ALBA

[INTERLÚDIOS PARA JUNHO]
*
Astro, branco e frio
[cisne no confim]
e luas mil esmaltadas pela bruma
Que madrugada em sua alma…
E dentes no covil de sua boca.
*
Vinha, da extensa boca aberta
a barcaça
Sonhando,
e vivendo em parte fantasma
nas ranhuras dos espíritos que respirava.
*
Garrafa de luz,
vens rasgar a madrugada
que esvoaça ferida sob a seta da tua raia
num flanco cândido da alcoólica vidraça.
*
Pequenina calhandrina –
voas – e vejo os nós das asas em fuga
E, pelas lascas douras das guedelhas
tuas, as garras tanto espelhadas em fagulhas.
*
Um dia
mais claro que a oliva dos mapas
na tua vista –
Nas quebradiças, duas –
folhas mistas – íris tuas
–
antiquários do Outono tu tremulas.
*
Menina
que chora, pequenina,
sob a sombra de um boneco de Olinda.
Há rostos tristes nos presépios, ainda.
*
Arei as trastes
trêmulas da tarde [gris –
mas inclinada à negra uva
noturna]
E estria tua face
e o cacho que lagrimas
[Desatado
de minhas ternuras pastoris].
*
Nāo páras de chorar
a voz dos outros, viola.
Encheram-te
os sons do mar e vivem-te aedos
revividos –
E amarram sonhos bons
a pesadelos…
*
E lá fora,
tudo abrolhando.
Ela,
na caixa escura da sala,
fica a coser em seu piano
árias com a fibra aérea
que fabrica luas e sono,
Ela
E lá fora,
tudo abrolhando.
*
Dê-me os dedos, querida –
Deixa ver!
Da linda lira desse aedo
há trechos n’ água cinza
inquietos na poça mista – elos
de versos e música:
Onde descansa a sua lágrima,
Ó chuva,
as argolas que casaram
esses bens – ficam ali expostas
Faz noite
e os navios saem
e vāo cantar e os guia
no transbordo desse corpo seu,
oferecido –
Seu sacrifício! –
Pois, lá descansa sua lágrima,
Ó chuva –
Querida,
me dê os dedos!
Deixe já a lira dos aedos!
*
Na lagoa, luas mil –
sinos repousados em seu lúcido prato
Esmaltados nas sombrias
e auras águas – amora que sangra
E desabrochando em sua garganta
aquela rosa de pétalas opostas
Sua alma – aurora!
(André Nogueira, 2007).
Arquivado em: André Bacciotti Nogueira, Tetras

Finalmente tão bom poema vem a público. Uma contribuição de valor à literatura brasileira contemporânea.