MEU FAUSTO

NOTAS PRELIMINARES:

 

Meus caros compatriotas. Certos motivos podem os fazer me perdoar esse último texto que quero compartilhar convosco. Temos, para resolver, o impasse em que caiu o nosso gênero, uma espécie de autismo que nāo se manifesta mais em patamares muito superiores das côrtes e dos ateliês, mas sim em lugares como esse, mesmo porque, com base em uma „libertaçāo“, as artes foram renegadas dos patamares superiores e já nem se conseguem mais erguer dos lugares indignos em que caíram. Pode-se dizer que o rei que perde o trono ganha sua – libertaçāo? O gênero, pois, vagou lugar, e toda sorte de ratos, culturais e nāo-culturais, o ocupou. Uma peça tem de ser um revólver bem-calibrado – tem de estar apontada para o alvo correto, e disposta a disparar. Assim sāo as melhores críticas à tradiçāo e à política. É, porém, de se considerar a importância de dar a essa crítica a preciosidade e o polimento que merece e que a faz merecer o nome de arte – é a parte do bem-calibrado que diz respeito apenas ao amor ao calibre. Um erro, porém, seria calibrar a arma, por mais amor que se possa ter ao calibre, sem no entanto querer mais atirar. E, porque nāo tem mais propósito, porque, embora se tenha dedicado ao calibre toda uma atençāo especial, o calibre só tem para quê se for para dar mira ao alvo – nesse caso, para quê – calibrar? Os artistas se esquecem, mesmo, do perigo que podem representar – Deverá ser uma questāo de baixa auto-estima. Parece-me propício dizer aos amigos compatriotas: Vamos fazer uma coisa perigosa, vamos provocar, mexer – água parada é nicho de mosquiteiros – tenhamos a língua afiada como serpentes, e o chocalho e afiados também os dentes. Se, agora, ficamos renegados à posiçāo de bôbos da côrte, melhor – o bôbo da côrte diz o que quer para o rei.

Acho ruim falar sozinho – costuma-se ligar esse vício a distúrbios mentais. Por esse motivo, ter um blog pessoal parece corroborar com esses distúrbios. Esse espaço, onde porém esperei encontrar idéias que se tangenciassem – menos, quem sabe, que um tiroteio, esse pega de raspāo – e poder corroborar um pouco com isso, esse espaço, na verdade, menos que uma reuniāo de blogs pessoais, é como uma para-olimpíada da literatura – e o principal defeito – surdez e mudez. Por essa razāo, abri māo da ordem cronológica com que eu havia de início me proposto postar meus textos, para escolher um texto de briga, escandaloso. Espero, em carência de meus compatriotas, que isso possa ser divisor de águas entre minha participaçāo e minha nāo-participaçāo;

Quis, nesse poema, mencionar certas coisas urgentes, como a compra dos jatos Rafale que o nosso governo pretende fazer dos franceses – para quem pensou que o ano da França no Brasil realmente tinha motivaçoes culturais; o vigor da lei que re-obriga nossos colegiais a cantarem o hino nacional – como amá-lo? A permanência de um “lacre do segredo”, nos arquivos pátrios da ditadura; O futuro dos homens de barro, os nativos das margens do rio Omo, que vāo ser relocados dos seus recantos de argila devido à construçāo de uma usina hidrelétrica nesse rio. De fundo, o jantar de Trimalciāo e Petrônio que, com um jantar, decidiu celebrar seu próprio fim entre os homens. O episódio do exorcismo de Legiāo para os porcos – epígrafe do Novo Testamento, usada por Dostoievsky em „Demônios“. Um pouco de contos de fada. Rosa Luxemburgo, que tinha na cabeça os suaves versos de Goethe – até lhe ressoarem o fuzil nos tímpanos.

Á, meus compatriotas, nessas coisas, que parecem nascer de uma descrença minha muito desconfortável ao nosso tipo “humano”, nessas coisas, invés disso, há – muito humanismo. Quem escreve nunca descrê! O humanista nāo precisa amar ninguém – pode, inclusive, ser até mesmo indiferente à dor dos seus próximos. Mas se compadece dessa dor assim que lhe pareça essa dor ter sua origem numa injustiça – porque é a justiça que o humanista ama. Posso ter horror ao povo. Mas tenho amor à justiça, o que inclui ter piedade e amor ao povo. O homem, porém, que é vítima da injustiça, ah, esse homem é, também, o seu – autor. Foi, portanto, em nome do homem que escrevi esse poema, e – contra o homem!

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MEU FAUSTO
Sátira-escarra, em único ato e único – fôlego.

Para narradores, trombone, caixa,
rádio-gravador, mega-fone, banda de carnaval,
quebra-nozes, bobos de côrte, etc…

OS PERSONAGENS:
o Repórter; o Presidente; o Diabo;
o Decoro; a Princesa; Brutus;
e Vocês, companheiros.I. PRÓLOGO

O REPÓRTER:
Senhores,
creiam-me, senhores;
Sem opçāo,
me intrometi em uma
encrenca enorme,
incrível, – Nāo
estou mentindo,
nāo! É
o meu escopo ver
no zooscópio o proceder
dos jacarés, no
chafariz da praça da
bandeira, que fazem
guarda à queda d’ água,
em rodízio
a tarde inteira de papo
pro ar, o ar de – caça,
garras e presas pros
otários – que aqui é
fácil:
só esperar os peixes
lhes caírem na bocarra.
O preço? É
de graça. Mas meu
ofício é sempre uma
surpresa – Fofocar, é
pouco – De primeira
o ba-
fafá, é obra-
prima – “A
verdade
sobre a praça da
bandeira”. Vou contar e,
pra me crerem,
mediante a
contribuiçāo, três
ou quatro anos de
preito e garantia – com
direito à devoluçāo!
Podem pasmar –
imparcial, é pro
repórter ser que ao
conseguir a
bom-
ba vira herói
e segue a corda
bam-
ba – o seu impasse,
a sua – ordem!
Isso que é amar o
reino animal!
Entoquei-me em sua
gruta, e lhes toquei com
um graveto;
O véu d’ água
se abriu em fechadura
e eu pus
o flash e disse –
- Broncos seres
d’ água, jacarés! Sorri e
dizei xis! Captura- vos
o juízo, o popul-
acho, o cor
no chafariz, trás do
biom-
bo, – Bu!
E, súbito,
escureceu-se tudo,
e, eis, eu vi – Era
o Diabo! – Xô, urubu! – por
entre a fechadura, de
repente nessa
câmara escura, trás
do espelho; À frente,
a se olhar e se
vestir, ali estava – o
Presidente!
Xi! Tirei o boné,
nāo é mais
um chafariz, e nem se
trata, só, de jacarés…
Isso vai dar
num qüiproquó!
O Diabo
e o Presidente, ali
estavam, lado
a lado! Dizem
que
uma imagem
diz bem mais que
mil palavras, mas,
eu vou dizer
assim:
Rasguei a foto que
bati, – As coisas
que eu ouvi é que
parecem ser
o espinheiro e mais
pentelhos ter que em
meu rabo e mais
votos
que uma urna –
Em frente, o Presidente;
o Diabo, atrás e,
dentre –
um espelho, e eu
dentro da furna – Flash!
O PRESIDENTE:
Eita! O que
é isso? És o Diabo?
Chispa que eu sou o
Presidente, ôxe,
te avexe!
Nāo queira ver
o cabra macho dentre
a gente!
O DIABO:
O mais macho é
vossa alteza,
certamente… Mas, nāo se
embraba, ouve só
que eu
trouxe uma surpresa, – é
um presente…
O PRESIDENTE:
Ô, ô, nāo sei,
nāo sei, o que é que
é?
O DIABO:
Seu reino, ave Cesar,
evoés! A princesa,
o rocim, e o pa-
lácio, a mesa cheia,
os fins como
se os meios nāo
faltassem, e mais:
pouco trabalho, muito
ouro, e mais –
esgrima, tênis,
pôquer, robes, gente –
nobre, – Ócio, Ó,
porque o que
lhe trago é
o melhor, vai ver,
você
por cima: Presidente?
Rei! Eu,
no inferno; Vós mercê –
no inteiro orbe!
O PRESIDENTE:
Ô, ô, eu sei, eu
sei como os negócios
funcionam – eu uso
terno. Mais
sensatez, meu bode.
O DIABO:
O preço? Uma
merreca: Vós mercê a pôs
no pal-
etó, junto com o
lenço – eca! – de
nariz, sujo
com muco – Mais apreço
vós tereis por esses
brindes:
um ponteiro cuco-
cuco, um espelho
zooscópico, e,
meu índio, se puser o
dedo aqui no mesmo
instante, receber em seu
proveito por
escambo essa pena
esferográfica que
sabe, por si só,
grafar seu nome em
pentagramos…
O PRESIDENTE:
Feito!
O REPORTER:
Senhores,
pacto de sangue é
pacto de sangue…
Mas nāo dói: É só
picar. Já vou
embora. Se nāo em
queche, agora
mesmo, após em
cheque, mas – cê vai
pagar! É o que fia essa
manche-
te, é o que fia
o meu – segredo –
nāo espalha! Ouro
é ouro,
palha é palha. De
garantia? Dou-lhes um
dedo, pois a al-
ma – eu já
nāo tinha!

II. BURLESQUE

1.UMA BRIGA EM RONDÓ:

O DECORO:
Obedecer aos bodes.
Deus – é muito
esnobe. Honrar aos seus;
os outros – muito pobres!
Coroa tropicana –
Louros de ananás e de
bananas –
a exuberante burca
sicofante! Esse coro
nāo é como era
o coro grego, esse coro é –
negro,
esse coro é bem
posterior a Aristófanes
e Dante, um coro em off,
é – bastidor!
é espiāo: Disfarça,
mas apita na hora agá,
faz arruaça,
carnavais, e brande a
periquita, bate o
tambor,
dobra o trombone como
a cadeira
de praia e – Adeus!
Obedecer aos bodes!
Deus é – muito esnobe!
O PRESIDENTE,
em frente ao computador:
Espelho, espelho meu…
Existe alguém
mais bonito do que
eu? – curto-circuito!
O DECORO:
Deus – desdém.
O bode – Esfinge.
Pode perguntar! Um
trombone, mil trombones,
muito orgulho – Um só
homem.
A tropa – batalhāo,
trovāo – a exuberância
natural.
Míssil, canhōes – Diz,
o desdém – Sāo mil
festins de carnaval – É
o bem, o que me
quer, e nāo o mal – o
mal, aos seus;
o bem, aos meus,
o bem – a mim!
O PRESIDENTE:
Espelho, espelho meu,
existe alguém…
O DECORO:
Sim, Ergueu-se da
nevasca,
vestiu casaca – a
ban-
deira, outra vez –
vermelha
a guerra – acaba?
Ou se ergueu
do
barro, ou – era o
cabra-macho, o
escarro, era – um piolho;
olho por olho, seu
presidente, era – um
mosquito – dente por dente!
O PRESIDENTE:
Espelho, espelho meu,
existe alguém mais…
bonito?
O DECORO:
Te dou um pito!
O PRESIDENTE:
Nāo suja
de vermelho o meu
sofá. Espelho, meu
espelho, o jantar –
com sal a gosto.
A bandeira – com meu
rosto. O cravo – bem
temperado. A rosa
– ao meu lado.
Eu sempre a quis –
imperatriz. No
bulevar, o chá; o
bolinar que
ferve, o Diabo que –
mexe, uma peça e – o rei
em xeque.
Sem pressa – esse jogo
é pra pensar; nāo me
escape, eu tenho um ás…
O DIABO:
E eu tenho um zape!
O PRESIDENTE:
Tudo o que eu faço
o Diabo também faz!

2.UMA OFENÇA À NAÇAO:

O DECORO:
Corte cerce meio ao ventre
enroscado de
lingüiças – Clava
forte cerce por justiça!
Melhor senado –
o que me esquece!
Entre si, os porcos
que chafurdem
no chiqueiro, alhures
cheiro de xixi,
no – xilindró – melhor. As
pérolas – procura?
Bananas – busca?
Quero-as!
Porco – corpo
impávido, impávido
col-
osso, pro – al-
moço! Se ao pó vos
retornardes –
amigo, um só; sócios,
à parte. Pra mim,
nem jóia, eu
digo, nem vintém,
- no campo,
uma cabana, e passo
bem. Aqui, meu sítio;
ali – a câmara.
Aqui, meu sítio;
Ali – banana! no céu,
bandeira com luar
e firmamento e um faixa –
Desvenda-nos!
É o fim da brincadeira,
a – cobra-cega – Sim,
perpétuo xilindró
pros impropéricos
progressos
financeiros, gratificaçōes e
propinas – té voltar ao
pó por revoltar a
parcimônia.
No espírito – legiāo;
no sítio – batalhāo;
no rodapé – o
grampo, a escu-
ta telefônica;
na gruta – o jacaré;
no céu:
O PRESIDENTE:
Espelho, espelho meu…
sempre que eu
o vejo, quem
eu vejo é o Demônio.
O DECORO:
Ouve melhor a
parcimônia! Al-
egria?
Uma ode – ao
ódio!

3. UMA OPÇAO, UMA DEFESA.

O PRESIDENTE:
E, após
a briga, cê diz tudo pro
seu homem, sobra
um silvo, um – si.
Faça – “peguei!”,
ou “gol!”, ou “ei!”, ou
“ow!”, e “eia!”,
nāo fique em si. No
touro mecânico,
no pique-escon-
de, o pique,
outro, o pique – nike!
Nāo crie pânico,
é o Silvio
Santos – nāo o
silvo – da escopeta;
No microscópio é –
um micróbio, nāo escamas
na corcova do Diabo,
o próprio. Russa
– montanha, nāo
roleta. As bujigangas
no escam-
bo e, por razāo de
sua foto, arranco
-lhe os olhos e o enforco
em suspensórios.
Suba
no porco
que o seu rabo é mo-
la, está
compressa e se
solta e o arremessa prás
estrelas:
“Ow!”… “Eia!”

4.GENEALOGIA DO ROMANCE

O PRESIDENTE, ao
pé do ouvi-
do:
Vem cá,
meu bem, sou
bom partido, meu amor.
Careca? Nunca.
Eu vou – usar peruca.
Os dentes – brancos,
de isopor. O mun-
do é meu repouso.
A alma,
eu vou repôr, Deus
nos acuda, vá
com cal-
ma! O corpo –
very good, thank
you…
Vem cá, meu
bem – poder e um bem
querer:
Romeo e
Julieta, Jerusalém
e – Roma; Isolda e
Tristan, o Volga
e – Gengis Kan; Dante
e Beatriz, a imperatriz
e seu – amante??

[A investir
contra o espelho]

É o Diabo, no outro ouvi-
do, a pedir a sua
māo! Você
’tá…
O DIABO: Obrigado!
O PRESIDENTE:
Atrevido! Te arreb-
ento, meu – irmāo!

[A Dama
sai de cena]

Espere!
Rose, Rosimere! E meu –
rebento?

5. ANTECIPAR O APOCALIPSE:

Turbinas de
energia – Itaipu!
Maior barragem da
usina – o arquivo pátrio:
nāo meta essa buzina
onde nāo foi
chamado! Arqui-rival
que vá dizer pro Super-
homem: Ô, Sétimo
selo é – confidencial!
Como um pássaro
no céu, como – buzina
no céu,
olha
onde mete esse
bedelho! Espelho, meu
espelho, você
é – eu??
O pé de bode é o rei do
orbe? O Diabo
e eu somos
o mesmo, o Bel-
zebu
e eu, o presidente, seu el-
eito? Somos o
mesmo – par-perfeito??
Rex
urubu, é o que és,
um – traidor:
Papo-par-propôr
um trato – Pu!
Itaipu! Des-
comuna ca-
choeira, chafariz dos
deuses to-
dos, presa por meus –
êxitos? Dei-
ta as tuas águas,
vou abrir – nao
me provoque! –
a maçane-
ta!
Ô, Abre a-
las que eu os ferro!
Refletores para o céu – é
show do rei
do rock. O seu berro
é a buzina
do juízo, – Onde é
que está meu sucessor
nesse rodízio?
Na Terra inteira
berram os
bueiros, nos banheiros,
nas banheiras – jacarés;
no palco – „Oh yeah“ e, lá
no alto – o fim do
mundo;
Mas eu expl-
odo essa usina
e ponho fim
ao mundo todo!
Abre a-
las que eu vou –
ferrar com tudo!

[No céu, fechou-se
a fechadura. No orbe
abriu-se a
usina Furnas.]

III. EPÍLOGO.
O CARNAVAL DO „TUDO IGUAL“

O DECORO:
Uma peixeira – um
preá. Sua princesa –
impressionar.
com on-
ze dedos – Rachmanínov,
na casa dos Virguinsky.
Engravidar, ter
um menino.
Arrancar-lhe os den-
tes, pro colar.
Veio crescen
-do, porém, o seu
rebento e
- eis! Já quer tornar-se,
como o pai, um
presidente e reaver
den-
te por dente
e o enforcar em seu co-
lar!
BRUTUS:
Mas, ora pois, na-
da me impede,
quero ser rei! Sujar as
māos do
assassínio? Limpar,
das māos, o tédio!
Primeira dama,
como Édipo, ofereço-me
inteiramente a seu
serviço.
O preço é ter você
na cama. Rosa
Luxem-
burgo, o mun-
do é isso: é –
lingüiça, hambúrguer
e miúdos demiúrgos.
Se estiver vivo,
coma. Se nāo,
deixe que comam,
feche o livro, ferva o chá –
chacrona. Faça
bom proveito! Assassínio
de verdade, só se me
mostrar os peitos!
Liberté, Igualité, Frater…
O PRESIDENTE:
Vamos brindar, be-
bamos vinho.

[E esten-
de-lhe uma taça pro
espelho, o Demo a sua
taça ao Presidente,
que no vidro se estilhaça
e as lentes do espelho
e sobre o piso a
esparramar
sangue vermelho.]

BRUTUS:
Ergue-se a
bandeira, soa um
trompete – estrangeiro,
a tropa – range:
é o invasor
ou – o justiceiro?
Acerte – e fature um
milhāo! Ajuste o
cronômetro e
pressione o primeiro
botāo! É um, é dois…
O DECORO:
Afaste-se, nāo
vou, você que pensa!

[E as excel-
ências ambas
se despencam para o
val-
e sombra e
morte,
corda bam-
ba, clava forte – A
estrela é marte!]

BRUTUS:
Se estiver mal-
uco, cuco, se
entrar em parafuso,
o parafuso vai entrar em…
O DECORO:
Pára!
BRUTUS: Nāo é
tortura, é cadeira de den-
tista – o imperativo
terapêutico, o el-
etro-choque pinça o cu
de um porco à
pururuca.
O show persiste:
O rei do rock e os fios
dos microfones,
saxofones, vibra-
fones, raios-laser,
microchips,
shoppings, robocopes,
pôquer, robes,
Hebes e Mercedes
conversíveis,
clepsidras anti-aérias,
mísseis,
por fios a uma rede
de fusíveis nacionais
a começar na
hidrenér-
gea Itaipu
e correr por mil ventosas
dos mil braços de um
Kraken
que abraçam o Brasil, até
vir desaguar no cu de –
seu jantar!
Oito braços e um
botāo – Pois,
aquiesça,
ponha a bo-
ca no trombone, bo-
te pra quebrar!
É um… é dois…
é três e…
BUM!!!!
..     ..
..               ..
..                         ..

O REPÓRTER:
Da mesa super
de Trimal-
ciāo, supremo
rei, ex-camponês,
do ven-
tre d-
um impávido – leitāo
bem-rechea-
do em
dinamites, irrompe um
cogume-
lo
de
neon que diame-
tral-
mente emite
esse mítico ce-
nário que é, porém,
familiar a quem
se habi-
tuou a ter o O-
limpo como lar
cesáreo – Começam
a reviver na névoa, na
caverna, os jacarés
papo-amare-
lo,
os cantores e atores
da TV usam roupāo,
cach-
imbo e chine-
los e crachás da
Onu, o povo
do rio Omo – nao;
a praça da ban-
deira vira um circo,
um – cal-
deirao, o povo bate
palmas, re-aquecem-se
as al-
mas,
purpurinas
e confetes, dan-
çarinas e chacre-
tes fuxiqueiras e
pandeiros,
bumbos,
bombas, reco-
reco, cuco-
cuco, vuvo-vuco, o muco,
Gol! o mico, eia,
pôneis, cisnes e
sereias, olímpicos
golfinhos
de biquine ao
molho pomodoro,
um zepelim de condom
e os brindes consagra-
dos
do chapéu
do mestre-cuca.
O pior – sao os
piolhos na peruca!
A onça
e a preguiça, o rei da
França
e o Rafa-
le iça, no varal
de Capricórnio, uma faixa
sob o céu
de ab-
domen – verme e
cisto –
„Relaxa, homem!
Tenha fé
em Jesus Cristo!“
Arreta,
a vida segue no seu
curso. Uma pena,
só, apenas, o
poeta ter
cortado, já, os próprios
pul-
sos!

FIM

kraken1

André Nogueira, 2009.

 

 

 

 

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