SÍNDROME DO PÂNICO. capítulo 83412.
Parece contraditório – as horas mais especiais dos meus dias são aquelas em que estou semi-consciente do que se passa à minha volta, e ao mesmo tempo atento como nunca. O torpor é incontrolável, tarde demais quando sinto sua presença. A dormência chega, as veias do pescoço começam a latejar e o mundo(?) forma-se sob uma nova ordem em minha mente. O medo nunca vai embora; medo bom, às vezes. Minha vista fica borrada e o tempo parece não fazer mais sentido. O sentido parece não fazer mais tempo.
Os pés se enroscando em sincero carinho, no chão sujo, as mãos segurando firme nos canos presos ao teto, a janela aberta e o vento e a fumaça já com ar de familiariedade. Os pelos, os dentes, as roupas, o cheiro, tudo grita pra mim, enquanto tento acordar deste sonho que não poderia ser mais real.
No concerto não foi muito diferente. Nomes estranhos, harmonias desconhecidas e a luta para continuar sóbrio, para não me perder dentro de mim mesmo. Fecho os olhos para tentar entender a música, mas não consigo. Toca-se uma partitura que ficou perdida por oitenta anos em uma biblioteca dinamarquesa. Bohuslav Martinu encontrou seu “filho perdido”. Continuo não entendendo nada. Aprecio enquanto há tempo.
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Morrer. Deixar de existir. O que isso realmente significa?… Gostaria de saber por que continuo me preocupando tanto com isso, mesmo que não passe de uma preocupação inconsciente, involuntária, uma doença que se desenvolveu em mim e a que reagi passivamente, como um câncer. Estou impregnado de pânico, e temo a insanidade. Assumindo meu estado como tal, aceito qualquer ajuda. Anseio pela volta dos tranqüilos dias de minha amada rotina, que sempre tanto estimei. Anseio a volta de mim mesmo. Em algum passo contra o vento minha personalidade se desgrudou de mim e não pude fazer nada a não ser vê-la indo embora e fechar-me numa breve despedida. Vazio.
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(pensando alto)
a mulher que me inspira está morta.
todos aqueles que me inspiram, dão-me sensação de prazer ou o toque a uma parte ínfima do saber estão mortos.
e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. apenas aceitar, transcender, acreditar. reler os textos, ouvir as músicas, assistir aos filmes e me apegar religiosamente aos registros deixados. como se fossem a única prova legítima de que já existiram, por um curto período de tempo, estes seres. o vestígio daquilo que me fez quem sou hoje, as partículas que se unem e formam a minha matéria (in)consistente.
Arquivado em: Aline Alvarenga, Tentativa

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Eu sou a Aline, Estudos Literários 08.