
5 NOITES DE INSÔNIA.
1ª NOITE:
Olho para a janela aberta. Há pouco, sonhei –
Uma briga, alguém disparou contra o meu rosto. Só que eu abri os olhos e o disparo se perdeu, porque eu os abri para cá do sonho e o tiro se perdeu – no sonho.
Volto o olhar da janela, agora para o cômodo escuro.
O tiro, que quase me pegou – e que agora corre em caminhos assim – sombrios, coexistentes, sem nenhum impedimento – voa nítido, avermelhado com essa pressa de me encontrar – mas também correndo sem esperança alguma, porque nāo vai me encontrar – sem esperança alguma – assemelhou-se, um pouco, com esse espaço.
Pode ser, a minha próxima volta ao sonho seja o nosso reencontro, para quando, outra vez, eu me deitar e esquecer essa idéia ou – confirmar essa idéia.
[27 de Outubro, 2007]
2ª NOITE:
Madrugada, o Georgia está aberto. Eu quero ir para casa, quero imensamente ficar deitado, e adormecer – e isso já diz alguma coisa sobre eu estar aqui. Faz muito calor, nāo dá para dormir. Ficar no quarto nāo seria uma boa idéia…
Tuas vigílias angelicais
estilam pela noite que esvai.
E as tensas frontes das residências se resguardando
da tua guarda carinhosa, anjo.
Como no Stalker, eu cheguei aqui – por um lado, intuindo; por outro, fazendo voltas. Mas nāo tenho um objetivo. Pois, no Stalker, eles tinham o maior dos objetivos. Nada restou do meu objetivo, senāo o próprio sono. Mas, vamos lá, porque no Georgia se encontra, pode ser, a – fortuna verdadeira. Pois, eu ainda tenho um desejo. Apenas nunca fiz dele um objetivo.
Há uns vinte homens na esquina do Georgia Restaurante e uma bicicleta sempre atravessando, atravessando perigosamente. É que, agora, nem tanto. O perigo já passou – podemos afixar os olhos nela.
E a garota, que trabalha no Georgia Restaurante, todos nós queremos o telefone dela. O rosto dela, apesar de que é bonito, esvaece da memória, como uma sombra – procuro guardá-lo, por mero exercício, fecho os olhos, e é preciso, novamente, abri-los. Essa gente nāo costuma, mesmo, exercitar a mente. Todos nós queremos algo dessa forma que nos encanta. É que ela tem um rosto, mas quem é que consegue guardá-lo? Supomos, ela tem um passado. Mas alguém consegue adivinhá-lo? Ela tem, sim, um passado – só que nada ficou. Ela ficou, e de seu passado ninguém encontrou algo que possa – permanecer.
Quais e quais, e as pessoas sambam: Qual o seu nome? Qual o seu endereço? E, de repente – Qual o seu – rosto?
Faço da garrafa cheia – espelho. Espelho dela, espelho de seu corpo, mas – preenchido de espírito. Vou levá-la – como um gênio – na garrafa!
E na esquina o semáforo fica variando em vāo; apenas o ciclista vem e vai, mas a ignorá-lo. Depois, eu e a viseira do ciclista, vazia, mas também única observadora.
Belíssima Lua! Sob a tua essência fria
a gente bêbada de vê-la.
Quanta saudade interrompida
sob ti, convidando-te a seguir viagem.
Mas, pérola das pérolas!
no teu abraço inteiro, imperdoável gelo.
[28 de Outubro, 2007]
3ª NOITE:
Essa Tabacaria do Fernando, é um lugar difícil de suportar. A moça, que tem uma águia desenhada na camisa, e seis ou sete brincos no rosto, no seu rosto possível… Parece se tratar do ponto das bichas, das prostitutas e dos pensamentos pervertidos, novíssimos –
A moça carrega o abridor de garrafas no bolso de trás das calças.
As linhas já nāo sāo mais paralelas, nem há as pinturas de navios atracados, mais. Mas – conjuntos de garrafas industriais. Á, já nāo estou mais no Georgia – lembro-me. Dizem que o Georgia é um restaurante. Mas, ontem, eu e todos que estivemos ali, a gente sequer pensou estar num restaurante. Só que o Georgia ainda assim tem muito de restaurante, inclusive quadros de barcos e portos.
Sentei-me na mesa de quina, para ver o cara acocorado no balcāo – o último dos cínicos, terminado – exatamente como o primeiro dos cínicos. O pensador cínico – o verdadeiro. O perversor cínico – o verdadeiro. Com a perspectiva inquestionável de quem, simplesmente – viveu. O dono do bar o domesticou, porque gosta de ouvir as reflexões que ele faz, mas, também, pensa que já é hora de chegar. O outro, que também pensa que já é hora de chegar, rendido por uma verdade perspectiva cheia de licor, porque ganha o licor de presente, – chega. Estamos todos num negríssimo porto e, pensamos, merecemos o licor.
A capa do caderno de preços se descola, igual pele morta. A moça pisa numa tampinha de garrafa, no piso cinzento, pelo simples prazer de pisá-la. A tampa roda, como saia metálica.
Vivo, por insistência. Vai chover. Mesmo que seja o fim, porque chegou a hora de voltar pra casa, acho mesmo que a minha casa é mesmo o começo de toda essa coisa. A gente nāo quer pegar esse temporal, no caminho. E me perguntam, no ponto de ônibus – Já passou o Parque Real?
A e B conversam:
A: Você a conhece? O que acha? Pode ser que muita gente a considere a preferida. Mas, acima de tudo, que seja – a minha preferida.
B: Mas, afinal, você está acima de tudo?
A: Você conhece a escória que freqüenta o Georgia. Só que essa escória se vira, e muito bem. O cara fica batendo palmas, o que é quase vergonhoso para ele e para mim. Mas, e ninguém imaginava, ele também faz mágicas, e um maço de cigarros aparece da manga, ou do nada. Bate palmas, mas tem māos profissionais. Convidam o cara pra se sentar à mesa. Todo mundo quer um cigarro, principalmente um cigarro mágico. Eu era minoria. Passo a ser imensa minoria. Você precisa vir comigo, a gente consegue disfarçar.
B: Nāo esquenta. Se você diz que despreza tudo isso, a garota, certamente, vai gostar de você.
A: Mas, isso porque – eu desprezo tudo isso?
B: Vamos, vamos parar com isso.
No fim das contas, já nāo é noite. E parece que a isso sempre chegam todos os fins das contas noturnos.
O triunfo da avezinha é meu íntegro espírito,
avizinha-te comigo, sê minha!
Que fim de noite,
belíssimo!
E, abrindo uma luz azul translúcida azulada,
uma estrela de asas espreguiçadas.
[29 de Outubro, 2007]
4ª NOITE:
A moça, na Tabacaria do Fernando – a mesma coisa, a mesma coisa – provável. Vamos, é preciso que seja – pior. Moça sorridente, espere, porque um mau-espírito foi quem atravessou a rua. Antes eu aceitaria que você estivesse com seus espíritos maus, nāo ligaria para nada. Mas, hoje, nāo posso mais te perdoar.
Porém, porém – o cínico, já nāo está. Eu – estou. Aqui, quase premeditadamente. É certo, mereço a bebedeira.
Há um tipo ali – um empresário mal-sucedido. Com suíças, olhos pequenos e o bipe, na cintura brim. Ele teria tudo, mas foi um infortúnio tudo isso e ele nāo tem nada – foi mal-sucedido, se dedicava para aquilo, ele bebe desde que as coisas dāo errado e desde que elas dêem errado, e ele também merece a bebedeira. Mas nāo tem nada pra contar, nem – perspectiva – precisa pagar. E isso nos torna mais próximos. Ele nāo é o preferido, nunca esteve tāo longe do sucesso, ele é apenas – um empresário mal-sucedido.
Faz calor, preciso andar. O ônibus só passa de hora em hora e, daqui a pouco, fará hora. Se tiver de ser, que seja. A gente renova o espírito, mudando de casa. Modelamos o que há por dentro, se dermos uns golpes no corpo que é por fora.
O grandalhāo dá uma bronca no cara da registradora e diz, quem sabe, para o próprio Fernando, o dono do pedaço:
- Nāo precisa beber escondido, senta aqui, ninguém se importa! Você está até parecendo cliente!
Esquece-se que, apesar disso que parece ser camaradagem e que o une, ao que parece, ao próprio Fernando, esquece-se que, apesar disso, ele próprio é – cliente. Esqueceu-se. Ele está acima do dono. Que seja – para essa briga, eu aposto minhas fichas no Fernando. O grandalhāo é grandalhāo, mas o Fernando também tem o seu bipe na cintura e é – um empresário bem-sucedido.
Os companheiros discutem, logo ali, sobre como sobreviveram a uma vida de desvarios:
A: Uma dose de formol! Uma dose de formol pro meu amigo aqui! Tô ligado, em como você fez pra continuar assim, como novo.
B: Isso mesmo, mocinha, o de sempre.
A mocinha vai entender que estou num mau momento da vida? Uma dose de formol pra mim!
Uma peninha de pomba cai enormemente no chāo. Que enorme sombra… igual um sonho – mas, a questāo: uma peninha, na penumbra.
- Á, eu queria tanto ir embora – a mocinha diz ao o nosso companheiro. Ele responde:
- Eu queria estar em casa também, mocinha. Mas que calor nāo deve estar fazendo lá… – E compreendeu o começo de toda essa coisa. A moça inclina cabeça, com charme, tanto que chego a ler na sua camisa, cometendo um engano, London-Elegant…
No Georgia restaurante, que você nāo pense de mim uma má coisa, linda pessoa, que nāo pense que eu – nāo seja uma linda pessoa. Na estranha caminhada, pois, eu me debruço sobre uma árvore que tombou e sinto tristeza verdadeira. Agora, enorme corpo, é de cima que eu o vejo. Quantos dias você irá levar pra perceber esse mais nada que o prende à Terra? A chuva recomeçou, abrigo-me no ponto de ônibus. Vem mais alguém correndo para se abrigar, e me pergunta – Já passou o Parque Real? – Garoto, foi o último ônibus que partiu. Agora, só daqui a uma hora. O menino vai embora a pé, mesmo, na chuva, mesmo. Um livre-peito, e isso nos diferencia um pouco. O que nos aproxima – estamos ambos no pior dos mundos, ambos perdemos o ônibus…
Ó noitada!
que fizeste dos arvoredos? –
que afundaram no teu poço trêmulo,
- vazio tenebroso em que o astro faltava?
Ó noitada.
Tens, pelo menos,
as sombras da estrela
que nunca se fatigam circundando a alva.
[30 de Outubro, 2007]
5ª NOITE:
O mundo termina para uns, para os outros o mundo, ainda, é como uma pedra preciosa.
Encontrei-me com ª… no dia de uma grande tempestade, que começou a cair quando estávamos num descampado, a caminho do restaurante. Como estivesse a cair um raio de luz milagroso e retangular, andamos por cima de um grande metro de grama nova e verde-clara. Todo o instituto ficou no escuro, mais tarde, e correram versões diferentes da história – contava-se que o raio pegou o próprio sujeito, ou a uma árvore que, por sua vez, pegou o próprio sujeito, etc. – Jantamos no escuro. Mas jantamos de graça.
O escuro do espírito – petróleo antiqüíssimo… A morte o espalhará? Á, se a gente nāo vivesse – sob os raios fabricados de uma geometria – sólida – que se derramou por cima – do nosso abraço – de amor. Nos separou!
Sempre esperamos a noite chegar, quando queremos buscar o íntimo. A noite nos familiariza com o espírito, sempre tenebroso.
A: Fica mais ereto…
B: Dizem que, se você caminha curvado para baixo, é porque os teus pensamentos estāo tristes.
A: Há quanto tempo você manca?
B: Talvez, um ano. Talvez faça um ano hoje.
A: E entāo?
B: Estou inclinado a pensar que, comigo, se passa o contrário. É o meu jeito de andar que me transforma o jeito de – pensar.
A: Um espírito manco?
B: Se você quiser.
Todos os dias, uma filha,
uma irmā nossa, tu destinas à partilha
e a negra alma inclinas sobre a abóbada.
………………………………
Escuro imenso,
se mesmo escudos levasses face
a leve asa da min´alma mergulhada
em ti
Eu te creria crivando-me a tua cara espada,
na verdade, em mim.
Eu te ajudo
a te jorrares em tudo.
[31 de Outubro, 2007]
Arquivado em: André Bacciotti Nogueira, Tetras

Gostei, me surpreendeu e eu pensei p q não tinha lido seus posts antes…
Não gostei das poesias no final de cada noite. Sentia q estava indo pra certo lugar e daí a poesia vinha e diluía tudo… era isso que você queria?
Abraço
Oi, Raoni. Obrigado pela leitura. Você nunca leu minha coluna antes, provavelmente, porque ela nāo existia, ainda. Foi, esse texto, a primeira postagem que fiz, para experimentar. Aliás, acho que a coluna ainda nāo existe, de fato, porque nāo consigo observá-la ali, na lateral da página. Seja como for, apesar de que nāo sou apto a computadores, nāo vou pedir ajuda.
Para ser franco, preciso dizer que nāo havia uma intençāo precisa, ao escrever os apontamentos que você leu, porque, apesar de nāo ter feito referência a uma “verdade estritamente factual”, elas eram para parecer um apontamento biográfico, nada mais. Na ocasiāo, eu começava a escrever os Noturnos, um conjunto de poemas para a noite, e terminada de escrever Alba, um conjunto de poemas para a alvorada e, nas madrugadas dos dias 27 a 31 de Outubro, eu escrevi os apontamentos em verso que você leu, que serviram para ambos os conjuntos, e, ao mesmo tempo, mas com outro propósito, escrevi os apontamentos em prosa. Só mais tarde eu pensei em usar essa prosa para um apêndice aos Noturnos. Mas as coisas se encontravam juntas por fazerem parte do mesmo caderno, apenas. Talvez fosse melhor ter deixado o apêndice para um futuro colecionador, mas nāo pude esperar.
De qualquer forma, eu creio que poesia e prosa sejam como vinho a água, uma é sagrada, outra nāo – a postura do escritor para escrever versos precisa se transformar em outra coisa, se ele quiser passar para a prosa. Entāo, os versos, ali, nāo combinam com a prosa, nāo apenas porque os projetos nāo eram os mesmos, mas porque os objetos também nāo eram os mesmos.
Um abraço,
André.