Como é ser um fantasma

Eu estava na cozinha conversando com a minha mãe. E era ela quem me dizia ou eu dizia pra ela que a lua estava cheia. Eu então eu olhei para o céu pela janela, como se não houvesse teto, e vi duas luas. Uma cheia e brilhante e outra crescente, muito maior e difusa. E discordei da minha mãe e disse “Não, há duas luas”. E nós dois olhamos para cima, tentando decifrar o enigma.

Fomos para a varanda, para junto do meu pai, ainda olhando para o céu, tentando adivinhar o que estava acontecendo. Então eu descobri. Não era uma segunda lua. Era um daqueles balões metereológicos, que brilham no céu à noite, que as pessoas acham que são óvnis. Eu contei pra eles e continuei olhando para o céu. Mas comecei a ver mais uma e outra e outra lua, ou agora estrelas, ou balões metereológicos, mas agora todos brilhavam no meu céu, como se fossem pequenas bolhas durante o dia, caindo sobre a minha casa.

Mas não eram bolhas, nem luas, nem balões. Quando eles foram chegando mais perto nós vimos que eram pára-quedas, era o exército inimigo sobre a nossa casa. E no mesmo instante que eles estavam a três metros do chão eles estavam entrando em galpões e depósitos e invadindo cada casa de cada família e matando todo mundo, inclusive a minha.

Eu estava ao lado deles quando uns dois ou três soldados chegaram e atiraram em nós. Todos nós morremos, mas eu não vi morte, nem sangue, nem o corpo de ninguém, quando eu olhei ao meu redor eu já estava sozinho. Não havia mais exército, nem minha família, nem ninguém por perto, só havia eu parado na varanda, embora eu intuísse a presença de outras pessoas em algum lugar por perto.

Eu estava vivo, mas o exército ainda estava por perto, se eu me movesse um pouco mais rápido ou se sentisse alguma emoção um pouco mais forte eles me descobririam e me matariam. Eu estava apagado, eu me mantive vivo por não sentir nada, por me manter tão imóvel que eu era a coisa mais próxima de uma sombra.

Alguém falou comigo ou eu não sei. Eu pensei que meus pais tinham sido muito mais corajosos que eu, morrendo por serem de carne e osso, morrendo por poderem sangrar, morrendo porque no momento em que a primeira bala atravessou o primeiro pedaço de pele eles gritaram com toda a dor e com todas as cores que eram todas as suas vidas. E eu senti saudades deles, eu não queria mais ficar sozinho, também queria companhia.

Decidi me mover e decidi morrer também. Eu me movi e me movendo eu comuniquei ao mundo inteiro que eu estava disponível para a morte, mas que ainda no domínio do tempo eu correria o risco de estar vivo. Eu desci as escadas e eu passei pelo banheiro. Eu estava procurando alguém que me matasse. Porque nenhuma morte, assim como nenhuma vida, não tem sentido.

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