem diz.
Muda, ela se senta ao lado dele (com toda a determinação do tempo entre eles), seus olhos se encontram. [...]