Cláudia Munhoz

Me pediram para falar sobre uma pessoa. Mas o que eu sei sobre ela, ou sobre qualquer ser, ou qualquer assunto?
Mas o assunto era ela, e não falarei da minha confusão sobre qualquer outro assunto que não ela…
Ela.
Mas ela é um pouco esquisita de descrever, o que ela tem a dizer também…
No entanto me aborrece dizer sobre “Ela”.
Ela sou eu, você, todo mundo. Quando a gente ta triste porque não consegue descrever o que há naquele dia, aquela saudade sem caminho, aquele sentimento sem nome, que a gente tenta colorir com as cores do lápis de cor, mas entristecemos por que são tão escassos! Aí a gente tenta drenar aquela coisa de sentimento, uma inundação de razão e de vontade de dizer, mas o quê meu Deus?
Eu não sei, mas fico encantada com a indignação dela com o “não poder”, com o querer quase febril, querer, como o querer de criança, criança descobrindo o amor, sexo, o ciúme, a morte, a obsessão, a repetição, a saudade… E mesmo sem conhecer direito o quê, fala de uma coisa que incomoda, e não sabe dizer o que sente, uma vertigem, um gelo no estômago da montanha russa, um asco de uma coisa gostosa, sensual. Não, não é o mesmo que Eu vomito, que Eu digo, que Eu digo que disse. Não. É uma coisa diferente, natural, que me fala dos acasos, do amor, de uma descoberta. É uma coisa de já faz tempo, mas que volta como uma ânsia de bebum ansioso. Quem saberá o que a noite vai dizer? na maioria das vezes ela fica em silêncio me esperando, esperando quem sabe se eu falo alguma coisa, mesmo embriagada, mas não falo nada. Nunca sei o que falar . Durmo e esqueço que queria falar.
Mas ela labuta em cima daquelas palavras, espreme e vê se sai alguma coisa, algum suco, algum sulco, uma brecha, uma semente, uma doença,… Como dói para ela admitir que ela não sabe! mas ver o andar dela, o caminho de tudo isso, cada passo, e o soluço…: Dá pra ver o que eu quero dizer? Dá. Dá. Digo eu. E sorrio, acho graça da insegurança. Será que eu tenho alguma coisa pra dizer?
Sei que já pensou que quem já esteve lá embaixo é que tem algo a se comentar, mas ela manca, tenta mesmo assim.
Eu queria dizer a ela que quem está lá embaixo já não consegue mais dizer coisa com coisa. Já não diz mais nada.
A alma dela é quase livre, quase inocente, sem doenças e com vícios bobos, como comer chocolate e conjugar todas as conversas em primeira pessoa.
Por que ler sobre os detalhes? Diria que é porque tudo são detalhes, tudo é bem pequenino e infinito, tão fácil de dispersar, como uma poeira fina, e quando a brisa leva, não traz nada pra colocar no lugar. Mas a verdade é que quero saber sobre os detalhes Dela, que não são os meus. Os detalhes que ela corre através do vento e do tempo para recuperar, e consegue segurar um punhadinho menor que uma joaninha, que acaba se dissolvendo no suor Dela e formando desenhos nas rugas peculiares da pequena palma da mão. Os desenhos é que valem a pena ver, por que eles são de suor e poeira, não de grafite e ócio.

Alda Mara

Para entrar em contato com a Cláudia, preecha o formulário abaixo:

Apenas texto. Nenhuma marcação é permitida.

Uma resposta

  1. Sabe, queria dizer que quando leio seus textos me vem uma emoção indescritível. Obrigada por tornar os meus dias mais bonitos =)

Deixe uma resposta