Mais uma vez ela bebia chá no vão da escada – o que é o vão da escada, aliás? Engraçado como a solidão se apresenta sob tão diferentes formas em indivíduos tão parecidos. A solidão dela se tornava palpável naquela caneca cheia de chá fervendo. Já eram quase três horas da manhã e a insônia não a permitia deitar-se pois odiava rolar de um lado a outro da cama insone, cada vez que olhava o despertador ao seu lado perdia ainda mais o sono, enfim, simplesmente não fazia sentido deitar-se, seriam horas perdidas. Preferia ver TV, ou ler um livro, entrar na Internet. Naquele momento, entretanto, não havia nada na TV, não tinha paciência para o computador nem concentração o suficiente para um livro, melhor beber chá no vão da escada. Faria dali sua morada obscena? Talvez.
Roupas já realmente lhe pareciam supérfluas, e escarrar pela janela nos transeuntes sem nome poderia ser divertido, dá para passar o tempo. Seu marido, entretanto, não a visitaria no vão da escada, não viria lhe pedir sexo ou ânimo, seu marido não a acompanhava no vão da escada. Seria obscena sozinha, seria realmente sozinha, e beberia chá à memória do marido ausente. Não, ele não estava morto, nem eles haviam se separado, só já não se preocupavam mais, o companheirismo não chegou até o vão da escada. O passar dos anos a fizera assim, mais desnuda, mais calada, mais sozinha, e a ele o tempo fizera concentrar-se cada vez mais e procurar nunca perder a razão – ou deveria dizer a memória? Ela já não se importava mais se lhe viesse a demência, o que são as memórias, afinal? Quão confiável era a memória sã de seu marido?
Quando criança, ela se lembrava ainda, gostava de pular gradativamente os degraus da escada, cada vez mais degraus em um só pulo, um dia caiu de boca e enterrou um dos dentes da frente na gengiva. Era de leite, mas fincou-se tão fundo na gengiva que quando o permanente começou a crescer teve de acomodar-se atrás dele, pois não saía por nada dali! Agora tinha três dentes da frente para morder o pão que já não comia. Ele demorou a perceber aquele terceiro dente nela, não entendia como, era tão aparente!
No começo só de vê-la subir a escada ele a puxava para si, e a despia ali mesmo, no terreno acidentado de degraus. Agora ela passava os dias completamente nua, tomando seu chá que queimava a língua e o céu da boca, e já ninguém lhe procurava. Por vezes pensava em sair dali, vestir uma roupa e encontrar gente, mas só de pensar no peso dos tecidos e das conversas, na dificuldade de explicar o mundo em palavras, perdia a coragem de tentar ouvir as palavras ininteligíveis dos outros, perdia a vontade de deixar seu espaço. As pessoas cansavam-na, e ela também cansava a si mesma, não suportando mais nem a solidão nem a companhia. Escrevia recados na madeira velha da escada.
“Esqueci de lhe dizer que se lembrasse de mim quando eu já não pudesse mais me comunicar com você, e agora é tarde demais para que pensemos um no outro, para que eu tenha palavras minhas que possam ser suas. Agora já não tenho mais um olhar que te explique tudo, e você se esquece de olhar para o vão onde me encontro, e eu me esqueço de chamar você aqui. Quando eu escrevo, eu leio, e ao ler eu me lembro. Lembro que nos escrevemos cartas, que sofremos com a distância, que juramos tantas coisas que já não sei, já não me lembro do que aconteceu depois, de repente eu estava aqui sem nem sentir a sua falta. Já não tenho nada para ler, mas quando eu escrevo eu leio, e quando leio me lembro de você. Você lia para eu dormir… já não durmo há tanto tempo, talvez fosse bom ter você para ler para mim, talvez… eu já não me lembro se gostava, ou se você me entediava até o sono.”
Arquivado em: Cláudia Munhoz, Detalhes

Como posso dizer uma coisa dessas!? Bom, se existe alguém com um gigante estômago esse alguém é você.
Lembrei da cínica Senhora D escondida no vão da escada se perguntando se Deus também tinha ânus.
Cláudia, o texto está lindo, uma linda digestão de um monte de coisa boa.
Hum…..mas chás e detalhes são tão seus!
com excessão do primeiro parágrafo acredito que você conseguiu desenrolar bem o texto. Essa primeira parte fica um pouco travada, porque, repleta de clichês (a cama solitária, o despertador, a moça que rola de um lado para o outro) e cacofonias (“a insônia não a permitia deitar-se … outro da cama insone”), acabou destoando do corpo textual restante.
Achei interessante a imagem da escada com um ponto de confluência entre passado e presente narrativos. Da forma como você dispôs a personagem nua, aparentemente a escada e a xícara funcionam como uma roupagem de que ela se vale para pensar sua condição. A escrita na escada por sua vez, parece pensar a função da Literatura (“Quando eu escrevo, eu leio, e ao ler eu me lembro”, “Já não tenho nada para ler, mas quando eu escrevo eu leio, e quando leio me lembro de você”) um exercício meta-ficcional que em termos narrativos atualmente tem muita valia, rs.
Ainda assim, essa última inscrição na escada soa pouco natural. Não toda ela, mas principalmente o começo. Em se tratando de uma assinatura num ‘instrumento’ que em certa medida dialoga com a personagem, e talvez destinada a um interlocutor também íntimo, ela poderia ter uma linguagem menos literária e mais cotidiana, não acha? expressões como “agora é tarde demais para que pensemos um no outro, para que eu tenha palavras minhas que possam ser suas” parecem muito pesadas para uma simples anotação na madeira.
com excessão do primeiro parágrafo acredito que você conseguiu desenrolar bem o texto. Essa primeira parte fica um pouco travada, porque, repleta de clichês (a cama solitária, o despertador, a moça que rola de um lado para o outro) e cacofonias (”a insônia não a permitia deitar-se … outro da cama insone”), acabou destoando do corpo textual restante.
Achei interessante a imagem da escada como um ponto de confluência entre passado e presente narrativos. Da forma como você dispôs a personagem nua, aparentemente a escada e a xícara funcionam como uma roupagem de que ela se vale para pensar sua condição. A escrita na escada por sua vez, parece pensar a função da Literatura (”Quando eu escrevo, eu leio, e ao ler eu me lembro”, “Já não tenho nada para ler, mas quando eu escrevo eu leio, e quando leio me lembro de você”) um exercício meta-ficcional que em termos narrativos atualmente tem muita valia, rs.
Ainda assim, essa última inscrição na escada soa pouco natural. Não toda ela, mas principalmente o começo. Em se tratando de uma assinatura num ‘instrumento’ que em certa medida dialoga com a personagem, e talvez destinada a um interlocutor também íntimo, ela poderia ter uma linguagem menos literária e mais cotidiana, não acha? expressões como “agora é tarde demais para que pensemos um no outro, para que eu tenha palavras minhas que possam ser suas” parecem muito pesadas para uma simples anotação na madeira.
Eu também não estava feliz com o primeiro parágrafo, então o reescrevi. Mudei mais poucas coisas no texto, que ficou assim:
Mais uma vez ela bebia chá no vão da escada – o que é o vão da escada, aliás? Engraçado como a solidão se apresenta sob tão diferentes formas em indivíduos tão parecidos. A dela se tornava palpável naquela caneca cheia de chá fervendo. Já eram quase três horas da manhã e a insônia não a permitia deitar-se, pois odiava rolar de um lado a outro da cama, cada vez que olhava o despertador ao seu lado perdia ainda mais o sono, enfim, simplesmente não fazia sentido tentar, seriam horas perdidas. Nada a fazer. Tentou ouvir música; ela rompia desagradavelmente o silêncio, a melodia quebrava-se em ruídos. Nada a fazer. Melhor beber silêncio no vão da escada. Faria dali sua morada obscena? Talvez.
Roupas já realmente lhe pareciam supérfluas, e escarrar pela janela nos transeuntes sem nome poderia ser divertido, dá para passar o tempo. Seu marido, entretanto, não a visitaria ali naquele vão, não viria lhe pedir sexo ou ânimo, ele não a acompanhava no vão da escada. Seria obscena sozinha, seria realmente sozinha, e beberia chá à memória do marido ausente. Não, ele não estava morto, nem eles haviam se separado, só já não se preocupavam mais, o companheirismo não chegou até o vão da escada. O passar dos anos a fizera assim, mais desnuda, mais calada, mais sozinha, e a ele o tempo fizera concentrar-se cada vez mais e procurar nunca perder a razão – ou deveria dizer a memória? Ela já não se importava mais se lhe viesse a demência, o que são as memórias, afinal? Quão confiável era a memória sã de seu marido?
Quando criança, ela se lembrava ainda, gostava de pular gradativamente os degraus da escada, cada vez mais degraus em um só pulo, um dia caiu de boca e enterrou um dos dentes da frente na gengiva. Era de leite, mas fincou-se tão fundo na gengiva que quando o permanente começou a crescer teve de acomodar-se atrás dele, pois não saía por nada dali! Agora tinha três dentes da frente para morder o pão que já não comia. Ele demorou a perceber aquele terceiro dente nela, não entendia como, era tão aparente!
No começo só de vê-la subir a escada ele a puxava para si, e a despia ali mesmo, no terreno acidentado de degraus. Agora ela passava os dias completamente nua, tomando seu chá que queimava a língua e o céu da boca, e já ninguém lhe procurava. Por vezes pensava em sair dali, vestir uma roupa e encontrar gente, mas só de pensar no peso dos tecidos e das conversas, na dificuldade de explicar o mundo em palavras, perdia a coragem de tentar ouvir as palavras ininteligíveis dos outros, perdia a vontade de deixar seu espaço. As pessoas cansavam-na, e ela também cansava a si mesma, não suportando mais nem a solidão nem a companhia. Escrevia recados na madeira velha da escada.
“Esqueci de lhe dizer que se lembrasse de mim quando eu já não pudesse mais me comunicar com você, e agora é tarde demais para que pensemos um no outro, para que eu tenha palavras minhas que possam ser suas. Agora já não tenho mais um olhar que te explique tudo, e você se esquece de olhar para o vão onde me encontro, e eu me esqueço de chamar você aqui. Quando eu escrevo, eu leio, e ao ler eu me lembro. Lembro que nos escrevemos cartas, que sofremos com a distância, que juramos tantas coisas que já não sei, já não me lembro do que aconteceu depois; de repente eu estava aqui sem nem sentir a sua falta. Já não tenho nada para ler, mas quando eu escrevo eu leio, e quando leio me lembro de você. Você lia para eu dormir… já não durmo há tanto tempo, talvez fosse bom ter você para ler para mim, talvez… eu já não me lembro se gostava, ou se você me entediava até o sono.”